Quase a chegar a 2015.
Sabemos que uma noite igual às outras nos vai levar do ano velho para o ano novo, e que não é essa passagem noturna que transforma a vida ou muda o destino. O dia irá amanhecer igual a tantos outros, mas apesar disso, muitos de nós vão comer as passas e subir a uma cadeira, à meia-noite, fazendo força para a realização dos seus sonhos, num misto de brincadeira e coisa séria.
Iguais às crianças, jogamos pelo seguro, não vá o diabo tecê-las e pedimos uma varinha de condão para afastar maus-olhados e convocar para os nossos dias, a presença de anjos generosos. Que nos protejam e nos favoreçam, como dizia a oração que rezava com a minha avó, todas as noites que com ela dormia Anjo da guarda, minha companhia, guardai a minha alma de noite e de dia.
E guardava, ainda que lá mais para diante, quando fiquei mais velha, lhe tenha perdido o rasto. Mas perdemos sempre coisas quando ficamos adultos e nos apoderamos do mundo. Deixamos cair, inadvertidamente, a invenção de dias claros, por nos sentirmos, em muitos dias, cansados de acender a candeia e iluminar os caminhos.
Nem sempre, sim, que da infância guardamos algumas réstias dentro de nós, bocados de alegria, jovialidade, mistério e fantasia, em doses suficientes para, a cada ano que passa, renovar as bem-aventuranças para nós, para os nossos e o mundo. Em jeito de fé e de pacto.
Ainda bem que não perdemos esta infância e os seus segredos na nossa intimidade de homens e mulheres. Ainda bem que o riso nos cobre os olhos e adoça a lonjura do caminho, fazendo-nos acreditar que para além de alguma sorte ou acaso, a construção da vida nos pertence, dia após dia. E que essa epopeia é obra nossa, alicerçada em resistência, lucidez, solidariedade, liberdade, respeito e boa(s) companhia(s).
Que 2015 surja desafiador, cheio de amizade, amor, saúde, projetos. Que saibamos e possamos fazer do novo ano, um ano novo.
Recomecemos, de novo. Com Miguel Torga
Recomeça...
Se puderes,
Sem angustia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiiras só metade
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde com lucidez, te reconheças.
Miguel Torga, Diário XIII
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