sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Fazer parte

Quando pertencemos ao lugar onde estamos? Quando olhamos e o que vemos, é também aquilo que sentimos e temos dificuldade em separar a pele da árvore, o colo do chão, os olhos do jardim? Quando é que por dentro já somos parte do que vemos por fora e tudo se conjuga numa amálgama de cores, risos, caminhos e projetos?

Quando é pertencemos ao lugar onde estamos? Quando é que o tornamos nosso e nele inscrevemos as nossas impressões digitais, aquelas que permitem tornar conhecido, amigável e desejável o que antes era apenas uma forma de arquitetura, mais ou menos bela, mais ou menos neutra? 

Quando é que as pessoas se tornam parte de nós, os risos são saudações de acolhimento, as falas uma espécie de cartão de identidade? Quando começámos a amar e a fazer parte? 

http://1.bp.blogspot.com/--DzH8yIE1io/Uw9tC4fVeHI/AAAAAAAAFIY/gTJnXmZwYjU/s1600/14-Si+no+hay+viento+habr%C3%A1+que+remar.JPGQuando é que deixamos de ser estrangeiros nos lugares que habitamos e nos tornamos gente no meio de gente, sabendo ler as sinas e as mágoas, os ditos e os silêncios, a alegria e a tristeza? Quando é que sabemos que tudo está certo, porque assim é que é, para além das dificuldades e deceções?

Quando é que a vida se põe de feição, mostrando que ali é o nosso lugar e que podemos escrever quase todas as histórias que os sonhos necessitam? Quando é que começamos a sentir que a vida se faz por aquele sitio e aquele sitio é o lugar mais certo para fazer a nossa vida e a de outros?  

Quando é que estamos no meio da nossa gente? Quando pertencemos ao lugar onde estamos? 

Carreguei ontem dentro de mim todas estas perguntas, quando me apresentei na ESE, lugar para onde vou dar aulas, durante este ano letivo. Carreguei-as de novo, hoje com mais intensidade e desconforto quando fui à minha sala e encontrei pela rua, a minha gente.

Assim me sinto, a despedir-me de um lugar onde fiz cama, colo e projeto, onde as histórias se desenharam com cores e traços de amor, para enfrentar a construção de um novo lugar. 

Mas tenho saudades do que foi e do que poderia voltar a ser, lá no meu lugar. E lembro-me do poema de Cecília Meireles...pois é! 

Ou isto ou aquilo
Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!



Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

(...)
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.


terça-feira, 23 de agosto de 2016

Despedida

Vou partir desta terra e deste cheiro, dos milhos verdes, da água da ria, dos barcos moliceiros e do tempo fresco. Vou partir desta casa e desta saudade. Um estado permanente que se pega à pele e permanece imutável. Sempre.

Vou partir. Vou levar comigo na bagagem, o descanso morno na cama quente, as fotos de menina, a salinha da lareira, o aido com fruta, o bom dia das mulheres, as conversas soltas de quem nos conhece há muito tempo e para na rua, a sorrir. Vou levar-me e levar-te.

https://neurocrescimento.files.wordpress.com/2012/03/milho.jpgSetembro vai chegar, as folhas vão cair, o sol ficará dourado e ameno e vou ter-te ainda. Porque a saudade é bem que se quer por perto, para confirmar que já fomos outros e continuamos com eles por dentro de nós. A compor a vida que temos e aquela que ainda sonhamos e queremos.

Deixo por cá a minha passagem, impressa nas muitas coisas que faço e sou. Como sempre, alindei jarras e cantos, decorei com pedras a beira das janelas, acertei quadros e cortinas, para tudo ficar a preceito e lindo. Intacto e silencioso. Profundo.

Porque este é o teu lugar. E tu estás sempre por cá, outra coisa não poderia ser. E por isso te sinto nesta despedida e por isso te levo para o recomeço do tempo dourado do outono.  

 

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O amor

O amor. Que coisa é esta do amor? 

Fiquei cheia desta palavra e desta procura, depois de o ter deixado em casa, magro e muito frágil, a sorrir, antes de fechar a porta, em jeito de agradecimento e segurança. Como se a tivesse agora, como outrora a teve, e dela fez a sua bandeira. Ainda hoje.

O amor.
https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/564x/fa/80/68/fa8068919abd987999e54abdbf549039.jpgConduzi pelas ruas lentamente, com o sol a consumir-me e a ideia da inevitabilidade do amor às voltas dentro de mim. Como coisa poderosa, que é cuidado, presença, preocupação, pele, sustentação, partilha. E dor, às vezes. Muito ou pouco, depende.

O amor que tem tantas caras e expressões, pessoas e dialetos, horas curtas e eternidades, princípio, meio e fim. O amor, que é dos filhos, dos pais, dos companheiros, dos amigos, das crianças da escola, das famílias, do mundo. O amor e os amores, todos diferentes e todos iguais, porque plenos de afeto, liberdade, autonomia. Diferente e ousadamente. O amor, como condição de respeito e bem cuidar. E bem querer. E bom ser.
 
