terça-feira, 15 de agosto de 2017

Mulheres com poesia dentro

Há mulheres que têm poesia dentro delas. Vemo-las deslizar em finais de tarde, no meio das acácias, sem deixarem vestígios de si, denunciadas apenas por algumas gotas de perfume, que se confundem com o cheiro fresco do amanhecer. Repetem estas viagens vezes sem conta, indiferentes à rotina do caminho e do desejo, porque as persegue um gosto estranho por uma vida eterna. Procuram, com teimosia inquieta, o sentido preciso da sua existência. 

https://i.pinimg.com/236x/70/f6/4a/70f64a69d53b690cbeba56e1e27f92ab.jpgSão mulheres suaves, deixam ver a tremura dos lábios quando se emocionam, perfiladas que ficam frente à nostalgia. Refrescam-se com palavras novas, guardam-nas como relíquias puras e semeiam o seu brilho no calor da noite, junto ao portão dos sonhos, lugar onde pernoitam muitas vezes.
Esperam missivas de outros lugares, uma gruta embutida nas rochas, salpicos perdidos de uma cascata, o cantar de um rouxinol, o voo rasante de uma gaivota. Inquietam-se com o fulgor dos dias e das relações dos homens entre si, refugiando-se em pedaços de historias inventadas.

Criaram-se entre beijos e pedras do deserto e por isso sabem ler nas estrelas e nos corações aflitos. Traduzem, com elevada perícia, o sentido do amor e da rebeldia, em doses nem sempre consentidas.

São mulheres raras, nomeadas pela sua fragilidade, meia triste e no entanto, quase sempre inaugural. Reclamam, em dialetos sussurrados, outra ordem no mundo, o amor sem prazo de validade, a alegria como esteira no chão, a liberdade para tecer cravos à janela, em cidades justas. Recusam o medo e a prisão dos dias, servindo-se da poesia que as habita. Com isso se defendem e se escudam, aninhadas em palavras que são pão, vinho e abraços. Isso lhes chega para sustento. São mulheres raras, conheço algumas.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Reservas

Penso nas reservas que tenho dentro de mim e agradeço. Permitem-me, em muitos dias, descansar no mundo, aconchegada e atenta. Porque as reservas nos protegem do desconsolo e da estranheza da solidão. Com elas, somos quem somos e somos muito(s).

Tenho reservas de amor dentro de mim, quem as não tem? existem no fundo de nós, quase sempre prontas para momentos de aflição e nostalgia. Os dias virados do avesso, compridos e com tédio, ou rápidos que nem uma gazela, incapazes de reterem a preciosidade da vida. Os dias inúteis, com desperdícios a mais e essência a menos. 

https://naiveartgallery.files.wordpress.com/2012/01/nutra1.jpgTemos reservas dentro de nós. Pequenas coleções de alegrias, beijos doces, palavras mestras que nos norteiam, afagos leves e ainda assim, fundadores. Dias de chuva e de sol, cheiros de infância, risos e histórias, saudades e memórias, segredos e convicções. Tudo numa amálgama própria e certa. As reservas nunca se acabam e permitem retomar o fio da meada, quando as linhas se emaranham e sufocam os pontos principais da nossa geografia.

As reservas foram-nos dadas e depois construídas. Não há reservas sem um trabalho de nós, por nós. Cultivar o que foi luz e revelação, guardar abraços quentes, entender gestos delicados, percecionar a cultura de que fomos feitos. O pão, o vinho, o amor e as palavras com que nos banharam ao nascer  e ainda moram em nós. 

As reservas, para nos alimentarem, precisam de um trabalho miudinho...e paciente. Retirar, com minúcia, as ervas daninhas e eleger o que de melhor podemos ter nas reservas do que somos: um campo imenso de liberdade, um olhar de amor para o mundo, a crença na insustentável leveza do nosso ser. E também na sua determinação e inteireza. 

Temos reservas dentro de nós. Vamos cultivá-las?

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Acertar o passo

Passaram na praia, com passo acertado, seis pernas em cadência regular e certa. De um lado, a mãe, do outro, o pai, e no meio, o filho, a abraçar os dois. Reparei na cadência, na energia e na regularidade, apesar da diferença de tamanhos. E sorri, admirada por tanto acerto, com alegria, conversa(s) e afeto. Via-se a olho nu.
Dei por mim a discorrer sobre o assunto, porque passadas certas são aquilo que mais desejamos, quer tomemos a dianteira, quer sejam outros a tomá-la.

