quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Com bata?


 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

Estavam todos sentados à espera que a festa começasse,  e eu aproximei-me, contente de os ver, com as fitas na cabeça, direitinhos e curiosos, entre a música de natal, o barulho das vozes e a azáfama dos adultos.  Alguns abraços vieram rápidos, outros ficaram recolhidos, que a compreensão da minha ausência ainda não era nem clara nem certa.

Aproximei-me dela, e fiquei sentada ao seu lado, perguntando se estava tudo bem. Respondeu que sim e remeteu-se ao silêncio, num comportamento pouco habitual. Depois começou a brincar com a amiga do lado rindo.                                                           

- A tua mãe vem amanha ao lanche?, perguntei-lhe

- Vem!? disse ela, pensando que eu estava a fazer uma afirmação.

- Não estou a dizer que vem, estou a perguntar se tu sabes se a tua mãe vem. Eu venho.

Olhou para mim muito séria e disse repentinamente

 - Com bata?

Sorri, dei-lhe um abraço e disse: 

- Não, sem bata, eu agora já não vou vestir bata, na sala, porque já não vou trabalhar mais com os meninos e as meninas. Já tínhamos conversado sobre isso, lembras-te?  Mas venho visitar-vos, de vez em quando vez em quanto.

E fiquei a pensar na pergunta e na bata, surpreendida pela forma como foi dita, com rapidez,  como se já fosse pensada há algum tempo. Pensei na bata e no seu valor e função, para nós e para as crianças. Nas histórias que as batas contam e fazem no quotidiano da sala, naquilo que podem transmitir, propor, construir. Uma bata? sim, uma bata, não pelo seu corte, estética, cor, mas porque assumem o cobrem o corpo de uma pessoa que se torna referência, que ao vesti-la, pela manhã, está pronta para ir brincar, planear, ouvir, desafiar, dar colo...também zangar-se, às vezes...mas sobretudo, fazer acontecer o dia com as crianças e a equipa. A bata como requisito de permanecer, de ficar, de continuar.

Se se pode ser educadora sem bata? julgo que sim. No caso que agora conto, não. Porque vestir a bata, pela manhã era uma rotina boa para mim, uma alegria e um conforto. Um ritual, a anteceder a chegada das crianças e o início do dia. Um início bom, a promessa de estarmos juntos e sermos um grupo e uma comunidade a aprender.

Pelos vistos e ainda que não exatamente nestes termos, para a F. também. "Tu vens, mas é com bata? 

                                                                                                                                      foto j.i Trafaria

domingo, 5 de dezembro de 2021

Convite de natal

O domingo teve sol e céu azul, apesar do frio. Ainda bem, porque pudeste ir ao jardim, dar uma voltinha, e respirar com mais espaço, largueza e alcance... sei que apreciaste as laranjeiras, olhaste os paus e as pedras do chão e sorriste, com melancolia, para o sol. Julgo que foi assim a tua tarde, por entre livros e relíquias, que é o que tens dentro de ti.

Vai ser natal, sabes, e por aqui dezembro já se impôs, convicto e vaidoso, indiferente ao que o ano foi e o futuro será. Aparece sempre sem ser chamado, certo da legitimidade para atingir os seus propósitos, quer queiramos quer não. Claro que é doce e sedutor, tem cores, musica, enfeites, símbolos, laços, cheiros que nos envolvem e às vezes, consomem. E nós lá vamos, porque nos inebria e encanta a sua promessa de amor incondicional ao mundo e às nossas pessoas.  

E as nossas pessoas, respondem à chamada, e ficam connosco ao pé da lareira, a provar o arroz doce e as rabanadas, com os rostos afogueados e a alegria nos olhos. E nós agradecemos esta possibilidade, de continuarmos juntos, disfarçando pequenas lágrimas de saudades dos que já partiram. Para esses, reservamos também um lugar à mesa, invisível, mas reconhecido por todos, mesmo que não o nomeiem. E depois, acendemos velas, para ter pontos de luz a assinalar um caminho, que confirma que somos, também, o que outros fizeram de nós.
 
E tu, com outros amigos, fizeste de mim outra pessoa. Porque é assim que se desenrola a história da nossa vida, que sendo única e intransmissível, ganha expressão, raízes e sentido partilhado pelo impacto desafiante e poderoso de quem gosta de nós. E quem se gosta, deve estar presente.  
 
Não é? É, claro, tu sabes. Por isso, prepara a tua melhor farpela, compõe o cabelo e a postura, veste de luz o teu coração e instala-te em dezembro, para comemorar o natal. Estamos à tua espera, não te esqueças.  

sábado, 23 de outubro de 2021

Ponto de luz

Gostavas de praias desertas e de mergulhar no mar, deixando o sal e a areia colar-se ao corpo, compondo formas, como filigrana esculpida. Dizias sempre que não irias tomar banho, porque, eu gosto disto e gosto assim, levo o mar comigo não vês? E eu, que me queria logo enxuta e limpa, discordava e teimava... ora levares o mar contigo...mas levavas. Como sinal de liberdade e antídoto para os dias tristes do inverno. 

Porque gostavas do sol, das ruas com gente, da esplanada e do café, dos livros e da companhia dos amigos. Porque esgrimias ideias como quem joga a última carta do baralho, porque a toda a hora era hora de perguntar, pensar, responder, discordar. Porque não obedecias por condição imposta, escolhendo a luta ao descanso morno do sofá. 

Empenhaste-te até aos ossos em muitas causas, projetos e iniciativas, fazendo a tua parte, para se mudar de rumo. Social e politicamente. Sempre desafiadora da ordem e moral vigente. Lembras-te? muda de rumo, muda de rumo já lá vem outro carreiro...

Já não te lembras, eu sei. Só não sei o que fazer com o que sinto, quando te vejo assim ausente e perdida. Tu que eras tão determinada e decidida. E autónoma e independente. E amiga. Profundamente amiga.

Porque perdias tempo, sem tirar dividendos, porque acolhias como ninguém, um bom almoço ou a maça e o copo com água na mesa de cabeceira, porque podem ter sede de noite, quando a tua casa foi porto de abrigo de outros. Ou quando cuidaste dos meus filhos e lhes fizeste o jantar, cá em casa, com a generosidade que sempre tiveste. Sem fazer alarido.

Agora, já não podes ler este meu texto e discutir comigo as ideias principais, como sempre fazíamos entre concordâncias e desacertos. Partiste para outro lugar e ainda que te veja, já não estás cá. Não sei como preencher esta ausência e sobretudo, não sei como zelar pela continuidade da tua inteireza como pessoa e da dignidade que a tua vida agora exige. 

Não sei o que fazer e tenho saudades tuas. E medo do que virá depois. Não podes ficar só mais um bocadinho? E dar-nos um ponto de luz, para iluminar o caminho?


Se tanto me dói que as coisas passem

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem

                     (Sophia Breyner)