quinta-feira, 30 de julho de 2015

Sala limpa e arrumada

Cheiro de tempo leve e água fresca. Arrumada a sala e os escritos escolares, resta um silêncio cheio de risos e falas dos meninos e meninas. 

Lá longe sim, que por aqui, já tudo está arrumado e metido em gavetas, sem pinta de barulho ou conversas alegres. Não aprecio esta limpeza e ordenação do tempo vivido. 

http://maiaradaltoe.com.br/wp-content/uploads/2012/05/1.jpg É certo que se respira um silêncio morno, tranquilo e que tudo fica menos caótico e mais limpo de desperdícios, mas não gosto. Falta aqui a loucura da infância e a alegria dos abraços e dos beijos. Faltam aqui as mãos a fazerem desenho, a amassarem a plasticina, a verem livros e a inventarem histórias. Falta a cola a escorrer dos pincéis, as birras pela disputa do colo, as correrias malucas no recreio. 

Falta a vida dos meninos, nesta sala arrumada. Falta tudo para ser sala.

Mas aproveitemos este intervalo. Vamos até ao mar, para em setembro, poder de novo fazer uma sala boa, com todos e para todos.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Boas férias

Vem aí um outro tempo. Leve e quente, cheio de horas para preguiçar, escrever, rir, apanhar sol e ver o mar...um tempo lento, onde o corpo pode repousar, depois de muito se ter cansado e debatido. Porque nos debatemos nos dias em que sem saber como, percorremos mil quilómetros, sem sair quase do mesmo lugar. 

Agora não, queremo-nos talvez mais paradas, sobretudo mais expectantes, de bem com os relógios, de bem com as agendas, que ficam esquecidas em qualquer um lugar, na gaveta da sala, para em setembro, as voltarmos a abrir, depois de uma distância boa e justa e necessária para o nosso equilíbrio. Do corpo e também do coração.

http://eddiegordon.music2mix.com/sites/eddiegordon/media/146061.jpgPor mim, vou remar em direção ao mar. Preciso dele para refrescar os meus cansaços e atualizar os sonhos e as escritas, esta teimosia de me dizer com palavras como se falasse, ação fundamental da minha identidade. E lembro o L, um menino que tive há alguns anos, que quando lhe perguntei o que é a fala, ele disse assim, acompanhando tudo com gestos...é uma coisa, que começa na garganta, sobe à cabeça, dá umas voltas, passa pelo coração e sai pela boca...  Estou em absoluto acordo com ele. É assim que sinto as minhas escritas.

E no tempo que aí vem, elas vão ficar mais livres e soltas, com o tempo todo como aliado e o mar ao fundo, como paisagem. E conchas e búzios e pedras e fins de tarde de sol alaranjado. E amigos por perto. E tempo, muito tempo... 

Para todos os que passam por aqui, o desejo de boas férias também. E um mar longo e vibrante, mesmo que com outras formas...campo, cidade, vilas, aldeias...em qualquer lugar, um tempo bom de descanso. Para retemperar forças, sonhos e projetos.

Boas férias!

domingo, 26 de julho de 2015

Encontro do MEM: pensar e rever a pedagogia

De novo no meu sótão depois de mais um congresso do MEM. De novo cheia de ideias, imagens, inquietações, silêncios. Silêncios necessários para lidar com o espanto, uma espécie de surpresa preciosa que nos confirma que sim, estes professores continuam a apostar em espaços dialógicos e democráticos como esteira para fazerem um chão seguro, bom para andar e aprender na escola e na cidade. Porque a escola, esta escola, respira e vive de cultura e pessoas, com obras e compromissos éticos, em contextos concretos. Em cidades, vilas e aldeias, como espaços de vida e locais de igualdade e cooperação. Assim se tenta, assim se deseja, para isso se luta e se aprende, a cada ano que passa.

