quarta-feira, 31 de março de 2021

Amizade e memória

E lá fomos ao médico, tudo organizado no saco, medicamentos e perguntas no papel que a memória, desde há um tempo, anda escassa e atrevida, a brincar ao toca e foge. Por via das dúvidas, tudo escrito e anotado, não vá o diabo tecê-las. No consultório, quis que entrasse, e ali fiquei, primeiro em silêncio, depois numa partilha amigável, sinalizando aspetos e relembrando outros. À pergunta "e como anda a memória?", rimo-nos, sabendo que é mais leve e fácil que seja assim, sem ignorar o facto e a circunstâncias

 

Depois viemos embora, sem antes verificarmos se nada ficara esquecido e compondo no saco todas as coisas, uma e outra vez. Num contínuo movimento, as mãos a compensarem o que a mente não retém. 

Pela rua, muitas paragens, conversas soltas de amigas de sempre, por entre preocupações e perguntas recorrentes. Alguns risos e um café ao postigo, bebido no banco do jardim, que o ar se quer leve e amplo. E o espaço e o tempo, esse escultor da nossa vida, que agora se confunde e se perde, tonto e inquieto. Para o contrariar revertemos-lhe o sentido e convocamos feitos e histórias: férias em conjunto, o trabalho voluntário no bairro, episódios burlescos, discussões acesas, noitadas de amigos, cartas e postais trocados. E os dias e as noites de estudo em conjunto no sótão. E os miúdos a crescerem, por entre graus académicos e amigos solidários. 

Depois de novo, os sacos, os escritos, as perguntas habituais, a vida toda como agora é. Esqueci-me de alguma coisa? não, está tudo.

E está. Tudo é a amizade que perdura e os laços que nos unem, sabendo que nos temos e que isso é uma arma para arredar o medo e a solidão. Um antídoto seguro e eficaz conta o esquecimento. Por agora. E para sempre, assim espero. Saibamos nós, cuidar e atualizar, com sensibilidade e afeto, este património comum. Rico, longo, construído e reconstruído pelos anos. É assim a amizade. E podia ser de outra forma? não, não podia.   


terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Uma pausa

Uma pausa. Preciso de uma pausa, abrandar o correr dos dias, apreciar o sol ao fim da tarde, sentir os cheiros da primavera que tarda, demorar-me, com tempo, no desenho de uma criança. E alcançar um pouco de serenidade, esse estado que talvez nos falte, por agora.

   Desenho da Maria Rita - 3 anos e meio
Preciso de uma pausa. De silêncio para ouvir o bater do coração, procurar-lhe os seus dialetos mais íntimos, restaurar o primado da delicadeza e da atenção. Combater a inflação e o desvario de tanta palestra e opinião. Preciso de olhar os lírios do campo e encontrar a insustentável leveza do ser.

Porque estamos pesados e sem rumo. E falamos sem pensar e pensamos sem falar. E inundamos as redes sociais com ideias e desabafos e senso comum. E discutimos e impomos e esgrimimos. E  corremos à procura de mais, da última ideia certa para este tempo que não sabemos qualificar. Mas qualificamos, às vezes levianamente. Queremos entender e nessa ânsia desmedida, lançamo-nos a tudo e apontamos em todas as direções. Estamos cansados e sem filtros.   

Preciso de uma pausa. Para esquecer a vida que nos cerca? não, para a olhar com mais rigor, humildade e pesquisa. Para esquecer os erros e disfarçar? Não, para compreender e atuar, com intencionalidade e cuidado ético. Para nos tornarmos mais úteis e mais competentes. Mais serenos, resilientes e guerreiros. Mas com as armas certas e pensamento robusto. 

Preciso de uma pausa, para reorganizar, em silêncio, razão e emoção, combate e resistência, amor e rebeldia, liberdade e direitos. E esperança. E futuro. 

Preciso de uma pausa para aprender a lidar melhor com o que sinto, ouço e vejo. Silêncio, por favor. 

sábado, 23 de janeiro de 2021

Dias aflitos

Precisamos de palavras e de coragem. E um café quente, para sossegar, porque estamos suspensos da vida, com frio e medo. Precisamos de calor, para nós e para o mundo, que se move em rota livre, indiferente às nossas preces. Porque rezamos, mesmo que sem terço e ladainhas. À falta de melhor, trauteamos uma canção ou lemos poesia, para amenizar a aflição dos dias. Porque estamos aflitos, entre o caos e a redenção. Não há luz ao fundo do túnel nós que ansiamos pela definitiva claridade dos dias.