O amor, aquele que damos e recebemos e nos faz fazer parte. O amor que evita a exclusão e o preconceito, que cria canções de roda de mãos dadas, gente atada nos outros, uma espécie de cordão umbilical, que vai e vem e não se desprende. Uma linha e uma conduta, um compromisso, a testemunhar histórias e percursos, que são nossas e dos outros, os que amamos e nos amam. Porque amor com amor se paga. E outra forma não há de viver.

O amor.
O que embala no berço, reforça o sonho, ampara na aflição, combate a desistência, imprime direção e rebeldia. E é porto seguro em dias de tempestade. E uma janela aberta para a vida, quando o ar falta no peito e o tempo parece estar em contra-relógio.
Como hoje, como agora.
 

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Descanso

Mar longo, mar imenso. 
Secam-me as palavras com a frescura da tua água, invade-me uma lentidão morna quando te olho, assim manso e lento junto à areia. Tanto mar e eu por perto, sem relógio e sem pulsar, apenas cheia de silêncio que é a única coisa que aprecio, por agora. E sol. E liberdade.

De resto, admiro-te todos os dias e recomponho o tempo junto a ti. Nada mais quero fazer, a não ser deslindar-me da pele enrugada das dores dos dias, ainda tenho o corpo cativo do cansaço e dos excessos. Do trabalho e das pessoas. Apenas algumas, sim.

http://2.bp.blogspot.com/_Q5TN4EpETn4/TNl7PoQRhWI/AAAAAAAADQ8/wY1zE5nbyN8/s1600/P+tarde.JPGTodas as outras moram comigo neste início de verão. Transportam a minha amizade e a minha vida, apreciam o mar por dentro de mim, escutam o silêncio e continuam atentas e dispersas, coloco-as assim por assim me ser mais fácil ouvi-las e atendê-las. Mas não falam, respeitam esta imensa necessidade de ouvir apenas e só o bater das tuas águas contra a areia dourada. 

Mar longo, mar imenso.  Daqui te vejo e quase te ouço, leve e gentil, para não assustar o bater do coração nem agitar o sono profundo do descanso. Dele preciso e dele me renovo, por agora. 
Contigo, lá ao fundo. 


sábado, 30 de julho de 2016

Propósito(s) de verão

Deter  o tempo e inspirar a lonjura do silêncio. Segui-lo até à imensidão da alma, abrir a porta, sacudir as últimas migalhas de cansaço, ensaiar uma dança na claridade do jardim, sorver as primeiras gotas puras do dia, antever a tua chegada por entre os espaços soltos da memória. Confinar-me nessa alegria, uma espécie de promessa de mel espalhado no pão, saciar a sede de infinito e beleza do mundo. Tê-la o mais possível dentro de mim e junto às imperfeições da vida.  

https://thumbs.dreamstime.com/x/two-seagulls-near-sea-6493054.jpgDepois passear pelo esplendor do rosto dos amigos, gente segura e sempre certa. Rever com tempo o seu presente, animá-lo ao som da amizade que é de pedra e cal e está para durar. Entender e aceitar essa esteira boa de quem caminha com outros. soltar gargalhadas na esplanada mais perfeita para ver o mar, o azul da água a brilhar no colo da areia, o vento a acariciar as penas brancas das gaivotas. Adormecer ao som do seu grasnar.

Depois sorrir das certezas, sem receio da presunção e água benta. E escrever. Agarrar a liberdade e deter palavras, impedi-las das suas fugas, inscrevê-las em ladainhas de enredos e verdade. Cativar a sua luz e o poder de cumprirem histórias e sonhos. Uma espécie de dicionário da realização da vida, a incansável procura da sua beleza e sentido.  

Depois dormir, ler e descansar. Sair para espantar rotinas, deitar fora o que incrustou na pele e é, em alguns dias, uma segunda camada, a perturbar o ritmo da invenção dos dias. Da mudança de nós, por nós. Sem atilhos e nós cegos. 
Com rédeas soltas, para procurar a beleza e a maravilha. Como nos diz Eugénio de Andrade


Procura a maravilha

Onde um beijo sabe
a barcos e bruma. 

No brilho redondo 
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.
Procura a maravilha

Eugénio de Andrade 

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Postal em dia de verão

A água a bater forte contra a areia e a mulher a interrogar-se sobre o vai e vem da vida, a sua e a de outros. As gotas salpicadas um pouco por todo o lado, a fazer vingar a ideia da liberdade do verão. Uma liberdade gostosa e hoje, afinal, coisa pouca. Porque os tempos são ditados pelos estados de alma e pode ser inverno em pleno verão. Pois pode. 

