quinta-feira, 19 de março de 2020

Por estes dias...

E de repente, estamos fechados em casa, a fazer dos dias outros dias, inventando a normalidade contra a surpresa e o medo. O medo é um sentimento estranho, inimigo da serenidade e muito poderoso. O medo arrebata-nos os sentidos e a razão, ainda que, em doses certas, nos proteja de perigos e nos obrigue a ser cautelosos. E temos de ser.

Porque a vida é um bem imponderável, ainda que o esqueçamos frequentemente. Vivemos com uma ilusão de domínio e controlo, como se, apenas de nós dependesse o correr do tempo e a confirmação do futuro. E não é assim. Hoje, sabemos melhor, que não é assim. E dizem que vai ser duro. E vai. 

Não estar com os nossos, mais novos e mais velhos, sentir-lhes a falta do riso à volta da mesa e os abraços quentes em tardes de verão. Experimentar a saudade e senti-la na pele e no coração. Quebrar as rotinas, não comprar o jornal e não tomar café, trabalhar de casa. Vai-nos fazer falta a azáfama de estarmos em conjunto, em casa e no trabalho, uma alavanca enorme para fazer a vida acontecer.

Podemos ainda ficar doentes ou ver doentes muitos dos nossos, família e amigos. E desconhecidos, que hoje são uma parte de nós, espelho largo onde nos vemos refletidos. Não há, por agora, quem possa dizer-se imune a este mal. Estamos todos por igual no mundo.

E vai ser longo, todo este tempo. Que reservas nos vão ser exigidas? que esperança, solidariedade e coragem vão ser necessárias? que preces, pontos de luz, poesia e prosa para nos acalentarmos? que cuidados e desvelos para connosco e com os outros?  

Mantenhamos por agora a cabeça arrumada, os cuidados redobrados, a atenção infinita aos outros, a serenidade, a alegria, a criatividade. E a lucidez. Por nós e por todos. Vamos ficar bem!

 Claridade - Miguel Torga
 
Clareou.

Vieram pombas e sol,
E de mistura com o sonho
Posou tudo num telhado...
Eu destas grades a ver
Desconfiado

Depois
Uma rapariga loura
(era loura)
num mirante
estendeu roupa num cordel:
roupa branca, remendada
que se via
que era de gente lavada,
e só por isso aquecia...

E não foi preciso mais:
Logo a alma
Clareou por sua vez.
Logo o coração parado
Bateu a grande pancada
Da vida com sol e pombas
E roupa branca, lavada.

Lisboa, Cadeia do Aljube, 1 de Fevereiro de 1940

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Quanto custa a vida?

Quanto custa a vida?  Hoje acordei com esta pergunta, em jeito de balanço. É fim de ano, somos dados a sínteses e promessas.

Quanto custa a vida? quanto de nós se esvai na liquidez dos dias e na luta de ser gente, entre iguais e diferentes? quanto pagamos pelo pão e pela comida na mesa? quanto pagamos pelo amor no coração e na alma ardente? quanto damos, recebemos e recusamos?

Quanto custa a vida? quanto pagam as crianças que vivem na pobreza e espreitam um futuro que foge desalmado? quanto pagam os sem casa, pela praça deserta e o cartão que não cobre o frio?  quanto pagam as mulheres maltratadas? e os outros, marginalizados?

Quanto pagamos pelos sonhos desfeitos, pela procura da verdade e a alegria da liberdade? quanto pagamos pelas nossas ideias? quanta força despendemos no içar das bandeiras que colocamos ao alto? 

Quantas lágrimas derramamos no correr do tempo, quantas rugas se formaram e se tornaram pele, quantos ensaios rasgámos e reescrevemos, quantas palavras se foram, sem verbo e conjugação?  

Quanto nos custa rebeldia e a alegria? e a solidariedade a bondade? o canto e o poema? quanto nos custa ser gente de corpo e alma inteira? 

Que 2020 possa ser um ano livre de pagamentos coercivos. A pagar, que seja em cestos de géneros livres de impostos: igualdade, direitos, justiça, pão, saúde, trabalho para todos. Sem distinções.
E amor e rebeldia. Muito. Sempre. 


sábado, 21 de dezembro de 2019

Sentir a falta...

Aqui estamos de novo e de novo me fazes falta. Este ano, ainda mais, estou deslaçada com este tempo, eu que aprendi a gostar tanto do natal. Perdi-lhe o encanto? Não, aumentaram as perguntas e as cismas, como dizias, quando te querias referir aos meus silêncios disfarçados.