Pensei como é difícil imprimir uma cadência regular, em caminhos pouco firmes, pelos buracos, troncos velhos de árvores, bichos pequenos, mas inquietos, raízes, pedras e pântanos. Coisas pelas quais estamos de sobreaviso, mas nem por isso mais capazes, porque nos embrenhamos no percurso, distraídos e incautos. Encostamo-nos ao saber acumulado e descuidamos os obstáculos mais pequenos, que às vezes viram ondas gigantes, impedindo o acertar dos passos.

http://i01.i.aliimg.com/wsphoto/v0/1736963909/Akkadian-hildebrand-kaka-font-b-naive-b-font-font-b-art-b-font-handmade-color-block.jpgCoisas que desconhecemos e que irrompem, imprudentes, no caminho. Aquelas que nem nos medos mais secretos atrevemos a agendar na possibilidade dos dias. Coisas repentinas, inimagináveis, tiram o chão e o céu, abafam o futuro, cobrem-no de nevoeiro e curto prazo. Gelados e confusos, petrificamos de susto, deslaçamo-nos, sem conseguir amparar quem caminha ao nosso lado. Atordoados, não impedimos a queda no precipício ou a partida para a Antártida, terra que nunca imaginámos vir a desacertar os passos. 

Coisas que alimentamos e vigiamos como relíquias. Ideias, conceções, teses. As que comandam os nossos dias e irrompem imprudentes na relação com os outros, levantando muros e prisões abertas, que desacertam os passos e o amor. Convictos do que somos e pensamos, não abrandamos a força das diferenças, agitando a bandeira do que sentimos como a única possível a ser usada. Centrados nas razões que nos assistem, desvalorizamos as dos outros, aniquilando outras ideias e sonhos. Os passos em roda, sem pontos de intercessão, sem ritmo comum.

Foi isto que pensei esta manha, a propósito do acerto e desacerto de nós, com os outros. Pais, filhos, companheiros, amigos, família. Todos os que amamos e nos amam e com os quais necessitamos acertar o passo, tal como aqueles pais e filho que hoje andavam, com cadência bonita e acertada, à beira-mar. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Renovar votos, em tempo de férias

Imponho-me a tarefa primeira: cuidar das rosas, sem esquecer os espinhos. Apresento-me no ponto de partida, enunciando razões para este propósito. A estrada é longa e mais de metade do caminho já foi mapeado. Invisto na beleza das rosas, outrora pequenas e agora frondosas, espécie em desuso na ornamentação do mundo. Mas são elas que me inovam os trilhos.

Identifico a tarefa segunda: permanecer viva junto de pedras raras. Não ignorar a luminosidade dos mistérios, acolhê-los contra o pensamento lógico, dar-lhes espaço e lugar de sol, contrariando o principio da realidade e dos destinos traçados, antes de ser. 

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Equaciono a tarefa terceira: continuar no chão e almejar a lua, voltar a vida do avesso, remendando dores de parto, essas que nos beliscam e confirmam o (re)nascimento. Ter uma candeia acesa para anunciar a vida, em noites escuras de breu. Esperar pelo amanhecer, emocionada.

Inquieto-me com a quarta tarefa: impedir golpes drásticos de desilusão, afogamentos em mar alto, sem alcançar a linha da praia e as conchas brilhantes. Não ignorar os avisos sobre as tempestades, nem a função principal das rosa dos ventos e de cordas fortes para segurar choros.  

Concordo com a quinta tarefa: atentar nas coisas e no seu significado, rodear-me das mais belas e capazes, instruir-me no entendimento do mundo, recolher as suas ideias mais audazes, permanecer virgem do conformismo e da renúncia. Inaugurar a beleza das rosas em dias de sol e mar por perto.
 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

De novo, o mar. Sempre o mar

Já falei tantas vezes do mar. E vou continuar a falar. E nunca me cansarei. Porque o mar me pacifica e liberta o que em mim é emoção, segredo e liberdade.

O mar da minha infância. As mulheres vestidas de escuro, a levantar as saias para molhar os pés, os risos pelas ondas ousadas, a merenda nos sacos, pão e queijo, ir de manha e voltar à noite, o peixe a saltar das redes, fresco e vivo. As crianças por perto, bibes com laços e olhos de ver o mundo.