E era assim que estava surpreendida com o correr dos dias menos ditosos. Sabia, pela idade que tinha, que as promessas não são como os frutos maduros que se apanham em tempo certo. Existe a probabilidade de se arrancar da árvore a maça ainda verde, mesmo que se saiba de cor o ciclo da vida. Os homens são capazes de gestos descabidos e contranatura. Crescem com amarras no corpo e nos sonhos, levam a vida toda para desembaraçar inercias e alcançar asas nos pés.  

https://image.freepik.com/fotos-gratis/o-por-do-sol-na-praia-de-bali_21179879.jpg 
Olhou de novo o mar e abeirou-se da tristeza. Um instante apenas, num laivo de desencanto. Depois reagiu e aprumou-se. Não ia de bem consigo eternizar a nostalgia da água a espraiar-se, sem rumo. Se já tinha movido montanhas em dias de vento norte e tempo seco, como deter-se agora, face à serena imensidão do mar? 

Levantou-se e sacudiu a areia e o desalento. Esperaria pelo cair da noite e a renovação do dia, na convicção de mudar as lentes de ver o mundo. 

Apesar das rugas acontecia-lhe, não raras vezes, inventar-se com a certeza da juventude. 
Mas isso era segredo e não dizia a ninguém, não gostava de risos disfarçados em rostos condescendentes.     


sábado, 9 de julho de 2016

Avaliar. Para quem escrevemos?

Escrevo. Junto as palavras e componho as ideias, relembro ações e consulto os factos, descrevo, o mais detalhadamente possível, o trajeto de evolução e aprendizagem. Tento garantir, por escrito, que em setembro, o saibam acolher e abraçar, tal qual ele é e pode vir a ser. Uma pessoa, com recursos e promessas. 

Emociono-me. Três anos de caminho, ao principio o corpo todo em tudo, tinta e cola na boca, água a escorrer nas mangas, gestos assustados e poucas falas. Apenas os olhos, apenas a emoção, às vezes contra todos, às vezes contra o chão, a cuspir e a deitar fora tudo o que não encaixava na sua experiência. Às vezes zangas, às vezes o cansaço, às vezes o lamento de ser-se tão pequeno e saber já tudo de si e tão pouco de outros mundos. Aos poucos, a alegria, parar para olhar os outros, aprender e envolver-se, por fora e por dentro, desenhos e pinturas mais elaboradas, o pincel de braço dado com a liberdade e o coração, a leveza dos traços, para cima e para o lado, fazer uma casa sem que parecesse, mas a intencionalidade já presente. Agora, a confiança de assinar o nome nas produções e nos mapas, as cores na ponta da língua, a realização das tarefas, a cooperação com outros, o sentido sempre alerta e a curiosidade imparável de quem procura, antes de todos, o que vem nos sacos...  Ah é para fazermos uma casa para os caracóis...eu sei... posso ser o primeiro??? Sempre a tentar garantir o que não tem de mão beijada.
 
https://oexcluido.files.wordpress.com/2011/01/papel-e-caneta1.jpgPara quem escrevo eu? para a família que veio e não sabendo ler, ouviu e conversou e sorriu. E quis confirmar se ele estava bem. E está, pois, menino lindo e combativo, persiste nele uma ligeira agitação, qualquer coisa que o faz levantar-se, perguntar, falar. Mas já sabe ouvir, compenetrar-se nas suas escolhas, iniciar, desenvolver e terminar. Persiste nele um imediatismo na resolução de problemas que o faz bater ou dizer um impropério menos adequado. mas já sabe encontrar palavras boas para oferecer aos outros, discutir no conselho, com argumentos e atenção. E sabe fazer teatro, e sabe dançar e cantar e espanta-se com a beleza e gosta de artistas. E memoriza e compara. e muito mais...e emociono-me de novo e canso-me com tanta escrita. 

Para quem escrevo eu? para uma escola de norma e padrão, onde os diagnósticos são prontos a vestir e as metas uns cardápios que guiam o futuro, sem espaço e gente por dentro, que é como quem diz sem os meninos e meninas autênticos e reais que povoam as nossas salas e a nossa profissão?  

Ou para uma escola que aprende, que diferencia as suas práticas e modos de fazer, desafia cada um de acordo com o que é e sabe e materializa uma aprendizagem a par e passo, centrada no grupo, no contexto de vida das crianças, famílias e comunidade? Uma escola preparada para acolher cada criança, nas suas características, sonhos e condições?

Prefiro pensar nesta ultima solução, para tranquilizar os meus receios e previsões. Para sentir que avaliar assim, descritivamente e centrada nas conquistas e evolução, é bom, é certo e vale a pena. Para que todos tenham lugar e o sucesso seja um direito real e indiscutível.
E não fique a ruminar na ideia que uma colega me disse quando viu uma ficha de avaliação...Bolas, pois...tu fazes assim porque és perfecionista e consciente, mas ninguém vai ligar a isso!...   
Mas vai, não vai?