quinta-feira, 27 de julho de 2017

Coisas belas

Quase em férias. Restam ainda uns dias de trabalho, que parecem muitos e cansam ainda mais. Quase a chegar ao tempo de sentir o tempo a deslizar, sem pressa. Tempo para olhar para as coisas e sentir a sua beleza. A sua originalidade, o seu oficio no mundo.

Quase a chegar às férias, como se fosse um lugar, uma imensa casa soalheira, com alpendre e cestos com fruta. Como se fosse um rio, por entre montes, com o verde a perder de vista. Como se fosse uma rede para descansar, com um livro caído no chão e um sumo fresco. Como se fosse um jantar no meio do jardim, com risos de amigos e conversas mansas.

Quase a chegar às férias, para abandonar o corpo, deixá-lo entregue aos devaneios da preguiça, libertá-lo de amarras e muros, soltá-lo em liberdade, junto ao mar. Andar e saltar por entre as pedras molhadas e lisas, com a areia quente, a cintilar, em marés cheias.

http://guia-viagens.aeiou.pt/wp-content/uploads/2012/03/miami_areia_mar.jpgQuase a chegar às férias, para sossegar a alma, ouvir os sons leves da alegria, procurar imagens de luz, renovar o prazer da escrita e da ousadia.
Procurar lugares e cores, vozes e abraços, flores e luz, tudo coisas belas. E leves, e cheias de ternura e salmos. Uma espécie de hino longo e largo, a expandir o mundo que trazemos misturado na pele e na emoção.
Quase a chegar às férias para aquecer o olhar e renovar o amor e a beleza. Porque (quase) tudo está em nós.

Como nos diz o poeta


As coisas belas,
as que deixam cicatrizes na memória dos homens,
por que motivos serão belas?
E belas, para quê?

Põe-se o Sol porque o seu movimento é relativo.
Derrama cores porque os meus olhos vêem.
Mas por que será belo o pôr do sol?
E belo, para quê?

Se acaso as coisas não são coisas em si mesmas,
mas só são coisas quando percebidas,
por que direi das coisas que são belas?
E belas, para quê?

Se acaso as coisas forem coisas em si mesmas
sem precisarem de ser coisas percebidas,
para quem serão belas essas coisas?
E belas, para quê?

in Poesia Completa Antoónio Gedeão, Edições João Sá da Costa, Lisboa

domingo, 16 de julho de 2017

O coração limpo de mágoas

E então ela escreveu tenho que saber ficar com o coração limpo de mágoas e eu fiquei com a frase a dançar-me nos olhos, perplexa pela sua clareza e sentido. Andei com ela toda a tarde, embrulhada em perguntas, seguida de algumas respostas e muitos silêncios, enternecida pela sua audácia e franqueza para a resolução dos tempos próximos. ficar com o coração limpo de mágoas. É isso. Tem que ser isso.

Como se salda o que dói? como se aquietam injustiças e se revertem as condutas e os  modos de ser? como se ultrapassam os laivos da pena de nós e se renovam as crenças? como do pouco, podemos fazer muito e do menos bem, o bem pleno? como podemos voltar à insustentável leveza do ser, limpos de fúria e zanga, acalentando o que somos e ainda queremos (e podemos) ser? 

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Como se faz isto à séria e sem escapatórias de trazer por casa? aquelas coisas que somos tentados a fazer, um pouco tolamente e por despeito, disfarçar e assobiar, isto não é nada comigo, isto já passa. Fazer a fuga para a frente, (re)começar outros desafios, mudar de fuso horário, mudar de direção, procurar o paraíso em livros de autoajuda, saiba como ser feliz, num ápice. 

E num ápice, quase nada se faz. Num ápice, só receitas na Bimby, tarefas domésticas, sms, duches pela manha, recados e ligar o carro. De resto, na vida mais funda, a dos afetos e projetos, é preciso tempo, bom senso, resiliência, lonjura e confiança. É preciso não dar o corpo pela alma, descobrir o essencial e deitar fora todos os supérfluos acumulados. Aqueles que nos retiram a liberdade e a energia para (re)fazer a nossa vida, com arte(s) e sonhos.

É preciso ficar com o coração limpo de mágoas. E assim vai ser.


domingo, 9 de julho de 2017

No Porto, pensar a pedagogia

É domingo, dia de descanso e pausa. Volto à rotina, depois de dois dias de intensa participação, em companhia. Foram muitos os que responderam à chamada, e quiseram ir à procura, uma vez mais,  da melhor pedagogia, para cuidar de meninos e as meninas que brincam e correm e aprendem, um pouco por todo o lado, em instituições de educação de infância, apoiados por educadores e equipas que se querem atentas, disponíveis e amorosas. Os educadores, fazedores do currículo, um currículo lento, não apressado e não imposto, um currículo (co)construído em parceria, que se quer vigiado e sustentado por outros olhares, numa lógica de fronteiras, como ponte e como proximidade.