O mar da minha juventude. Dunas com areia macia, alisada por ventos do norte em dias de nevoeiro, temperaturas frescas a impor abraços, palavras sussurradas para a eternidade, assim julgadas, por tanto se querer. Corridas de mãos dadas, com chuva miúda, o barulho das ondas a serenar o medo e a embalar o amor.

http://www.fondox.net/wallpapers/resoluciones/13/estrella-de-mar-y-conchas_1440x900_1190.jpgO mar da minha adultidade, os rapazes na água em gritos alegres, brinquedos e gomas ao cair da noite, passeios ao luar e areia nos lençóis, saídas à noite com primeiros amores. Banhos, conversas, almoços e jantares, com amigos e filhos por dentro.O mar para nós, a banhar os afetos de ser família e amizade.

E hoje, o mar. O mar do meu por do sol, dos sessenta anos, que às vezes não queremos, mas por aqui moram, expressos no corpo mas não no coração, que bate ainda desalmado, por cada voo de gaivota ao amanhecer. O mar dos sonhos inquietos, que serenam ao som manso da água nas pedras. O mar da secreta alegria, encantos escondidos e nunca revelados, por pudor e integridade. 

O mar. Cartão de visita da nossa vida, em lenta passagem para lugar incerto. O mar  a molhar o corpo e a libertar a alma para novas marés. 

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

(Sophia de Mello Breyner)

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Coisas belas

Quase em férias. Restam ainda uns dias de trabalho, que parecem muitos e cansam ainda mais. Quase a chegar ao tempo de sentir o tempo a deslizar, sem pressa. Tempo para olhar para as coisas e sentir a sua beleza. A sua originalidade, o seu oficio no mundo.

Quase a chegar às férias, como se fosse um lugar, uma imensa casa soalheira, com alpendre e cestos com fruta. Como se fosse um rio, por entre montes, com o verde a perder de vista. Como se fosse uma rede para descansar, com um livro caído no chão e um sumo fresco. Como se fosse um jantar no meio do jardim, com risos de amigos e conversas mansas.

Quase a chegar às férias, para abandonar o corpo, deixá-lo entregue aos devaneios da preguiça, libertá-lo de amarras e muros, soltá-lo em liberdade, junto ao mar. Andar e saltar por entre as pedras molhadas e lisas, com a areia quente, a cintilar, em marés cheias.

http://guia-viagens.aeiou.pt/wp-content/uploads/2012/03/miami_areia_mar.jpgQuase a chegar às férias, para sossegar a alma, ouvir os sons leves da alegria, procurar imagens de luz, renovar o prazer da escrita e da ousadia.
Procurar lugares e cores, vozes e abraços, flores e luz, tudo coisas belas. E leves, e cheias de ternura e salmos. Uma espécie de hino longo e largo, a expandir o mundo que trazemos misturado na pele e na emoção.
Quase a chegar às férias para aquecer o olhar e renovar o amor e a beleza. Porque (quase) tudo está em nós.

Como nos diz o poeta


As coisas belas,
as que deixam cicatrizes na memória dos homens,
por que motivos serão belas?
E belas, para quê?

Põe-se o Sol porque o seu movimento é relativo.
Derrama cores porque os meus olhos vêem.
Mas por que será belo o pôr do sol?
E belo, para quê?

Se acaso as coisas não são coisas em si mesmas,
mas só são coisas quando percebidas,
por que direi das coisas que são belas?
E belas, para quê?

Se acaso as coisas forem coisas em si mesmas
sem precisarem de ser coisas percebidas,
para quem serão belas essas coisas?
E belas, para quê?

in Poesia Completa Antoónio Gedeão, Edições João Sá da Costa, Lisboa

domingo, 16 de julho de 2017

O coração limpo de mágoas

E então ela escreveu tenho que saber ficar com o coração limpo de mágoas e eu fiquei com a frase a dançar-me nos olhos, perplexa pela sua clareza e sentido. Andei com ela toda a tarde, embrulhada em perguntas, seguida de algumas respostas e muitos silêncios, enternecida pela sua audácia e franqueza para a resolução dos tempos próximos. ficar com o coração limpo de mágoas. É isso. Tem que ser isso.

