sábado, 24 de outubro de 2015

Outono

Gosto do outono. A frescura das manhãs, o som da chuva na janela, os troncos molhados das árvores, os cestos coloridos da fruta no mercado, o cheiro de castanhas assadas a aquecer uma rua da cidade. E os casacos a abraçarem o corpo e o corpo a pedir sofá e um chávena de chá quente. E os telhados das casas molhados e os gatos a deslizarem, com preguiça.

http://todateen.uol.com.br/tt/wp-content/uploads/2013/03/outono2-Thinkstock_e_Getty_Images-post.jpgGosto do outono e dos bancos vazios do jardim, das folhas caídas no chão, em jeito de abandono e esquecimento, numa espécie de leveza perdida em qualquer sítio e hora. Gosto da paisagem a manchar-se de vermelho e laranja, castanhos dourados com pinceladas de lilás, às vezes, num esplendor sem fim de cores e formas. Gosto desta arte e deste encanto, desta beleza e quietude. Gosto deste tempo e deste recolhimento, desta melancolia mansa, deste deslizar sem pressa até ao pinheiro verde do natal.

Gosto dos fins de semana de outono e de livros por perto. Para tocar, ler e demorar-me em cada palavra como se de uma prece ou mistério se tratasse. Da estante tiros alguns, só um livro é pouco, e passeio-me por entre o silêncio, colorindo-o com os sons e os sentidos do outono.
Um dos que mais gosto diz assim  

É outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
sem a febre de tantos lábios,
sem nenhum rumor de lágrimas
nas pálpebras acesas.

Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra.

Eugénio de Andrade (As palavras interditas) 

domingo, 18 de outubro de 2015

Crescer: entre colos e palavras

Uns chegam em correrias malucas, risos altos e gestos enérgicos, com as mães a protestar, porque fugiram delas. Outros, mais calados, franzem o sobrolho e encostam-se mais um pouco ao sono que trazem preso ao corpo. Outros, dizem bom dia e marcam a presença, compenetrados das suas obrigações. O inicio do acolhimento é assim, interativo e com uma forte relação dual, assente em olhares e trocas de coisas que vêm de casa, combinações de brincadeiras conjuntas, ameaças de nunca mais se ser amigo. E o plano do dia tem que esperar, porque há braços no ar e pedidos: posso falar de um problema?...Posso dizer uma coisa?...Quero falar. E paramos tudo e falamos que este desejo recentemente conquistado merece ser respeitado e valorizado. Para além do plano do dia, ou melhor, em favor do plano do dia, que necessita de meninos e meninas que saibam dizer-se e pensar-se.

E lá ficamos nós em conselho a ouvir-nos e sempre a dar atenção a quem está aflito, em lágrimas e em dores. Porque as sentem e as expressam. Eu tenho um problema, a minha mãe foi ter um bebé, no hospital, é o meu irmão...mas isso é um problema? o teu mano está bem?, digo eu. E ele responde do alto dos seus 4 anos...o problema é que a minha mãe não vive na minha casa. Eu tenho um problema...o meu irmão caiu e ficou ferido e foi para o hospital...Manela, a L. já não é minha amiga... Todos ouvem, todos comentam, todos querem falar.

http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/foto/0,,34513923,00.jpgÉ também pela manha que os colos são solicitados, fazendo fila junto dos adultos. Querem porque querem e ficam zangados quando não têm. Temos sempre que negociar, o que não é fácil e nem sempre justo para alguns. Nesta semana conversámos sobre os colos: porque querem colo os meninos? Porque se gosta de colo? Porque faz bem ao corpo e ao coração...Porque é bom, é miminho...Porque as mães não dão e nós depois pedimos...Porque assim, os outros já não nos batem...Porque gosto de ti... Concordámos todos que sim, o que diziam era verdade e que todas as pessoas precisam de colo e de amor. Mas que o amor e a amizade existem mesmo quando não se dá sempre colo, porque isso não é possível. E que tínhamos que saber dividir colos, fazer planos do dia, cumprir com o que combinámos, ouvir e tentar ser amorosos com os outros, disse a M. que também disse no outro dia, quando com ela tive uma longa conversa, assertiva e um pouco impaciente, gostei muito de falar contigo, M. gostei desta conversa... Vou pensar nisto muitas vezes. E sorriu e foi brincar.

E assim vamos nesta comunidade de gente que cresce a cada dia, entre colos e dedos no ar, para se dizerem. Fico maravilhada e incrédula com a rapidez da aprendizagem e a possibilidade de com palavras fazerem o exercicio da expressão dos seus sentimentos. Tenho a certeza que este é o caminho, aqui e agora, neste lugar, com estes meninos e meninas. Saibamos nós, apoiar estas manifestações e torná-las a coisa pedagógica inserida no currículo de trabalho. Para não espreitar, no final da semana, um certo incómodo, pelo que não foi cumprido na semana da alimentação saudável...

domingo, 11 de outubro de 2015

Recomeços...

