quinta-feira, 11 de julho de 2019

Amor e autonomia

O sol lá fora a inundar o mundo e eu, cá dentro, cativa de mim.Tento clarear ideias, enxotá-las do mofo, conceder-lhes a primazia para arrumar emoções confusas, que sorrateiras se apresentam hoje, por entre as malas que fazes, para partires de novo. Continuas firme na procura de um lugar ao sol, ainda que digas que este é o melhor sol que podes ter. Mas não chega para cobrir toda a geografia dos teus sonhos.    

Não é fácil aceitar a autonomia no amor. Bem que a podemos proclamar aos quatro ventos, defende-la como condição da vida humana, a única via para ser gente. Quando a nós toca, o conceito perde força e adquire um sentido ambíguo, que aproveitamos, em segredo, para explorar. Um pouco ingénuos, banalizamos a sua utilização e sentido, ignorando os impactos da sua presença nos nossos dias. Nos desafios que ousámos enfrentar no nosso crescimento e no crescimento dos nossos.

Não é fácil entender e aceitar a autonomia no amor. Percecionar o outro fora de nós, alimentar os seus intentos para longe do nosso chão, pressentir a sedução de desafios improváveis e mesmo assim, continuar crente na espera da sua revelação. Não é fácil apoiar este percurso e esta liberdade, que vai sendo escolha, consciência, palavra e ação. Connosco, mas sobretudo para além de nós.

Não é fácil aceitar a autonomia no amor. Porque exige reconfigurar o calor do colo da infância e o sentido de proteção que nos impusemos quando, convictos, inaugurámos em nós a construção de outro(s). Porque implica reconhecer a sua existência como sujeito autónomo, a sua essência e identidade, num compromisso ético pelas suas escolhas.

Não é fácil aceitar a autonomia no amor. Porque nos idealizámos como bússola, ponto cardeal e caminho a seguir. Porque nos apropriámos de um papel definitivo e revelador para a vida do outro(s).  Como se fosse possível cumprir essa odisseia, em redoma e para sempre. Apesar de todo o amor.  
  

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Bilhete de identidade


Aqui estou, frente ao espelho e à vida. 62 anos de mim, sem saber como. O corpo a encaixar-se no tempo, a alma a querer outros rumos. E mudos de espanto nos quedamos, entre memórias e sonhos fatigados, que como o corpo, se aconchegam à cadência do tempo. O tempo com brisa suave e pouca urgência. Já nada renova o prazer do que vem a seguir. O futuro parece perto, desfiado em palpites breves e viciados.

E, no entanto, de vez em quando, o som trémulo da alegria e a paixão de ainda ter, por entre a pele, uma janela para a lonjura do mar e dos sonhos. De vez em quando o prazer de um livro, o espanto de saber que homens e mulheres compõem inteligentemente a cultura, produzindo saber e compreensão do que somos. Uma felicidade imensa por pisar a terra, abraçar a vida e o porvir, acreditar na coragem de gente boa. 

De vez em quando, o esquecimento do caminho feito, por se almejar, com todas as forças, um novo nascer e uma terra prometida. Como se criar fosse a única possibilidade para os dias que nos cercam. Hoje, como sempre, desafiar o medo da morte lenta, que nos confina a noites escuras e abafa os dias claros. 

Aqui estou frente ao espelho, olhando-me por todos os lados, procurando uma nesga para alvitrar poemas certos para corações cansados. Porque a cegueira à beleza dos dias é moléstia feia para alimentar. Continuemos, pois do lado certo do desassombro. Apesar dos 62 anos. 

sábado, 23 de março de 2019

Inclusão, compromisso e ética

Mais um sábado pedagógico. Desta vez sobre a inclusão e o novo decreto. Muita gente quieta e inquieta, a ouvir o que se diz e a pensar no que se faz. Sentadinhos nas cadeiras, não dissemos como no poema da Rosa Colaço, Senhora olhe p´ra vida, deixe as contas de somar! A vida, a nossa, de professores e educadores, estava ali, pronta a ser revisitada numa escola que só pode ser lugar de equidade e diferenciação. Por todos e para todos.

Uma comunicação clara, argumentos audazes, palavras desassombradas, a provar que a força das ideias e dos princípios é o chão e o céu que precisamos para nos pormos ao caminho. E mudos de espanto, convictos e resolvidos (por agora?) aderimos ao discurso e lá vamos nós, contentes e animados, somos muitos e não estamos sós, podemos mais do que julgamos, se é para ser que seja já.

Por entre a elucidação do que já foi feito e do que falta ainda cumprir para uma escola inclusiva, nós, em silêncio, com a cabeça à roda, perdidos e achados nos educadores que somos. E confrontamos o que fazemos, compromissos e cuidado(s) com os que na escola connosco vivem em jornadas de aprendizagem. E recordamos meninos e meninas, iguais e diferentes, famílias com rostos e histórias, equipas empenhadas e outras que nem tanto, projetos e conversas, reuniões, acertos e desacertos. E respiramos, entre o medo e a alegria.

E tentamos desatar o que nos espartilha, despimo-nos de velhas roupagens, mesmo aquelas que não usadas diariamente, ainda pegamos em dias de sol pardo. Porque os há. Dias pardacentos, traiçoeiros e manhosos, em que sem saber como, destilamos algumas crenças apreendidas pela força das circunstâncias pessoais, sociais e políticas. Porque somos também e ainda a escola que nos coube, por legado e tradição. Porque somos, sem quase nunca querer, o poder e a decisão, a norma e o padrão, o certo e o errado.Assim, porque sim.

Inventar uma outra escola, a partir do que já fazemos bem, urge deitar fora o que nos aprisiona e distorce. Urge estar alerta, para não cairmos nas rasteirinhas da prática, aquelas que nos segredam que a inclusão de todos, esta agora, sim, é quase impossível. Não, é tarefa de monta, sim, exige estar e trabalhar com outros, em cooperação e coletivo, equipas multidisciplinares, autónomas e ativas, éticas e capazes de trabalhar sobre o trabalho. E crentes. E corajosas, para poder, às vezes, dizer que o rei vai nu. E o rei são todos os meninos e meninas e famílias que aprendem lá na escola onde todos vivem, muitas horas por dia. E o rei são todos aqueles que a escola ainda deixa para trás, por alienação, desigualdade, elitismo.

Fácil? não, viver com os outros é difícil, como nos disse a Ariana Cosme, a dinamizadora do nosso sábado pedagógico. Obrigada por este dia e esta reflexão. Obrigada pelo entusiasmo e pela possibilidade de poder ser. Obrigada às colegas pela partilha das práticas de cooperação entre profissionais e meninas e meninas do 1º ciclo e jardim de infância. Obrigada por acreditarem e fazerem.
Obrigada a todos os que, apesar das dificuldades, insistem e persistem.