sábado, 4 de outubro de 2014

Vale a pena...apesar do cansaço

Sábado cheio. De manha zanguei-me com o compromisso firmado há já algum tempo e com esta facilidade com que aceito os desafios, pensando que tudo se faz. E não nem tudo se faz, porque somos finitos, como dizia o meu filho quando era pequeno, querendo dizer que estava terminado, fechado. Ou faz-se mas com custos e esforço, coisa que já não vai de bem com a nossa idade. Há quem diga que não, que estamos ainda jovens, mas sabemos todos que essa coisa da juventude há muito que passou. Estamos seniores. O que não é propriamente a mesma coisa. 
Assim ía eu a ruminar cansaços enquanto me dirigia a Setúbal onde me esperava um grupo de 26 auxiliares para um dia de formação. Lá nos acomodámos na sala, lá montámos o estaminé, lá nos preparámos para ouvir e falar. Ao princípio a medir-nos mutuamente, que esta coisa da formação e da interação não é pera doce, nem jogo ganho à partida. É comunicação, investimento e adesão, trilogia incompleta, mas ainda assim forte, para um suposto dia de descanso. E refletir é tudo menos descansar. É mobilizar para o meio da mesa, para partilha, as nossas práticas, as nossas representações, as nossas experiências. Expormo-nos, coisa que leva tempo e exige confiança, 

http://4.bp.blogspot.com/-eILJjNyZKaE/TnviIpaGHPI/AAAAAAAABEc/fK1jCFRsOqg/s400/ciranda.jpgE foi isto que fizemos, passado a primeira meia hora de audição atenta e um jogo de apresentação. Dissemos o que gostávamos mais e menos na profissão, resistindo à ideia preconcebida de que gostamos de tudo. E de todas as crianças da mesma forma. Não é verdade, sabemos todos disso e se nos consciencializarmos do que apreciamos menos, podemos, com mais verdade, apetrecharmo-nos dos instrumentos necessários para reduzir o lado menos positivo da nossa intervenção. Libertamos culpas e falamos de possiveis e de gente de carne e osso.

Depois...depois foi bom convocar a minha experiência, a de quem estava presente, e também de outros que pensam e estudam o estado da arte. Com parcimónia, que a maior fatia de autores deve ser a de quem se forma, para tomar a palavra e falar. Dando voz e vez à sua experiência, em confronto com a dos outros. E conversámos sobre funções e competências dos auxiliares, problemas e dificuldades com as crianças, as equipas e as famílias, da brincadeira como a atividade mais séria da infância, de conflitos e resolução dos mesmos e do outono e do pouco tempo para se ouvir as crianças. E muito mais e muito menos. E gargalhadas, que também é preciso.

De regresso a casa, já não ruminei zangas. Apenas sentia o cansaço profundo dos diálogos, da gestão do tempo e das falas, da mobilização dos exemplos, da tentativa de explicitação do que me devolviam.  De regresso a casa, revia o espanto dos rostos, quando por qualquer motivo, abria a porta da pedagogia e escancarava os problemas. As práticas e as suas rasteirinhas, chamando as coisas pelos nomes, sem medo, envolvendo-me como educadora, expondo-me com tudo o que tinha e sei. E sou.

De regresso a casa pensei que ser sénior ainda não me retirou a energia para me entusiasmar, pensar e projetar. Nem o prazer de fazer isso com outros, descobrindo o que em cada um é sol e sonho e rebeldia. É por isso que aceito estes desafios, ainda que comece a manha a ruminar zangas comigo própria e termine a tarde cheia de um cansaço profundo, mas gostoso. 
Espero que tenha sido assim também para os que comigo estiveram. O único senão é amanha ser domingo e o fim-de-semana ficar bem mais curto. Não é coisa pouca, nomeadamente para uma sénior.

1 comentário:

  1. Gostava de ter lá estado... e conhecido pessoalmente quem, semana a semana, vai colocando em palavras aquilo que sinto, vivo, vejo e sei.
    Obrigada Manuela

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