Fácil? Muito difícil. Esta proposta pedagógica exige adesão por inteiro. Exige coerência entre o que somos, pensamos e fazemos. Exige princípios claros e atualizados todos os dias. Não se compadece com a pedagogia por metade. Dispensa e nega  os instrumentos de trabalho como a coisa em si, porque a coisa em si é a vida dos grupos de crianças e jovens, com autonomia, direitos e deveres, no quadro de uma escola hospitaleira, onde todos têm lugar, vez e voz. Para construir uma aprendizagem que é, antes e depois de tudo, uma posição de estar no mundo e na vida.

http://www.esquerda.net/sites/default/files/material-escolar-38-95.jpgFácil? Muito difícil. Porque este modelo exige vigilância ativa, processos de auto e hetero formação, trabalho em parceria, apoio e regulação. Exige que os professores apliquem entre si o que aplicam com e entre os alunos. E com os auxiliares. E com as famílias. Esse tal isomorfismo, que liga tudo e todos numa lógica de produção de saber significativo e apropriado por quem aprende. E quem aprende são todos os que estão na escola.

É por isso e por muito mais que saio espantada e contente deste encontro. De ver confirmadas as razões do modelo, que é dinâmico, repensado e escrutinado sempre que se partilham comunicações como as que pude ver. Para além dos instrumentos, para além dos produtos, os processos, retratando a ideologia presente na intervenção pedagógica.

Porque a educação não é neutra. Porque a educação é no MEM, aquilo que o professor Nóvoa, salientou na sessão de abertura, em torno dos quatro C: cultura, comunicação, cooperação, compromisso. 
Assim aconteceu. Parabéns a todos.


quarta-feira, 22 de julho de 2015

Conversa(s) de fim de tarde

A mulher olhou em frente, com olhos de melancolia e uma expressão leve de riso e perguntou quem vai amar as minhas rugas? E disse que isso a perseguia, em tempos antigos, agora menos presentes. E continuou, ensaiando a resposta e o sentimento, perante o silêncio de quem ouvia. Só pode amar as minhas rugas quem esteve comigo e as viu aparecer, de mansinho...quem as viu tomarem forma e jeito...

http://www.geocities.ws/edinasikora/quadro22__Menino_do_girassol.jpgNa sua frente outra mulher estremeceu e maravilhou-se com as palavras, essas mesmo que já tinha experimentado, ainda que apenas em forma de lágrimas furtivas, algumas imagens desfocadas, pequenas dores depressa escondidas.
E disse alto, sem pudor e sem rodeios, que bonito, é isso mesmo...quem vai amar as minhas rugas? Como se tivesse encontrado o mote para uma liberdade desejada, caminho aberto a outras tantas palavras. E elas vieram, em tom de confidência e narrativa, absolutamente inteiras, lançando luz sobre o fim de tarde que na esplanada, antecedia o cair da noite.

Quando as estrelas se firmaram no céu escuro, as palavras já tinham sido leito macio para adormecer passados. Inconclusivas, tinham configurado medos e multiplicado sentidos, aqueles que andam de mãos dadas com a (re)criação da vida.

 Porque ela também assim se faz, em pequenas palestras de coração livre, sem censura do politicamente correto, junto a amigas do peito. Sem questões de género? Quero acreditar que sim.
 
 

domingo, 19 de julho de 2015

Parabéns

Subiste ao palco e leste o teu escrito, em voz pausada e um pouco seca. No meio de muitas outras pessoas, ouvi-te com atenção, sorrindo pela tua liberdade e ousadia, ainda que discreta. Para meu espanto (ou talvez não?) começaste a ler o texto a falar da mãe, revelando os nossos pequenos segredos, coisas assim de casa e do foro íntimo, a minha teimosia em alindar-te e pôr-te composto, a minha mãe disse-me que era melhor eu trazer uma camisa e eu disse que exagero, mãe, um polo serve. A minha mãe pede-me todos os domingos que eu apare a barba, e eu respondo que exagero mãe já ninguém repara...a minha mãe não acreditou quando eu lhe disse que me tinha sido atribuído o primeiro prémio de jornalismo do festival de Almada. A sério? Não, estás a brincar comigo... e continuaste por aí fora, falando da tua profissão, das coisas que fazes, do que gostas mais e menos, das características do trabalho que mereceu o prémio. 