Precisamos de silêncio e paz, porque o tempo é de contenção e recato. Em movimentos e poupança de palavras, que às vezes ficam tolas e frívolas, desnecessárias. Porque a realidade é fria e cruel e não sabemos o que fazer com os números e a dor dos que ficam e dos que partem. Sentimo-nos à deriva e inundamos tudo com o nosso lado insensato e ruidoso. 

Precisamos de ficar em casa e se necessário, voar para fora da tristeza, enfeitando a casa de mar, brisa e searas de trigo. Romper paredes sem as tocar, percorrer caminhos sem abrir a porta, determo-nos num abraço amigo. E consolar a aflição no peito aberto de quem nos ama. Porque estamos frágeis e impotentes. 

Precisamos de ficar em casa, mas sabemos que amanhã é dia de sair e ir votar. Não queremos nem podemos juntar mais aflição aos nossos dias, aumentando a nossa perplexidade e inquietação. Precisamos de    manter a nossa democracia e a defesa dos direitos humanos para todos os homens e mulheres da nossa terra. Portanto, munidos de proteção da cabeça aos pés, vençamos o medo e saiamos para exercer o nosso direito de escolher a liberdade, a decência, a hospitalidade, a proteção, o trabalho, a saúde. Para todos. 

E depois continuemos em casa, menos aflitos e mais crentes na nossa capacidade para decidir e contribuir para um bom futuro e uma vida melhor. E apesar de não afastarmos dos dias o peso da aflição, participemos de corpo inteiro na alvorada de um novo dia. Isto nos compete e a isto temos direito.

Tudo o resto vai passar. Com danos e perdas, mas vai passar. 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Saudar 2021

Não sei o que sinto no final deste ano. Não sei que palavras encontrar para desta vez, abrir a porta a 2021. Não vai ser igual e sendo diferente, não sabemos como será. Melhor? sim, é o que todos desejamos, ainda que almejando sonhos diferentes. Há quem peça pão sobre a mesa, uma sopa, casacos para o frio, lençóis quentes, uma lareira acesa, abraços dos que ama, trabalho seguro, proteção, saúde, alegria. 

Se todos precisamos disto? sim, mas há uns que necessitam mais do que outros. Porque não somos todos iguais em direitos e condições de vida. E o ano que agora termina, não tratou a todos por igual. E não é sempre assim? É, mas há situações que obrigam a escancarar as portas e a ver a realidade, tal e qual ela é. Foi assim que vimos e soubemos as condições de vida de muitos idosos, de muitas crianças e familias, de muitas mulheres e homens que lutam e sofrem e fazem pela vida, sem apelo nem agravo. Escancaradas as portas, e reconhecido em muitas situações, a falta de dignidade e de direitos, como vamos acolher e abrir a porta a 2021? 

  Desenho da Maria Rita (3 anos e meio)
É por isso que não sei de que palavras me rodear. Inquieta-me o mundo, inquieta-me a alegria, inquieta-me desejar votos, assim, ao Deus dará. Como se fosse inoportuno e sem pudor, levantar a taça do champanhe e clamar "viva 2021!"...viva o quê? 

Bem sei que podemos e devemos dar viva a quem, reunindo esforços, descobriu a vacina e transformou a angustia em esperança, para nos protegermos e cuidarmos da nossa saúde. Emociona-me essa capacidade de dar a volta ao destino e criar uma resposta para um    problema e disponibilizar essa solução ao máximo de pessoas possível. Será uma boa saudação para 2021. Saudar também quem na linha da frente cuida de quem mais precisa, todos os dias. 

Emociona-me a coragem de resistência de muitos homens e mulheres e a tenacidade para fazer das tripas coração, enfrentando os atentados aos seus direitos, todos os dias, lutando e protestando em som audível e incómodo. Os silêncios, sabemos bem, são cumplicies do desprezo e da negação. Podemos saudar um 2021 com mais visibilidade e denuncia social. 

Emocionam-me as crianças, aquelas que riem e pensam, desenham e pintam, e argumentam ideias e sensíveis aos outros, constroem comunidades de afeto e cuidado, com perícia de mestres. Mas também me emocionam as crianças que protestam, chora, gritam, porque a vida lhes dói e à falta de mediação e palavras para traduzir as emoções, fazem da interação com o outro uma continua luta, tantas vezes, difícil de ser entendida e transformada.  