E no entanto, queria sentir esse gosto bom do cheirinho a natal, uma espécie de alegria secreta e calorosa, salpicada de risos e afagos. Por isso, fazes-me falta. Não que fosses muito pronta na expressão dos afetos, a educação moldou-te em contenção e pudor, mas eras a minha mãe, de rosto doce e menineiro e por isso te queria aqui. Para me olhares com olhos de interrogação e anuir, contente, com as minhas decisões. E eu a ficar mais amparada nesta eterna necessidade de obter aprovação. Coisas de menina pequena que o tempo não apaga.
foto J.I. Trafaria

Queria-te aqui, neste natal, para ficar menos só, apesar da casa cheia. Queria ainda ser filha, e mesmo que não pudesses cortar-me o cabelo e deixar a franja curta ou dar o laço, a preceito, nos bibes de andar por casa, queria-te aqui para sentir que tudo está bem e certo e por isso, tudo é justo e promissor.  


Queria-te aqui por casa, para irmos comprar as couves e o bacalhau, medir-lhe a altura e discutir os preços, sacudir o sal e meter no saco e depois, cansadas, tomar um café com uma broa de mel. E regressar a casa, cirandar contigo, dispondo as velas e os pratos e sacudindo com jeito, as migalhas do pão com manteiga, que comíamos, satisfeitas, no intervalo destas lides. 

Queria-te aqui, para me ficares a ver, meia embevecida, a embrulhar os presentes e a alindar-lhes os contornos, com jeito, confirmando o meu gosto por pessoalizar cada um, com detalhe. E depois havíamos ainda e de novo, de discutir o trabalho que isto dá, tu a tentares convencer-me que talvez não fosse necessário, eu a saber que acreditavas, tal como eu, que é isso que faz toda a diferença nas dádivas que damos uns com os outros.

Vês porque te queria aqui neste natal? para o fazermos e vivermos na cumplicidade boa que este tempo construía em nós. De mãe para filha. 
De novo, no natal e sempre, fazes-me falta.


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Recato e pensamento.

Refugio-me no meu coração, que o tempo é de recato. Chove lá fora e a casa quente diz-me que tenho sorte. Alguns dirão que é justo, que a ela tenho direito, porque trabalhei a vida inteira. Pois sim, mas outros também o fizeram e casa não têm.  Não sei resolver esta equação, mas sei-lhe o sentido e a injustiça. Hoje permito-me não pensar nisto, apesar do frio.

Refugio-me no meu coração, para não me perder. Quero-me inteira e capaz de pensar, com a razão e a emoção. Dá trabalho esta conjugação, acertar os pesos da balança, que de instável, pende, às vezes, para uns dos lados. E poucas coisas são binárias, ainda que na nossa pequenez gostemos de arrumar a vida entre "isto ou aquilo". Não chega, face à dissonância do mundo.

ilustrações do natal - JI Trafaria
Refugio-me no meu coração e sou procura e consumação. Uma espécie de criança pequena espantada no tempo e com os homens que o habitam. Do lugar onde estou, o que vejo perturba e inquieta. Campeões de corridas, queremo-nos rápidos e invencíveis. A velocidade como meta, mesmo sem saber o caminho. E importa? Depende, não me sinto capaz de discutir cenários.

Refugio-me no meu coração e tento sossegar. Aquietar-lhe as razões e os desvarios, contê-lo, para que não se distraia com as luzes cintilantes da época. Reter apenas o essencial, nas noites frias do mês presente. Um agasalho, uma chávena de café, um pão quente, um abraço presente. Nós com os de casa e os da nossa vida, que são esses e outros. Quantos? Não importa, hoje não faço contar de somar, hoje as contas são de acertar.

Refugio-me no meu coração e acerto-me. Eu comigo, entre as vozes e as nozes, que o tempo é de natal e frutos secos, exige recato e contenção. Ser outra coisa, no meio do desatino e do comércio, ser essência e frugalidade, ser conduto na mesa e braseira para o frio. Suficiente? não sei, apenas me ensaio e me experimento, acertando duvidas e certezas, querendo-me inteira e a pensar. Para não me perder, neste natal. Por mim e pelos outros.

   

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

De que matéria somos feitos?

 De onde nos vem a luz que temos cá dentro e ilumina os cantos sombrios da vida? de onde nos chega a convicção e o encanto, a beleza e a alegria, a raiva e a cobardia? porque teimamos na vela acesa, como sinal para o caminho? porque rimos e choramos e ainda assim, continuamos, trémulos e prontos para o que amamos? de onde nos chega o amor pela liberdade, ultimo reduto da nossa verdade? de onde nos vem a rebeldia, a fé sem rumo na ousadia, o querer ir e apostar, o partir e procurar? porque nos mantemos de pé, firmes e capazes de muitos feitos, quando estamos, às vezes, desfeitos? porque queremos, acreditamos e vamos?

desenho da Sara -  JI da Trafria
De que matéria somos feitos, neste mundo dividido? os que discursam e os que fazem, os que insistem e os que desistem, os que escutam e os que falam? os que tudo têm e os que nada terão, os que adoçam a boca com broas de mel e os que suportam a fome e o fel?