Depois agradeceste a quem tinhas que agradecer, que uma vitória tem sempre um pouco de muita gente e reafirmaste o quanto gostas de ser da margem sul, essa identidade que trazes desde muito novo, e que apregoas aos quatro ventos, marcando o quanto gostas da tua cidade, em contraponto a vozes que elegem o menos bom da  diversidade de culturas, histórias de vida, projetos, sonhos e desvarios da gente da outra banda.

http://files.clinicadetextos.webnode.com.br/200000000-05f9f06ee9/revisiondetextos.jpgEnquanto falavas, o meu coração passeava pelas memórias da tua infância, a mão dada quando te ia buscar à escola, as paragens na soleira de prédios para comermos gomas, entre conversas felizes de fim do dia, e risos grandes no teu rosto a atravessar cansaços. Lembrei-me das tuas pesquisas curiosas e persistentes sobre o mundo, das tuas perguntas e comentários certeiros, com a cara deitada em cima do banco do carro, com ar ensonado, quando pela manhã íamos para a escola.  Lembrei-me do teu primeiro poema para a professora Clara, as primeiras composições sobre amigos, o poema "espelho" que fizeste com a Lena, os textos raivosos de adolescente, a fúria contra os riscos vermelhos dos professores a corrigirem palavras, a carta que me escreveste e dizias a minha mãe é a rainha da educação de infância.

Mas sobretudo lembrei-me do teu corpo a sair do meu, do barulho do mar que parecia ali estar e da voz do médico a dizer...ai que agora tenho aqui uma mãe poeta quando te saudei, numa espécie de benção para que fosses eternamente feliz. 

Lembrei-me de tudo isto e muito mais enquanto te via já assim grande, jovem premiado em frente a uma plateia, menino pequeno junto de mim. Depois bati palmas em conjunto com os outros, pelas tuas palavras, bonitas, justas e ousadas. E sozinha bati palmas pela tua sensibilidade, cultura, persistência, clareza, rebeldia. Sozinha, porque sou tua mãe, bati palmas por seres quem és e por lutares todos os dias pela tradução do mundo através dos teus dedos e dos teus sonhos.

Parabéns, filho. Parabéns por este prémio e pelo teu trabalho. E olha, se houver uma próxima, talvez possas ir de camisa, o que me dizes?

 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Um pouco de luz

No fundo da alma há um sítio secreto do amor onde se podem guardar as lembranças doces de outras vidas. Coisas pequenas e límpidas, água a correr de nascentes, alguns risos de alegria, pratas coloridas de embrulhar chocolate, torradas e mel, paus de canela e conchas do mar. 

É um sítio longe, decerto terás que palmilhar pela poeira dos caminhos, escutar o vento do norte e perder-te nos canaviais, rogando pragas pela secura da pele e a falta de água para matar a sede. Peço-te que não desistas, que aguentes firme a lonjura do sonho, que resistas a fugir do mundo para te recolheres no princípio da dor.

http://downloads.open4group.com/wallpapers/agua-e-pedras-claras-dabf3.jpgAcredita em mim e pensa que no fundo da alma há um sítio secreto do amor, com  rios de estrelas candentes e esteiras macias, algumas pérolas contra maus-olhados e cartas da sorte para virar destinos. 

É um sítio longe, eu sei, decerto te inundará um desespero fino de cortar esperanças e um cheiro antigo de prolongar memórias. Peço-te que não desistas e venças a prova dos nove, aquela que tentas fazer para acertar com os números perfeitos da vida.   

Entretanto descansa e dorme, deixa todos os fios que te prendem a alegria, recosta-te numa pedra lisa e fina, sente o bater do coração junto ao peito. Enche-te de encantos e clareza, procura a maravilha. Ouve o poeta.

Procura a maravilha

Procura a maravilha

Onde um beijo sabe
a barcos e a bruma.

No brillho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.
Procura a maravilha

Eugénio de Andrade

domingo, 12 de julho de 2015

Dias de Encontro

De novo em casa. Um domingo cheio de sol e o sentimento de dever cumprido. De novo no meu sótão, para agradecer as palavras que responderam à chamada e com ar composto, foram o meu chão e o meu céu para partilhar o trabalho com as famílias. Acho que se saíram bem na revelação das práticas de envolvimento e participação que a muito custo e sem desistir, fui fazendo, neste mar revolto, em terras da Trafaria. Obrigada às famílias por me terem confirmado que a persistência é o único caminho. 