Como se salda o que dói? como se aquietam injustiças e se revertem as condutas e os  modos de ser? como se ultrapassam os laivos da pena de nós e se renovam as crenças? como do pouco, podemos fazer muito e do menos bem, o bem pleno? como podemos voltar à insustentável leveza do ser, limpos de fúria e zanga, acalentando o que somos e ainda queremos (e podemos) ser? 

http://4.bp.blogspot.com/-SEJeARnlGuQ/TVh5tZFTNFI/AAAAAAAAAOM/DH2slMAS6zY/s1600/Big+Forest.jpg
Como se faz isto à séria e sem escapatórias de trazer por casa? aquelas coisas que somos tentados a fazer, um pouco tolamente e por despeito, disfarçar e assobiar, isto não é nada comigo, isto já passa. Fazer a fuga para a frente, (re)começar outros desafios, mudar de fuso horário, mudar de direção, procurar o paraíso em livros de autoajuda, saiba como ser feliz, num ápice. 

E num ápice, quase nada se faz. Num ápice, só receitas na Bimby, tarefas domésticas, sms, duches pela manha, recados e ligar o carro. De resto, na vida mais funda, a dos afetos e projetos, é preciso tempo, bom senso, resiliência, lonjura e confiança. É preciso não dar o corpo pela alma, descobrir o essencial e deitar fora todos os supérfluos acumulados. Aqueles que nos retiram a liberdade e a energia para (re)fazer a nossa vida, com arte(s) e sonhos.

É preciso ficar com o coração limpo de mágoas. E assim vai ser.


domingo, 9 de julho de 2017

No Porto, pensar a pedagogia

É domingo, dia de descanso e pausa. Volto à rotina, depois de dois dias de intensa participação, em companhia. Foram muitos os que responderam à chamada, e quiseram ir à procura, uma vez mais,  da melhor pedagogia, para cuidar de meninos e as meninas que brincam e correm e aprendem, um pouco por todo o lado, em instituições de educação de infância, apoiados por educadores e equipas que se querem atentas, disponíveis e amorosas. Os educadores, fazedores do currículo, um currículo lento, não apressado e não imposto, um currículo (co)construído em parceria, que se quer vigiado e sustentado por outros olhares, numa lógica de fronteiras, como ponte e como proximidade.

E lá estiverem outros, especialistas de reconhecido mérito, que nos ajudaram a pensar ideias e práticas. E falou-se sobre currículo de qualidade para crianças e famílias em desvantagem, a centralidade do professor no currículo, a importância de brincar, ser ativo e correr riscos, o educador como arquiteto de atitudes, emoções e comportamentos, fronteiras e hospitalidade, como desafio para a educação de infância. E pudemos ainda ouvir outros, educadores, a partilharem práticas e projetos, alimentando o vai e vem entre o dizer e o fazer, expondo-se e expondo a matéria prima do seu trabalho.  

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/236x/49/ed/0b/49ed0be98f41bca556f92be0a86abb98.jpgPela minha parte, levei as minhas famílias, para contar a história da nossa relação, que começou por mares revoltos nunca antes navegados e terminou em enseadas de praias mansas, apenas fustigadas por ventos do norte, em alguns dias.  Agradeço mais uma vez por me darem o mote para  o (re)conto, que de tão difícil, se tornou exemplar.
Por elas e com elas, as famílias, que pintaram Miró, leram livros mesmo a soletrar, cooperaram em projetos de bebés a nascer, riram, dançaram, protestaram, anuíram e discordaram.
E compreenderam que a Manela tem ali uma coisa...que eles escrevem e depois discutem e já não se batem, famílias que também ensinaram, que é sempre possível recomeçar, ultrapassando representações menos positivas, medos e dúvidas. Em proveito das crianças que se querem a crescer em ambientes de cooperação e inclusão para todos. Assim tentei fazer, por mais dura que fosse a realidade.

Levei-as em imagens e memória, apoiada pela emoção e uma leitura cada vez mais distanciada, tentando encontrar na prática a teoria e na teoria, a prática. Julgo que é isso que se pretende aos arquitetos do currículo, nós, os educadores, que de tão atarefados, encontram muito pouco tempo para refletirem e pensarem sobre o seu trabalho, a pedagogia, o lugar onde se cruza o que somos, pensamos e fazemos.

E por isso estes encontros são uma forma de encher o peito de ar, suster a respiração, abrandar, pensar e discutir, contrapor e regular. Para continuar de coração mais cheio, aberto e conhecedor. Porque o coração também conhece, como nos diz o príncipezinho, desde que haja tempo e lugar. Para que nos possamos deslumbrar com o pré-escolar, como nos disse o Sr. Secretário de Estado da Educação, a fechar este encontro.