E emocionam-me ainda mais os educadores que persistem e não desistem e sabem que essa é a mais valia de ser professor, em escolas amigas das crianças. Porque são eles que em conjunto com as crianças, promovem toda a humanidade que há em cada pessoa, mesmo as mais novas. É preciso também saudar isso para 2021. 

E saudar estarmos por aqui, com saúde, pensamento e emoção. Porque passámos por 2020 e "sortudos" não nos podemos queixar. Assim, mesmo com palavras atabalhoadas e sentimentos um pouco ambivalentes, reinventemos-nos para o próximo ano, abrindo a porta a 2021.

Bom ano.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Abrir a porta ao natal

O natal está mesmo a chegar e eu sem tempo para o acolher. Ainda não lhe abri a porta, nem o convidei a entrar, perdida que ando com urgências instaladas. Os dias sucedem-se, vai a noite e chega o dia, vai o dia e chega a noite, as horas curtas e inquietas, porque há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer, qualquer coisa que eu devia perceber, como diz a canção.

 desenho da Maria Rita

Nesta ocupação permanente, falta-me olhar para o azevinho, sentir-lhe o cheiro e o verde pinho, acomodar-me junto à candeia acesa, procurar pequenos caminhos, húmidos e com musgo e figuras do presépio da infância. Os pastores e os reis magos e as lavadeiras, todos perfilados para ver o menino. Saborear o calor das lembranças, que nos trazem o sorriso da mãe, as meias que a avó punha no sapatinho, o sabor do arroz doce e das filhós. E sobretudo o colo, as vozes e o riso por perto dos nossos. Os de casa.

E uma espécie de pudor e culpa assola-nos, pela engrenagem consentida em que a vida se transforma, quase independente de nós, que somos a sua razão e a sua medida. Mas foge-nos o controlo, a insubmissão aos desígnios de um outro olhar, mais sensível, atento, capaz de inscrever a beleza nos dias do calendário que nos guia. Quem diz beleza, diz ternura, encanto, intimidade, alento.  

O natal a chegar e eu com saudade de me recolher. Ficar por aqui, entre o sofá e a lareira, baloiçar-me num tempo lento, convocar afetos e lembranças, coisas pequenas, laços e fitas e alfazema, pérolas esquecidas no fundo das gavetas e no entanto, capazes de mostrar os pontos cardeais da nossa vida. Porque o natal também pode ser essa promessa, unir de novo o que está separado, propondo outro tempo e outros caminhos. Nunca vistos em coragem.

E neste natal, não podendo estar todos à mesa, que não falte o tempo para nos convocarmos por inteiro, rodeados por todos aqueles que no nosso coração e nos nossos dias, têm espaço e lugar cativo na nossa vida e no nosso coração.

Vamos lá abrir a porta ao natal. Cuidando de nós e dos outros. Mas com tempo e sem medo. 

domingo, 11 de outubro de 2020

Do outono para a sala. Que saudades...

Fui andar ao parque e de novo me encontrei com o outono, uma das estações de que mais gosto. As folhas no chão, as suas formas e cores tão belas, o tempo mais fresco, uma melancolia boa que convida ao pensamento e a conversas com os nossos botões. Dei por mim a apanhar folhas e bolotas, como no tempo em que ia para a escola, e com os meninos e as meninas ensaiávamos obras de arte, as nossas, com todo esse material natural. Depois sorri e pensei "uma vez educadora, educadora para sempre".  

Maria Rita, (3 anos e meio)
E senti muitas saudades. Das suas falas e abraços, das suas gargalhadas contentes, do seu calor e da sua criatividade. Da azáfama, do sim e do não, das zangas e da sua reparação, das trocas, dos diálogos, da água no chão, das tintas a escorrer do pincel, da cola na mesa, das árvores pintadas com café.  Saudades de maravilhar-me com a competência e a singularidade de cada um e a crescente aprendizagem de todos, como pessoas, no seio de um grupo que ampara, cuida e desafia a sermos hoje, mais do que éramos ontem. A sala a ficar cheia de nós, artesãos do nosso tempo e da nossa vida. Desenhos, pinturas, textos, mapas, tarefas, histórias, projetos. Nós, grandes e pequenos, a aprender a viver juntos, em cooperação e democracia. Assim, de repente? não, com o lento passar dos dias, com avanços e recuos, com o domínio progressivo do pensamento, da emoção e do "fazer" em comunidade.              

