segunda-feira, 22 de maio de 2017

Agradecer

Olho-me ao espelho. Procuro-me para além da imagem que vejo. Procuro a menina que fui. Julgo que mora algures em mim, espalhada nas coisas que fiz, contida neste corpo que é meu e que tu me deste, há 60 anos, neste dia de maio. Vim cheia de primaveras, com cheiro de flores e promessas de futuro, que se foram cumprindo, apesar de tantos sobressaltos. Por isso te quero agradecer. Por me teres dado guarida na tua barriga, no teu colo, nos teus sonhos de jovem mulher. Por nunca teres desistido, por teres vencido o cabo das tormentas, por teres cuidado dos dias e amparado o sono das noites, aconchegando-me os lençóis para não ter frio. Para ser forte e persistente, apesar das dores. E fui. Por ti e contigo. Mas também por outros e com outros.

Com a minha avó e a sua ternura e bravura. Um exemplo de autonomia, liberdade e mestria. Histórias de lobisomens, milho na eira, pés na água da rega, brincadeiras infinitas em tardes a perder de vista. Agradeço-lhe o amor e a rebeldia, essa convicção profunda de que querer é poder e que a solidariedade é um bem a promover.

http://3.bp.blogspot.com/-TG3hA0m983c/VnGafz3Ya4I/AAAAAAAD63A/M6cuii8FPM8/s1600/arte-naif-americano-pintura-karla-gerard-paisajes_10.jpgCom os meus rapazes, esses que vieram por amor e encheram o tempo de uma alegria maior, salpicada de inquietação e receio. Olho-os e relembro o mistério do seu crescimento em mim, inspiro a saudade da sua meninice, acalento a lonjura de tantos desafios. Orgulho-me do que são, homens lindos, gente inteira, cabeça e coração em compassos acertados.

Com o meu companheiro, que soube apreciar os meus voos de gaivota solta e sem construir gaiolas, persistiu na recolha de paus e folhas para o ninho, que dura até hoje, resistindo ao sol escaldante do verão e ao frio rigoroso do inverno. Com ele e por ele, a certeza do amor como compromisso e liberdade incondicional.

Com os meus amigos, esses que foram e ainda são companheiros de vida e lugares de descanso e que me ensinaram as leis da lealdade e do bem querer. Que nunca me deixaram desistir, que confiaram, que me ouviram e desafiaram a ser mais, a pensar melhor, a continuar e a resistir. Obrigada ao meu mano, um amigo especial, que fazia o presépio comigo em cada natal frio e hoje me dá abraços quentes e flores, em dias de festa.

Com as crianças e a profissão, por quem continuo apaixonada e envolvida. Obrigada pelo seu amor e pelos seus ensinamentos. Por me fazerem acreditar, convictamente, que podemos fazer a diferença nas suas vidas, apesar de erros e dúvidas. Obrigada pelos risos, pelas conversas, pelas brigas e birras e por me mostrarem a complexidade e riqueza da(s) infância(s), desafiando-me a não me acomodar.

Obrigada ainda às palavras e às ideias que sempre me apaixonaram e me vão mantendo viva, procurando-me um pouco todos os dias. Para que me possa cumprir e ficar sem medo do que virá depois.

Para não esquecer  

Esta foi sua empresa: reencontrar o limpo
Do dia primordial. Reencontrar a inteireza 
Reencontrar o acordo livre e justo 
E recomeçar cada coisa a partir do principio 

(Sophia de Mello Breyner)

sábado, 13 de maio de 2017

Bonita idade e bonito rapaz...

Fazes hoje 65 anos. Bonita idade e bonito rapaz...diriam os do teu tempo, aqueles que contigo palmilharam caminho e elucidaram os dias, tentando em conjunto encontrar um sentido para a vida. Os amigos do peito, pertença de uma geração, forte nas ideias, plena de convicções. 

Bonita idade e bonito rapaz. Também digo, mas digo mais. 

