sábado, 26 de outubro de 2013

Escrita e liberdade

Fim de tarde sereno, depois de dois dias de intensa chuva. É bom. Apesar do silêncio, oiço o ladrar de um cão, ao longe, e espreito a cor laranja do pôr do sol. No meu sótão, tudo parece adormecido ainda que na mesa e no chão permaneçam vestígios de coisas para as crianças. É sempre assim, o trabalho nunca acaba nem a procura de estratégias para dinamizar a vida do grupo e a aprendizagem dos meninos e meninas lá da escola. 

Mas hoje é sábado. Dia de escrever, de pegar nas palavras e salpicar o teclado, a par e passo com os ditos do coração. Porque a escrita é isto, um apanhado de ideias que não obedecem a um menu encomendado. Sentados no nosso canto e cheios de nós, vamos escrevendo as palavras que se libertam e compõem linhas, umas a seguir às outras. No fim,  ficam os textos, expressão de liberdade.

Isto é a escrita. Pelo menos a minha, esta que escrevo aqui e noutros locais, a que ninguém tem acesso, quando os conteúdos se apresentam mais íntimos, lacrimejados ou inconfessáveis. Pequenos segredos, de mim para mim. Uma forma de manutenção e resguardo da identidade e dos sonhos.

O sábado, para a escrita, é um dia de liberdade necessária. Imperiosa. Que anda de braço dado com a disponibilidade, a real e a que está no interior de nós. Para escrever é preciso tempo e desejo. Um bocado do coração aberto e livre, a vontade de dizer, a escuta daquilo que nos percorre o corpo, a cabeça e a alma. Ouvirmo-nos, sem medo dos sons que surjam. Pensarmo-nos, sem receio do que encontrar.  Não ter medo da vida, não ter medo da derrota, não ter medo de sermos quem somos. Peito aberto à feição do tempo e dos adágios, diria a minha avó.

E a minha avó, que não escrevia lá muito, sabia contar histórias como ninguém. Era a sua escrita, que desfiava no tempo do verão, comigo por perto, enquanto fazia pequenas tarefas. Escolher os feijões e as batatas, regar a horta, apanhar as espigas, olhar para o céu.

Coisas poucas, que arreliavam os filhos, inconformados com esta teimosia da sua permanente ocupação. Mãe, para quê? já não tem idade...e a minha avó ofendida, encolhia os ombros e calava-se. Voltava às pequenas tarefas, sentia-se livre assim, a cirandar por entre a vida de sempre e a contar histórias. Pegava nas palavras e desdobrava-as em mil sentidos, rindo, ou fechando o rosto quando o capitulo era mais denso. Ou triste. E eu, fiel ouvinte, aninhava-me na palha seca do milho e seguia deslumbrada todos os enredos. A do lobisomem, a do namoro com o meu avô, a do gato preto, a das mulheres tristes, a do Manuel, a do Joãozinho e da irmã. E outras. Recordo com clareza a voz, os gestos, a graça e a cumplicidade da minha avó a contar histórias, como se as escrevesse.

Creio que foi daí que comecei a inventar histórias, a escrever e a amar a liberdade. Como primeiro requisito para se ser gente de corpo inteiro.
Quando escrevo, ao sábado, isso parece ainda mais verdadeiro. E premente.

2 comentários:

  1. Mais uma postagem que me tocou...
    Veja aqui: http://blogue-folio.blogspot.pt/2013/10/andar-aos-dias-ou-planificar-o-emergente.html
    Boa semana!

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  2. já vi e li e gostei muito. Também ando assim, só que num contexto onde estou pela primeira vez e passado os primeiros dias tive que virar quase tudo do avesso...está a ser difícil, com tantos meninos e meninas a pedir colo e presos às suas dores. Tento todo os dias. Nem sempre com sucesso e eficácia. Obrigada pelo seu comentário e pelo magnifico texto.
    Boa semana, Juca!

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