De que matéria somos feitos, para aplaudir de pé vitórias breves, obedecer e anuir, esconder a voz e o porvir? O que nos leva a iludir  a nossa vidinha, rodeados de tanto ter, a consumir e a inventar o que ainda há para arrecadar? De que matéria, sonhos, convicções e enganos somos feitos?  

Neste natal, tantas perguntas, a inquietar o lado mítico da época. Por entre estrelas e luzes cintilantes, um estremecimento no corpo, uma alegria insatisfeita, uma ternura com medo. E ainda assim, o contentamento por tudo se repetir, mais uma vez. E ainda assim, a beleza do presépio, o cheiro do musgo da infância, a alegria de estar vivo, pensar, sentir e escutar. E ainda assim saber ouvir a aceitar as vozes de dentro, sem assombrar as de fora, feitas palavras, risos e abraços daqueles que amamos. 

Que seja natal, com e para lá da matéria de que somos feitos. 

sábado, 2 de novembro de 2019

Tempo e intimidade

Um sábado de outono. Céu cinzento, campos molhados, gotas de chuva a salpicarem de mansinho os dias que vamos vivendo. Chegou novembro. Gosto deste regresso, a prometer o cheiro de castanhas assadas e a intimidade boa de uma sala quente. Com sofá e livros. E conversas longas. 

Gosto deste tempo e da possibilidade de recato e interioridade. O tempo ameno, às vezes agreste e frio, a convidar-nos para olhar para os nossos botões, em boa companhia. Uma espécie de hibernação dos dias fartos de sol, que puxam para o terreiro e para o estonteamento da vida.

Gosto deste tempo e de poder refazer a roda dos dias, mexer-lhe na direção e nos contornos, cimentar o sentido do que somos. Gosto de conversas longas à volta da lareira, ou na mesa de um café, com amigos que, como nós, apreciam o desfiar das palavras para a composição do mundo. Gosto de falar de crianças, de pedagogia, buscar os sentidos da profissão de educar crianças, tarefa sempre sujeita a perplexidades e desafios. Gosto de partilhar livros, comentar filmes que nem vi, pegar na minha alma e mostrar duvidas e medos pouco confessados. Desnudar-me e reinventar-me. 

Mas para isso, é preciso ambiente e luz certa, contemplação, retraimento e pudor, que há uma diferença entre "dizer coisas ou ter coisas para dizer". Por isso, gosto muito do outono, a escorregar de mansinho para o inverno e do tempo fusco, sem luzes da ribalta, num aceno discreto à companhia das palavras e conversas boas. 

Como a poesia. Aqui fica. 

Os ritmos

Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver. 
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens
esperando 
E ninguém me podia entender. 

Sophia de Mello Breyner in Coral 1950

sábado, 19 de outubro de 2019

Memória e afetos

Sei que se encosta, calada e triste, aos pilares das suas memórias antigas e estremece, de medo, quando as palavras lhe faltam, numa conversa solta, à mesa do café. Volta-se do avesso e retoma o prumo, brinca e graceja, por entre uns laivos de surpresa triste que assombram os olhos cansados. Talvez se estranhe e se inquiete, porque foi sempre um rio de palavras, uma cascata forte, um mar incansável para os sentidos da vida. 

Sei que teima, todos os dias, para repor o que sempre foi e já não é, mas sobram espaços em branco e tempo atabalhoado. Perde-se em pequenos recantos, manuseia objetos e sente-lhes o cheiro, na ânsia de se encontrar, de novo e para sempre. Compõe, com precisão lenta, objetivos e propósitos diários, reafirmando a si e aos outros, a sua liberdade e autonomia, princípios de que nunca abriu mão. Lê, passeia, escreve e reescreve, para tornar imutável o que lhe escapa e não retém.

E sofremos com ela e por ela, negando a fragilidade que nos esconde, mas que escorrega, teimosa e ilícita, pelo seu corpo e pelos gestos. E sentimos saudade dela e da sua experiência em nós, porque foi sempre uma amiga certa, uma casa cheia e um colo amigo. Porque foi sempre rebelde, lúcida e socialmente comprometida com a vida e com o mundo. 

Como aceitar agora que se esconda em lugares remotos e deslaçados, a que dificilmente acedemos? Como conciliar o seu desejo de liberdade e a nosso dever de proteção? Olhamo-nos ao espelho e o que vemos incomoda o que tínhamos como dado e garantido. Não sabemos ser nem fazer. Olhamo-nos ao espelho e o que vemos, assusta, porque nos revemos hoje e no futuro. 

Sem o poder de voltar atrás no tempo e nas circunstâncias, resta-nos acreditar no poder do amor, da amizade e do compromisso. Resta saber e sentir que amor com amor se paga. Será suficiente? Tentemos.