Digo que rapaz já não és, mas ainda manténs, com redobrada acutilância, os combates da juventude, por uma terra mais justa, um futuro mais promissor, onde os homens e as mulheres possam ser iguais por direito e condição. Continuas firme na denuncia do que não podemos aceitar. E a tua voz ainda se levanta, com indignação, contra ventos e marés da ignorância e do preconceito.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/e0/Gustav_Klimt_017.jpg/497px-Gustav_Klimt_017.jpgDigo que rapaz já não és, mas ainda dás gargalhadas altas, a soltar a alegria, quando falas com os filhos e lhes admiras a forma e o ser, sereno de termos feito o melhor que sabíamos e podíamos nesta aventura extraordinária e inquietante de fazer viver e crescer pessoas. Confirmas, com renovada juventude, que o desafio valeu a pena e que eles te reconhecem e admiram, mesmo quando discutem futebol e esgrimam argumentos de quem não é do mesmo clube.

Rapaz já não és, mas continuas vaidoso, a namorar as roupas que gostarias de ter, perfumes e objetos bonitos, coisas que arrumas na tua secretária de professor aplicado e organizado. O trabalho a moldar-te os dias, essa preocupação desmedida de fazer sempre o melhor, e que não raras vezes brigou com o tempo para a nossa vida de família. Também a enriqueceu e dignificou, eu sei.

Rapaz já não és, mas ainda choras quando vês filmes, emocionado com histórias de bem querer e muito amar. Ainda procuras musicas e livros, ainda me abraças e me fazes sentir em casa. Uma casa grande, com chão e horizonte, com colo e janelas para espreitar o mundo e a liberdade das gaivotas, essas que nomeaste quando nos conhecemos e eu queria voar mundo fora. Rapaz já não és, mas ainda discutimos por causa do jardim e das árvores que não sabes cortar, porque és como o teu pai, tudo é para guardar e cuidar. E discutimos e rimo-nos e dançamos, esquecidos do tempo que já passou e que por isso, nos ajudou a construir a nossa vida e a ter esta história.

Que não é de agora, mas de vem de longe, muito longe. Feita de amor, partilha, dedicação, luta e persistência. Feita de acertos e desacertos, com filhos, mães, pais, amigos...lá dentro. Uma história cheia de nós e de outros. E é como diz a canção " o que nós andámos para aqui chegar!" 

Parabéns, rapaz. E estamos prontos, para continuar, não é?

sábado, 6 de maio de 2017

Acolher maio...

Entrar de mansinho em maio e guardar-lhe todo o esplendor. Sacudir a lama dos sapatos, esquecer as luvas e o casaco grosso, descompor os cabelos e soltá-los ao sol. Desarrumar a alegria e trazê-la para a rua, feita festa da liberdade que já começou. Descansar ao entardecer e preparar a nossa lonjura, em rios que se apressam para o mar, sem medo do caminho.

Acolher maio em regaços frescos de amor, tonto pela renovação dos laços e dos amores, esses que nos enredam a alma e os sonhos, esteira macia do futuro. Acolher maio e as memórias, tecê-las devagarinho em nós, doces e recolhidas, mas sempre presentes, igual à árvore que volta a dar flor e depois fruto e depois sustento com polpa e sumo. 

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/43/a5/43/43a543c80d62011123a5364f9117a21c.jpgAcolher maio e descrever-lhe os encantos, com palavras raras e poemas antigos, que decorámos rápido, um dia, marcados pela emoção de sermos jovens e mudos de espanto. Acolher maio e renovar os votos de resistir para sempre à morte da vida, que chega embrulhada em pequenas doses de conformismo e desistência. 

Porque maio nos convida para sermos inteiros e eternos. Talvez e ainda belos, porque capazes dos maiores riscos e ousadias na reconstrução de sermos como somos. Filhos de mães que partindo, permanecem em amor, mães de filhos que nos prolongam pelo tempo, família de gente aguerrida e valiosa, amigos daqueles que nunca nos deixam sós. Os do peito e de sempre.

Porque em maio, definitivamente, podemos dizer ao que vimos e queremos ir. O sol brilha, a terra é fértil, os cravos continuam ao alto, porque abril permanece em nós. Sem medos e prudências cautelosas.
Acolhamos, pois, maio e a sua rebeldia de mês luminoso e inquieto. Como nos cantou o poeta 

 Maio, maduro maio

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul.


Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andava
Ao longe a varar


Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar


Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu


José Afonso