domingo, 12 de outubro de 2014

Tomar a palavra e um lugar

A M. entrou na sala, despediu-se da mãe e deixou-se ficar de pé, em silêncio, a olhar à sua volta. Já tínhamos começado a sentarmo-nos ao redor da mesa grande, com os mais novos ainda de pé, a falar ou dar abraços, alguns de chupeta na boca, os mais velhos impacientes por falarem, outros a aguardar para mostrar objetos trazidos de casa. Como sempre, havia um burburinho no ar, conversas paralelas, bibes por vestir. Chamei-a várias vezes para a mesa e ela continuou de pé, em silêncio. Quando enfim serenámos e me sentei à mesa para ouvir o que tinham para dizer, virei-me para ela e perguntei-lhe se não se queria sentar, tendo ela dito que não podia, porque me falta o mimo. Sem entender a que se referia perguntei-lhe o que era o mimo, se era um boneco, se se tinha esquecido dele em casa, se...
Ficou a olhar para mim muita séria e depois respondeu, pausadamente
- Então, é aquilo que me faz falta e que tenho que ter...que me deixa bem e feliz...é o mimo...
Surpreendida, entendi do que falava e perguntei-lhe
- E achas que isso se resolve com um bocadinho do meu colo,  aí em dois minutos?
- Sim, Manela, dois ou três...
Sentou-se na minha perna, abracei-a com um dos braços e com o outro iniciei a escrita de uma novidade de um menino. Quando terminei, perguntei-lhe se já estava bem e feliz, ela respondeu que sim e bem-disposta, foi sentar-se. E assim ficou até ao fim da reunião.

Da parte da tarde, na leitura da coluna do não gostámos (que nesta semana ficou completamente cheia de escritos dos meninos e meninas, confirmando que o grupo está saudável e cresce a olhos vistos, ainda que nem sempre da forma mais pacifica...) o S. disse eu  escrevi não gostei que o C. me tivesse batido. Depois de explicar o que aconteceu, foi dada a palavra ao C., que confirmou que tinha batido, porque me chamaram mama go(r)da e eu fiquei zangado. Sem entender a expressão, pedi que clarificasse o que era isso e ele apontou para o seu corpo, encolhendo os ombros. De imediato percebi a alusão ao seu aspeto mais gordinho e como isso o tinha incomodado. As duas crianças falaram e depois outras também, tendo eu ainda tomado a palavra para falar um pouco sobre as diferenças das pessoas e o respeito a ter por cada uma delas. Tenho a certeza que fui relativamente assertiva, talvez um pouco até intrusiva, mas não consegui deixar de o fazer, atendendo ao sentimento de tristeza e incómodo que vi na cara e no corpo do C.  No fim de toda a discussão e troca de ideias, o C., o menino que tinha batido, pediu a palavra e disse que ainda queria dizer mais uma coisa. E falou

http://4.bp.blogspot.com/-_A61Zjd-j8U/U-jo7M_mMJI/AAAAAAAACLU/QuiPuz1076s/s1600/roda.png- Eu quero brincar com eles e eles afastam-se. Eu chamo por eles, eu tento entrar na brincadeira e eles não deixam. E eu ainda preciso de os conhecer. E preciso de ter tempo para os conhecer. Se não, não consigo ser amigo deles e eu quero.

Pouco depois terminámos a nossa reunião, todos muito cansados, que as discussões tinham sido abundantes, prolongadas e um tanto ou quanto agitadas. Em mim, um sentimento de estar cheia e profundamente surpreendida pela capacidade de exposição do C. e da sua consciência quanto à necessidade de ter tempo para fazer amizade(s). E da sua impaciência pelas tentativas de aproximação e a recusa dos outros, que estando pelo segundo ano na escola, já se entendem, conhecem-se e interagem.
O que o C. reclamou foi por uma oportunidade para mostrar-se e interagir. O que o C. já sabe é que sem tempo e lugar não pode integrar-se e estabelecer laços de afeto com outros.

E foi assim nesta sexta-feira, um dia grande com bom início e bom final. Em conselho, duas crianças que sabem expressar as suas necessidades e reivindicar os seus direitos. A ter colo e mimo no caso da M., a ser incluído e a fazer novas amizades, no caso do Cris. E a afirmar que se não lhe dão tempo e oportunidade, o conhecimento não vai acontecer e a amizade também não. E esse é um desejo que sente e uma necessidade que tem.

Quando estou cansada e quase desistente de promover estes espaços e formas de discussão e construção da democracia - pela imensidão de meninos e meninas, as dificuldades de atenção e envolvimento, a morosidade das aprendizagens, a estranheza de outros perante as nossas práticas - estas situações confirmam a importância de as manter, persistindo no caminho que sendo menos fácil, é todavia o mais frutuoso e poderoso no que respeita à relação das crianças consigo próprias, com os outros e com o mundo que as rodeia. Para apoio à construção da identidade de cada um, de espaços de cidadania, tolerância e inclusão. Desde o inicio, com ou sem chupeta.

2 comentários:

  1. Ah, pois precisamos e de que maneira. Alguns conseguem expressá-lo, outros nem tanto. Falo de crianças e adultos, claro. Um abraço grande e saudades

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