 Um obrigada à APEI e a todos quantos fizeram acontecer estes dias, no Porto. Ficámos todos mais ricos, não foi?   

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Síntese

Dois dedos de conversa e o riso. As palavras a destronarem o silêncio, remendando ausências longas, subitamente curtas. E claras e certas, sem ponta de estranheza. A(s) histórias a abrirem caminho, pequenos gestos reconhecidos, as mãos, a face, o jeito de andar e sentar. Os ritmos de sempre na voz, pequenas deambulações, perguntar e responder. Anuir.

Dois dedos de conversa e a vida a desfilar, rebobinar a fita do filme, compor planos principais, incidir nas curtas, traduzir diálogos e iluminar cenas. Apenas as principais, as de hoje, que em alguns momentos, parecem as de sempre. Profissão, filhos, escolhas, projetos.

https://c2.staticflickr.com/4/3228/2939085993_3964344164.jpgDois dedos de conversa e a ternura, bonita de tão legitima e tão antiga. Leve e tranquila, a merecer descanso e contemplação. E alegria, pela vida construída, antes e depois e durante. A vida em fragmentos, num par de anos imenso e ainda assim contínua e rotinada, como se espera. 

Dois dedos de conversa. Memórias, encanto, amizade e confirmação. Do que fomos e somos, sem ponta de briga ou resistência. Apenas a aceitação da passagem do tempo, face às escolhas. Do que soubemos e pudemos fazer, outrora, do que ainda hoje nos compete, entre sabedoria, cabelos brancos e rebeldia. Pouca? talvez.

Dois dedos de conversa. E a vida a revelar-se nos seus contrários. Como é do seu timbre.

Uma parte de mim é todo mundo, outra parte é ninguém. Fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão, outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim, pesa, pondera, outra parte, delira. Uma parte de mim almoça e janta, outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente, outra parte se sabe de repente. Uma parte de mim é só vertigem, outra parte, linguagem. Traduzir uma parte noutra parte, que é uma questão de vida ou morte. Será arte? 
Ferreira Gullar

sábado, 17 de junho de 2017

Identidade(s)

O sol inunda esta paisagem clara, a água da ria espelha uma luz viva, os milhos cobrem de verde a cor da terra, há uma claridade forte junto ao azul do céu. Um espaço longo alonga-nos a alegria e convoca a memória, para celebrar o dia. Pequenas partículas de mim espalham-se por entre os muros e as flores, ando de bicicleta junto à ribeira, as silvas prometem as amoras que vão ficar vermelhas no verão, quando as cigarras cantarem ao entardecer.

Vejo a menina a brincar junto ao muro, faz comidas com ervas carnudas, carapaus e pão de broa, comida doce e simples de casa. A menina pondera todos os ingredientes e mistura-os em porções certas, conversa com outras meninas e mudam a ementa, brincam de faz de conta e tudo é possível. Sobretudo que a terra seja sal e a água seja vinho, de boa uva.

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/736x/69/a4/35/69a4354e0c9d2b6a671fc2230f388a24.jpgVejo os homens em cima do carro dos bois, as mulheres nas bicicletas com as crianças, levam-nas para as terras e dão-lhes pão, que esfregam e mastigam devagar, enquanto se ajeitam debaixo da sombra da árvore. E adormecem depois num sono morno, a olhar para borboletas e formigas danadas.

Sinto o fresco das manhas, as alvoradas com o cantar dos galos, a festa no largo da igreja, os vestidos para estrear e os sapatos de verniz, pagos com o dinheiro das jornadas na eira. Ouço os risos das moças, esperam o par à saída da missa, entre olhares austeros de mães e avós vigilantes e contudo coniventes.

Pressinto-me em cada lugar, junto do lavadouro e da fonte, ora mais menina ora mulher, em noites de novenas e dias de trabalho, a costura na salinha, o ferro de brasas e as freguesas, remendar e fazer de novo, calças. blusas, corpetes e saiotes. Os estudos e os comboios, ir para a escola e regressar, o candeeiro antes da luz, Piaget e Bruner, o sonho de ser educadora tenazmente perseguido e alcançado. 