E lá estiverem outros, especialistas de reconhecido mérito, que nos ajudaram a pensar ideias e práticas. E falou-se sobre currículo de qualidade para crianças e famílias em desvantagem, a centralidade do professor no currículo, a importância de brincar, ser ativo e correr riscos, o educador como arquiteto de atitudes, emoções e comportamentos, fronteiras e hospitalidade, como desafio para a educação de infância. E pudemos ainda ouvir outros, educadores, a partilharem práticas e projetos, alimentando o vai e vem entre o dizer e o fazer, expondo-se e expondo a matéria prima do seu trabalho.  

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/236x/49/ed/0b/49ed0be98f41bca556f92be0a86abb98.jpgPela minha parte, levei as minhas famílias, para contar a história da nossa relação, que começou por mares revoltos nunca antes navegados e terminou em enseadas de praias mansas, apenas fustigadas por ventos do norte, em alguns dias.  Agradeço mais uma vez por me darem o mote para  o (re)conto, que de tão difícil, se tornou exemplar.
Por elas e com elas, as famílias, que pintaram Miró, leram livros mesmo a soletrar, cooperaram em projetos de bebés a nascer, riram, dançaram, protestaram, anuíram e discordaram.
E compreenderam que a Manela tem ali uma coisa...que eles escrevem e depois discutem e já não se batem, famílias que também ensinaram, que é sempre possível recomeçar, ultrapassando representações menos positivas, medos e dúvidas. Em proveito das crianças que se querem a crescer em ambientes de cooperação e inclusão para todos. Assim tentei fazer, por mais dura que fosse a realidade.

Levei-as em imagens e memória, apoiada pela emoção e uma leitura cada vez mais distanciada, tentando encontrar na prática a teoria e na teoria, a prática. Julgo que é isso que se pretende aos arquitetos do currículo, nós, os educadores, que de tão atarefados, encontram muito pouco tempo para refletirem e pensarem sobre o seu trabalho, a pedagogia, o lugar onde se cruza o que somos, pensamos e fazemos.

E por isso estes encontros são uma forma de encher o peito de ar, suster a respiração, abrandar, pensar e discutir, contrapor e regular. Para continuar de coração mais cheio, aberto e conhecedor. Porque o coração também conhece, como nos diz o príncipezinho, desde que haja tempo e lugar. Para que nos possamos deslumbrar com o pré-escolar, como nos disse o Sr. Secretário de Estado da Educação, a fechar este encontro.

 Um obrigada à APEI e a todos quantos fizeram acontecer estes dias, no Porto. Ficámos todos mais ricos, não foi?   

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Síntese

Dois dedos de conversa e o riso. As palavras a destronarem o silêncio, remendando ausências longas, subitamente curtas. E claras e certas, sem ponta de estranheza. A(s) histórias a abrirem caminho, pequenos gestos reconhecidos, as mãos, a face, o jeito de andar e sentar. Os ritmos de sempre na voz, pequenas deambulações, perguntar e responder. Anuir.

Dois dedos de conversa e a vida a desfilar, rebobinar a fita do filme, compor planos principais, incidir nas curtas, traduzir diálogos e iluminar cenas. Apenas as principais, as de hoje, que em alguns momentos, parecem as de sempre. Profissão, filhos, escolhas, projetos.

https://c2.staticflickr.com/4/3228/2939085993_3964344164.jpgDois dedos de conversa e a ternura, bonita de tão legitima e tão antiga. Leve e tranquila, a merecer descanso e contemplação. E alegria, pela vida construída, antes e depois e durante. A vida em fragmentos, num par de anos imenso e ainda assim contínua e rotinada, como se espera. 

Dois dedos de conversa. Memórias, encanto, amizade e confirmação. Do que fomos e somos, sem ponta de briga ou resistência. Apenas a aceitação da passagem do tempo, face às escolhas. Do que soubemos e pudemos fazer, outrora, do que ainda hoje nos compete, entre sabedoria, cabelos brancos e rebeldia. Pouca? talvez.

Dois dedos de conversa. E a vida a revelar-se nos seus contrários. Como é do seu timbre.

Uma parte de mim é todo mundo, outra parte é ninguém. Fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão, outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim, pesa, pondera, outra parte, delira. Uma parte de mim almoça e janta, outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente, outra parte se sabe de repente. Uma parte de mim é só vertigem, outra parte, linguagem. Traduzir uma parte noutra parte, que é uma questão de vida ou morte. Será arte? 
Ferreira Gullar