Nesta saudade, lembro-me de muitos meninos e meninas, cuja integração foi mais difícil e inquietante: Choro, protesto, resistência; bater, empurrar, amuar, como impulso e primeira forma de ser e estar. A vida a ilustrar as suas diferenças e injustiças, porque com 3, 4 e 5 anos, há já quem tenha o coração ferido e cheio de sombras e que o expresse, como pode e sabe, junto dos outros. E nós, que da infância apenas retemos candura e encantamento, a ficarmos de boca aberta, a estranhar, a desiludirmos e a culpar meio mundo, com receio de não sermos capazes. E não cumprir o plano de trabalho, aquele tão interessante e tão desafiador. 

Lembro-me do tempo, do espaço e da segurança que foi preciso dar a muitas das crianças que acolhi. Da mobilização do outro lado da pedagogia, o colo, e de outras estratégias procuradas em equipa.  Das leituras feitas para tentar compreender a sua aflição e mágoa, o seu pedido de ajuda.  Porque é isso que muitos comportamentos são, um grito de alerta para nos situarmos na "identidade e circunstância" de cada um, amparando as suas tentativas, às vezes "desastrosas", de se integrarem. Lembro-me das minhas dificuldades, de algum desespero, de achar que não chegaria a bom porto. Mas nunca se apagam as saudades, porque me lembro sempre do caminho feito, passo a passo, na (re)construção da relação, no progressivo apaziguamento, na aprendizagem bonita de cada menino e menina com histórias difíceis. E do afeto e maturidade de outros meninos e meninas do grupo e do seu envolvimento para incluir, compreender e apoiar quem expressava menos conforto. Lições de vida, que me ensinaram que o sucesso está em construir uma cultura de sala cuidadosa com todos os que nela vivem. 

E tenho saudades. Sobretudo da oportunidade de aprender sem desistir de ninguém, cuidando de entender as crianças nas suas múltiplas vidas, contrariando estereótipos da infância como um tempo sempre doce, ingénuo e feliz.  Há muitas crianças e muitas infâncias e como educadores temos o dever de as acolher a todas e a todas proporcionar o direito aos seus direitos.  

Fácil? não, mas tenho saudades. Muitas.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Tempos estranhos

                  

 

Os sábados já não são o que eram: comprar o jornal, beber o café na esplanada, tocar na mesa sem medo, sentir o vento bom sobre os cabelos. Se não o podemos fazer? Podemos, mas não é a mesma coisa. Tivemos de nos adaptar, mas estamos mais presos e condicionados. Nos movimentos, pelo menos. E na possibilidade de estender o corpo para além de um espaço seguro. Assético. 

Nesta espécie de suspensão de nós com os outros, a vida tornou-se rápida e veloz, marcada por urgências, para anular distâncias e do longe fazer perto. E se já saímos de casa é ainda em casa que permanecemos, acoitados na tecnologia, esse milagre dos tempos que nos suporta a ausência e repõe a comunicação. Mas nem sempre a relação e nunca a presença. Porque a presença tem cheiros, sons, mil metamorfoses de nós, riso, lágrimas, queixumes, suspiros e palavras. Saem fluentemente, em diálogos sobrepostos, mas vivos e legitimados pelo tempo em comum. E damo-nos ao luxo de jogar conversa fora, de perder tempo com os outros, esses que nos convencem que o mundo é mais confiável e desafiante quando vivido em boa companhia.

Por isso, neste tempo, não é fácil virar do avesso a realidade e descobrir bocados de beleza nos dias, neste outono de cores brandas e sol a desmaiar de mansinho. Apreciar os veios delicados das folhas, medir-lhes as formas e os tons, sentir o vento que assoma de leve, tingido pelo fresco do anoitecer. E o fresco das manhas, suave promessa para dias mornos, a pedir poesia.  

Descobrir a beleza de quem somos e do mundo à nossa volta exige espaço, tempo lento, partilha. Se os não podemos ter? Podemos, mas não é a mesma coisa. Precisamos de resiliência, vistas largas, leveza na alma, sensibilidade e bom senso. E amor, essa espécie de salvo conduto para as viagens ao centro de nós e dos outros. Para que nos possamos inventar para além de mensagens breves, de emails rápidos, de emojis fofos. Não sou contra, mas não chega. Precisamos de tempo e de relação, de beleza e de mundo. De gente, de palavras, de companheiros, de alegria.

Mantenhamos vivo o que nos torna humanos, nestes tempos estranhos.