Olho para o braço da ria e a água espelha-me. Olho e vejo-me entre partículas de mim, bocados leves e pesados, fios de memória, em recantos de vida tida, amada e reconhecida. Assim sou neste lugar, cheio de identidades, espalhadas um pouco por todo o lado, ente a terra, o sol e o mar. 
Na casa, na eira, na rua, junto ao moliço da ria. Com cheiros de maresia e limbos de prender as pernas e o coração, esse que bate tão forte e atento, neste lugar. Porque é o meu, de verdade. E para sempre.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Agradecer

Olho-me ao espelho. Procuro-me para além da imagem que vejo. Procuro a menina que fui. Julgo que mora algures em mim, espalhada nas coisas que fiz, contida neste corpo que é meu e que tu me deste, há 60 anos, neste dia de maio. Vim cheia de primaveras, com cheiro de flores e promessas de futuro, que se foram cumprindo, apesar de tantos sobressaltos. Por isso te quero agradecer. Por me teres dado guarida na tua barriga, no teu colo, nos teus sonhos de jovem mulher. Por nunca teres desistido, por teres vencido o cabo das tormentas, por teres cuidado dos dias e amparado o sono das noites, aconchegando-me os lençóis para não ter frio. Para ser forte e persistente, apesar das dores. E fui. Por ti e contigo. Mas também por outros e com outros.

Com a minha avó e a sua ternura e bravura. Um exemplo de autonomia, liberdade e mestria. Histórias de lobisomens, milho na eira, pés na água da rega, brincadeiras infinitas em tardes a perder de vista. Agradeço-lhe o amor e a rebeldia, essa convicção profunda de que querer é poder e que a solidariedade é um bem a promover.

http://3.bp.blogspot.com/-TG3hA0m983c/VnGafz3Ya4I/AAAAAAAD63A/M6cuii8FPM8/s1600/arte-naif-americano-pintura-karla-gerard-paisajes_10.jpgCom os meus rapazes, esses que vieram por amor e encheram o tempo de uma alegria maior, salpicada de inquietação e receio. Olho-os e relembro o mistério do seu crescimento em mim, inspiro a saudade da sua meninice, acalento a lonjura de tantos desafios. Orgulho-me do que são, homens lindos, gente inteira, cabeça e coração em compassos acertados.

Com o meu companheiro, que soube apreciar os meus voos de gaivota solta e sem construir gaiolas, persistiu na recolha de paus e folhas para o ninho, que dura até hoje, resistindo ao sol escaldante do verão e ao frio rigoroso do inverno. Com ele e por ele, a certeza do amor como compromisso e liberdade incondicional.

Com os meus amigos, esses que foram e ainda são companheiros de vida e lugares de descanso e que me ensinaram as leis da lealdade e do bem querer. Que nunca me deixaram desistir, que confiaram, que me ouviram e desafiaram a ser mais, a pensar melhor, a continuar e a resistir. Obrigada ao meu mano, um amigo especial, que fazia o presépio comigo em cada natal frio e hoje me dá abraços quentes e flores, em dias de festa.

Com as crianças e a profissão, por quem continuo apaixonada e envolvida. Obrigada pelo seu amor e pelos seus ensinamentos. Por me fazerem acreditar, convictamente, que podemos fazer a diferença nas suas vidas, apesar de erros e dúvidas. Obrigada pelos risos, pelas conversas, pelas brigas e birras e por me mostrarem a complexidade e riqueza da(s) infância(s), desafiando-me a não me acomodar.

Obrigada ainda às palavras e às ideias que sempre me apaixonaram e me vão mantendo viva, procurando-me um pouco todos os dias. Para que me possa cumprir e ficar sem medo do que virá depois.

Para não esquecer  

Esta foi sua empresa: reencontrar o limpo
Do dia primordial. Reencontrar a inteireza 
Reencontrar o acordo livre e justo 
E recomeçar cada coisa a partir do principio 

(Sophia de Mello Breyner)

sábado, 13 de maio de 2017

Bonita idade e bonito rapaz...

Fazes hoje 65 anos. Bonita idade e bonito rapaz...diriam os do teu tempo, aqueles que contigo palmilharam caminho e elucidaram os dias, tentando em conjunto encontrar um sentido para a vida. Os amigos do peito, pertença de uma geração, forte nas ideias, plena de convicções. 

Bonita idade e bonito rapaz. Também digo, mas digo mais. 