Um sábado com chuva e um domingo igual. São bons estes dias que se despedem do verão e caminham a passos largos para o inverno. É bom vestir um casaco quente e calçar meias, sentir o calor do corpo, em confronto com o frio que nos começa a visitar, ainda que muito ao de leve e de mansinho. Regressamos às rotinas, dias de trabalho e fins de semana com jornais e café gostoso, escapadelas para o sótão, pensar a pedagogia, fazê-la o melhor possível, retomar a infância e a(s) sua(s) realidade(s). Assim estamos já há quase um mês, cercadas por crianças e centradas nelas.

http://4.bp.blogspot.com/-NVZX9_-8_fY/VARtupeOCgI/AAAAAAAABgc/BJc6e1HvdWk/s1600/Imagem1_png12.pngDe novo o sentimento de que não é fácil. De novo experimentar que a construção de laços e sentido(s) de sermos e estarmos em comunidade, é um caminho lento, ainda que fecundo. Exige a relação com e entre todos, numa construção fina e frágil, como se de uma teia se tratasse, feita em muitas direções, sem desprender ou quebrar nenhuma das suas pontas...é difícil. Se queremos instituir processos de comunicação efetivos e afetivos, aqueles que nos envolvem de corpo e coração com os outros. 

 E só nos damos assim, quando reconhecemos que pode ser assim, e que sendo assim, pode ser bom e gratificante. E seguro. E confiável. Até lá, resistimos, fugimos, estamos... sem estar. Como me disse no outro dia o G., com uma expressão meia aborrecida e pensativa eu ainda não quero muito estar aqui... Ri-me, com a sua verdade e a sua lucidez, e disse-lhe eu sei... ainda não conheces nem gostas muito da sala, dos amigos, desta escola...tens saudades da tua e dos amigos que lá deixaste. E dei-lhe um abraço que ele aceitou e parece ter gostado, porque foi a correr brincar, de novo.

Neste tempo de regresso às rotinas, é preciso ser capaz de ouvir e dar abraços e ser colo para cada um. Respeitar o que dizem e fundamentalmente o que sentem. Tento treinar-me todos os dias e não esquecer que são novos, em idade e permanência na escola. Tento ser suave e recomeçar, de novo, a resistir à fúria do currículo e à perfeição do método. Para me encaixar bem no puzle que são as emoções de tantos meninos e meninas. Para que possa apoiar a B. que furiosa, se zangou no conselho, negando a ação que tinha feito sobre um amigo, recusando-se a falar. Não fui muito branda com ela, e no fundo de mim, alguma impaciência por ver que ainda vai demorar a perceber este espaço como lugar para conversarmos e negociarmos as nossas ações e as nossas regras de sala, que são da vida, também.

Neste recomeço de outono, treinar todos os dias a ideia com calma e com alma, mote eleito para este ano. Eles merecem e a equipa também.

domingo, 4 de outubro de 2015

Domingo, dia de eleições

Já não escrevo há muito tempo. As palavras têm andado silenciosas, certamente inebriadas pelo sol e pelo calor que se tem feito sentir. Hoje, com a chuva e o vento como companhia, escapo-me para o sótão, lugar de trabalho e reflexão, lugar de aconchegos e intimidade. Eu comigo, eu com os outros. 

http://www.rumoamadrid.com.br/site/wp-content/uploads/2015/05/Urna.jpgE hoje é domingo, 4 de outubro, dia de eleições. Já fui cumprir o meu direito e vi muitos também a fazê-lo. Fico sempre emocionada com esta possibilidade de reafirmarmos o que queremos e desejamos, ainda que muitas vezes, os resultados não me satisfaçam o meu sentido de mudança. Mas é uma possibilidade vital para a democracia que os homens e as mulheres, de caneta em punho, escolham o que querem. Dizer sim e dizer não, para uma terra de todos e para todos. Com liberdade, autonomia, igualdade, sucesso, bem-estar e dignidade, trabalho, uma casa, pão e vinho sobre a mesa, educação, saúde. Sem ciclos de pobreza e exclusão que recaem, sem dó nem piedade, sobre os mais vulneráveis: idosos e crianças. Os que nos deram cultura e afeto, construíram parte do nosso mundo, participaram n a nossa história pessoal e coletiva. E as crianças, como pessoas de corpo inteiro, que necessitam de o ter quente e cuidado, num coração com promessas e dias longos, felizes e completos.  

Emociono-me sempre, ver este direito em ação, nas filas de gente a votar. E lembro-me da minha mãe que se vestia de novo nestes dias e lá ia em silêncio, contente desta oportunidade para expressar a sua opinião. Olhos brilhantes e voz em sussurro, como se ainda duvidasse deste poder, depois de tantos anos de ditadura e de opressão da liberdade e do pensamento. Ela, mulher, a quem foi negado, a decisão e a livre escolha. Nas eleições e na vida. Como tantas outras, durante mais de 40 anos. 

É por isso que estou assim, aconchegada neste sótão, a olhar o tempo e a pedir que não limite as idas às urnas. Porque isso é um ato de vida conta a morte, a indiferença e a estagnação.  Afirmemos o direito a um tempo e uma terra diferente, a favor e com as pessoas. Todas.

E por aqui vou ficar, para ao fim da tarde me colocar junto à televisão. Espero que a única tristeza que me invada seja já não poder telefonar à minha mãe, para comentarmos, entre risos e palavras soltas, os resultados eleitorais. 

Fico com a poetisa e com as suas palavras certas, neste dia.

Esta gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"