Dois dias de encontro, em Coimbra, no meio de comunicações, risos, palmas, concordâncias, discussões, assim e de outro modo, talvez, mas, claro, claro, aos poucos e sempre... E sempre esta ideia e esta prática justa de educadores que se juntam e se dizem, e ao dizerem-se, reafirmam a sua profissionalidade, ou como disse a Assunção, falam sobre a coisa da profissão, esta coisa de ser educadora de infância.

https://chicponto.files.wordpress.com/2012/08/unic3a3o.jpgFoi isto que fizemos todos lá em Coimbra. Uns sentados, a pensar e a argumentar, outros a tomar a palavra e a dizerem de sua justiça, que a profissão se constrói na divulgação e visibilidade das práticas, entrelaçadas em referências e convicções, essas âncoras imprescindíveis para alimentar e enquadrar com ideologia e princípios, a pedagogia e a construção do currículo. Em contexto e em comunidade, sempre.

Os que subiram ao palco, partilharam as coisas da profissão. Projetos, crianças, familias, intencionlidade educativa, articulação curricular, competências e qualidade, creche e jardim de infância, documentação, polticas educativas, Justiça e direitos. De tudo se falou e se deu provas, que não basta ter intenções é preciso forjá-las ao serviço de espaços de aprendizagem e desenvolvimento. Os educadores como gestores e intelectuais do currículo.  Capazes de dizer, sim, capazes de dizer não, capazes de chamar a si a construção da sua profissão.

Fiquei cheia e ainda assim estou. Cheia de palavras, de pensamentos, de imagens, de cansaço. Um cansaço bom, sim, um cansaço contente, por continuarmos a ter coragem para desocultar o que fazemos, acreditamos e sonhamos. Por acreditar e não desistir de tomar a palavra e desassombradamente, revelar os mundos da infância e os mundos da profissão, como espaços para crescerem crianças, familias e profissionais, pessoas de corpo inteiro, gente com direitos, projetos, emoções, poder e legitimidade.  

E lembro-me de Vinicius de Morais, que a Joana citou "Quer? então faça acontecer que a unica coisa que cai do céu é a chuva".
É isso mesmo. E nós fizemos. Obrigada a todos e à APEI.

sábado, 4 de julho de 2015

Maturação

Já não escrevo há muito tempo. As palavras têm ficado amarrotadas na ocupação excessiva do ultímo mês, longas horas de trabalho, festas de final do ano, avaliações, reuniões, sínteses, coisas assim para ficarem registadas em processos, arrumados e organizados. As palavras, no ultímo mês, viraram prova e memória e perderam a sua projeção de futuro. Então retaliaram. Não te acompanhamos mais, estás a ser seletiva, fazes prosas formatadas, não nos deixas livres e belas. E desapareceram.

http://3.bp.blogspot.com/-oK-bCnyP5R8/U2Z4tc496ZI/AAAAAAAADZI/B57SzTAFkh4/s1600/word_cloud.pngHoje decidi enfrentá-las e pedir-lhe de novo namoro. Estão a fazer-se rogadas, ainda que as sinta a desprenderem-se aos poucos, com alguma cerimónia, ensaiando passos tímidos de donzela. Estão desconfiadas, sabem bem que preciso delas, fortes, precisas e destemidas. Sabem que as vou convocar para traduzirem um percurso de relação e envolvimento e depois oferecê-las a outros, para que vejam e pensem e discutam o que são e fazem como pessoas e profissionais. 

Amedrontam-se claro, acompanham os meus receios e as minhas dúvidas de serem capazes de traduzir, com clareza e fidelidade, a viagem realizada, num mar revolto, aquele que banha a terra onde estamos e as pessoas que nela vivem. Meninos, meninas, pais, mães, comunidade.

Dizem-me que ainda não estão prontas, precisam de mais tempo e maturação, sabem que este compromisso é para cumprir e elas são os mestres da cerimónia, as que abrem as portas, acolhem quem chega, constroem o cenário, provocam o pensamento, convocam a experiência. Tenho que as ter de feição, à medida do que somos e vivemos no nosso lugar. Foi tanto. Foi muito. Foi pouco.

Espero que não me falhem. Sexta-feira, em Coimbra, preciso que estejam do meu lado, a revelar a verdade do caminho, os percalços da viagem, as vezes que lançámos as redes e as recolhemos sem peixe e danificadas. E que mostrem, sem receio, as tentativas de as remendar para voltarem a ter uso no mar revolto.

É sábado. Espero que respondam à chamada e logo logo, estejam prontas a revelar a vida vivida. Já falta pouco para o encontro.