Digo que rapaz já não és, mas ainda manténs, com redobrada acutilância, os combates da juventude, por uma terra mais justa, um futuro mais promissor, onde os homens e as mulheres possam ser iguais por direito e condição. Continuas firme na denuncia do que não podemos aceitar. E a tua voz ainda se levanta, com indignação, contra ventos e marés da ignorância e do preconceito.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/e0/Gustav_Klimt_017.jpg/497px-Gustav_Klimt_017.jpgDigo que rapaz já não és, mas ainda dás gargalhadas altas, a soltar a alegria, quando falas com os filhos e lhes admiras a forma e o ser, sereno de termos feito o melhor que sabíamos e podíamos nesta aventura extraordinária e inquietante de fazer viver e crescer pessoas. Confirmas, com renovada juventude, que o desafio valeu a pena e que eles te reconhecem e admiram, mesmo quando discutem futebol e esgrimam argumentos de quem não é do mesmo clube.

Rapaz já não és, mas continuas vaidoso, a namorar as roupas que gostarias de ter, perfumes e objetos bonitos, coisas que arrumas na tua secretária de professor aplicado e organizado. O trabalho a moldar-te os dias, essa preocupação desmedida de fazer sempre o melhor, e que não raras vezes brigou com o tempo para a nossa vida de família. Também a enriqueceu e dignificou, eu sei.

Rapaz já não és, mas ainda choras quando vês filmes, emocionado com histórias de bem querer e muito amar. Ainda procuras musicas e livros, ainda me abraças e me fazes sentir em casa. Uma casa grande, com chão e horizonte, com colo e janelas para espreitar o mundo e a liberdade das gaivotas, essas que nomeaste quando nos conhecemos e eu queria voar mundo fora. Rapaz já não és, mas ainda discutimos por causa do jardim e das árvores que não sabes cortar, porque és como o teu pai, tudo é para guardar e cuidar. E discutimos e rimo-nos e dançamos, esquecidos do tempo que já passou e que por isso, nos ajudou a construir a nossa vida e a ter esta história.

Que não é de agora, mas de vem de longe, muito longe. Feita de amor, partilha, dedicação, luta e persistência. Feita de acertos e desacertos, com filhos, mães, pais, amigos...lá dentro. Uma história cheia de nós e de outros. E é como diz a canção " o que nós andámos para aqui chegar!" 

Parabéns, rapaz. E estamos prontos, para continuar, não é?

sábado, 6 de maio de 2017

Acolher maio...

Entrar de mansinho em maio e guardar-lhe todo o esplendor. Sacudir a lama dos sapatos, esquecer as luvas e o casaco grosso, descompor os cabelos e soltá-los ao sol. Desarrumar a alegria e trazê-la para a rua, feita festa da liberdade que já começou. Descansar ao entardecer e preparar a nossa lonjura, em rios que se apressam para o mar, sem medo do caminho.

Acolher maio em regaços frescos de amor, tonto pela renovação dos laços e dos amores, esses que nos enredam a alma e os sonhos, esteira macia do futuro. Acolher maio e as memórias, tecê-las devagarinho em nós, doces e recolhidas, mas sempre presentes, igual à árvore que volta a dar flor e depois fruto e depois sustento com polpa e sumo. 

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/43/a5/43/43a543c80d62011123a5364f9117a21c.jpgAcolher maio e descrever-lhe os encantos, com palavras raras e poemas antigos, que decorámos rápido, um dia, marcados pela emoção de sermos jovens e mudos de espanto. Acolher maio e renovar os votos de resistir para sempre à morte da vida, que chega embrulhada em pequenas doses de conformismo e desistência. 

Porque maio nos convida para sermos inteiros e eternos. Talvez e ainda belos, porque capazes dos maiores riscos e ousadias na reconstrução de sermos como somos. Filhos de mães que partindo, permanecem em amor, mães de filhos que nos prolongam pelo tempo, família de gente aguerrida e valiosa, amigos daqueles que nunca nos deixam sós. Os do peito e de sempre.

Porque em maio, definitivamente, podemos dizer ao que vimos e queremos ir. O sol brilha, a terra é fértil, os cravos continuam ao alto, porque abril permanece em nós. Sem medos e prudências cautelosas.
Acolhamos, pois, maio e a sua rebeldia de mês luminoso e inquieto. Como nos cantou o poeta 

 Maio, maduro maio

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul.


Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andava
Ao longe a varar


Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar


Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu


José Afonso