quinta-feira, 22 de maio de 2014

Ao nascer é a mãe...e depois também...

Sei que neste dia,  há 57 anos, ainda não me esperavas. Pelas tuas contas seria lá para junho, mas escolhi o mês de maio para nascer, quem sabe se pelo cheiro das flores e a temperatura amena que experimentava através do teu corpo de jovem mulher. Tinhas apenas 25 anos e um filho já de cinco, quase a fazer seis. Sem grandes preparativos, um tanto quanto à queima roupa, dizem, no dia 22, fiz-me notar com mais assertividade e disse-te, sem margem para dúvidas, que queria vir ver o mundo e ficar por cá. Não era cedo nem tarde, era o momento. E assim foi.

Nasci de ti há 57 anos, no quarto da nossa casa que era a casa da avó Carmina, que me acolheu nos seus braços, depois de algum esforço de um parto natural. Sem as teconologias de hoje, fui uma surpresa boa, porque nasci menina, depois do menino que já tinhas em casa.Conta-se que andava pela eira, um pouco impaciente à minha espera, com o avô por perto a serenar-lhe a emoção de sentir  um bebé a entrar na sua vida. E entrei. 

Passaram já 57 anos desde esse dia. Surpreendo-me sempre com a passagem do tempo e a imensa lonjura que vamos construindo no desenrolar da vida. Sem quase dar por isso, passamos estações atrás de estações, anos trás de anos, dias e meses sem fim, e eis que olhando ao espelho, a juventude já foi e a velhice aproxima-se a passos largos. Ainda temos, queremos acreditar, muitas primaveras e outonos para comemorar, mas as noites para rezar o terço já não existem, e a costureira já não  faz os bibes com folhos nem as combinações com renda.  As panelinhas de alumínio com que brincávamos em meninas já estão há muito esquecidas e perdemos o jeito de fazer comidas com a terra molhada pela água do poço do aido. Já não me cortas o cabelo à escovinha, com marrafa, eu a protestar, tu convicta deste gesto de bem cuidar.

Foi-se a infância e a juventude e a condição de sermos meninas da nossa mãe. Estamos mulheres adultas, quase na terceira idade, com filhos feitos. 
Não é um drama, não fora o tempo que já parece curto para dar corpo aos sonhos que temos e nos perseguem a cada dia que passa. Não é um drama, não fora a tua ausência e a saudade de te ter por perto, para me sentir mais jovem e mais acompanhada.
Comemorar o dia em que nascemos é sempre recordar quem nos deu a vida. Por isso hoje, vou comprar umas flores e pôr uma jarra junto à tua fotografia. E relembrar que gostavas muito de me ajudar a preparar a noite para alguns amigos que vão chegar.
E isso, apesar da alegria dos que me visitam, é uma pequena tristeza dentro do coração.

2 comentários:

  1. Os anos passam mas comemora-se a Vida, que é o mais importante. Parabéns Manuela, um beijinho e que conte muitos mais!

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  2. Tão bonito :D.... Que inveja (da boa) pela forma fácil como transformas a complexidade da vida em momentos únicos... Parabéns e aguardo pelos passeios no paredão :D

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