terça-feira, 28 de outubro de 2014

Carta ao meu filho

Faz hoje 23 anos que nasceste. 
Estou sem sono e recordo a noite e a madrugada em que, com o mano ao lado, aguardava o nascer do dia para ir para o hospital. Já estavas atrasado e a tensão alta obrigava a que não facilitássemos. Depois tu, menino doce e tranquilo, amigo da mãe, facilitaste tudo e o parto foi bom. E poético, já escrevi sobre isso. E continuo a escrever-te, como tenho feito nos últimos anos, uma prenda que não custa dinheiro e perdura para sempre. É bom que algumas prendas possam ser duradouras como o amor que sentimos.  Nos tempos que correm, eu sei que sabes que esse é um bem a não perder e a preservar. Tranquiliza-me sentir que valorizas este património de afetos e dedicação que fomos construindo uns com os outros, em família e com os amigos. Foi sempre assim e desde muito cedo.  

Relembro as nossas vindas da escola e as conversas sobre o mundo. Pois, era sobre a escola, os amigos, os professores, mas logo se espraiava para outros lugares e pessoas, para outros mundos, tu a fazeres perguntas, a pensares alto, a confirmar e a confrontar. Relembro o teu rosto. Bonito e pensativo, às vezes zangado, que nunca disfarçaste fúrias ou ideias próprias, marcando a tua posição, autonomia e liberdade. Muito cedo as senti, creio que em alguns dias me assustei, tão pequeno e tão grande, eu ainda a dar-te a mão e tu já a fugires para o outro lado da rua. Tão perto e tão longe, sempre assim andei de volta de ti, tu a dizeres para eu não ter medo porque se te tinha ensinado assim, assim estava certo e nada havia de acontecer de errado. Em alguns dias o meu coração de mãe inquieta perguntava-se se tinha dado o melhor rumo aos teus dias, nos dias em que assim o pude fazer.
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Foste sempre palavroso, pegavas nas palavras e compunhas teses e ideias, vigorosamente, a marcar o teu sentido e a tua visão. Descobri aos poucos que sonhavas o mundo muito para além do que te tinha mostrado, marcando a tua individualidade e a tua autonomia. És hoje absolutamente defensor da liberdade, da verdade, da coerência, da honestidade. Igual a ti próprio, sem dó nem piedade. E eu sorrio de alegria e de respeito por seres quem és. Mas sabes, às vezes ainda me espanto e fico em silêncio, estarrecida, com se diz lá na terra. 

Sabes filho, ser mãe é tão bom, mas muito complexo. Demora-se muito tempo a deixar de sentir os filhos  no colo. Custa largar os cheiros, o calor da pele e a necessidade de abraços. Creio que custa a separação, o cortar do cordão umbilical, que há 23 anos foi rápido, mas depois demora anos para ficar completo, sarado, diria.
É também neste dia que me lembro sempre da avó. Pela alegria que sentia contigo. Por a teres feito uma pessoa mais feliz, ela que dizia que o teu riso era tão alto e descarado que é um disparate.  Não sei a quem o rapaz sai!... Nem eu mãe, mas acho que sai a ele, respondia eu, a encolher os ombros, ainda que dando-lhe um bocado de razão.

Passados que são 23 anos de vires ao mundo, desejo que continues forte, audacioso e lutador, como no primeiro dia da tua vida. O choro de então foi um hino de amor. Que o seja sempre assim pela tua vida fora.

Parabéns, filho.

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