quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Redação: eu e o meu irmão

O meu irmão é mais velho do que eu e faz hoje anos. O meu irmão sempre foi mais velho do que eu e isso dava-me muita alegria e às vezes algumas zangas, porque ele podia fazer coisas que eu não podia. Ainda por cima era rapaz, o que complicava um pouco mais esta questão de ele sim e eu não. O meu irmão ensinava-me muitas coisas e se não as dizia, eu que era curisosa e atenta, descobria. Por isso o meu irmão ensinava-me a ver mais longe, a querer as estrelas, os rios e as paisagens mais distantes, quando eu ainda e apenas podia andar na rua e no quintal. Ele vinha ter comigo, com olhos de sonhar mundos e eu ficava a saber que se podiam ter sonhos e que os homens e as mulheres eram fortes e corajosos também por isso.  

O meu irmão não falava muito, mas tinha uns olhos serenos e amigos que me ajudavam a adormecer nas noites de inverno, ainda que ele não acordasse com trovoadas fortes ou um tremor de terra mesmo a sério. Mesmo assim, o meu irmão dava-me calma ao coração e ajudava-me a acreditar no poder do amor, esse laço invisível que se constrói dentro da barriga da mesma  mãe e se fortalece cá fora, na mesma casa, na mesma familia e com os mesmos avós. O meu irmão fazia comigo o presépio no natal e procurava com cuidado os patinhos de barro para pôr no espelho que era um lago. Quando acabava de me ajudar, era logo natal, mesmo que eu não visse o menino jesus nem tivesse muitas predas no sapatinho. 

http://www.xiaoqingxinba.com/wp-content/uploads/2014/09/12822089774298.jpgO meu irmão, como era mais velho, tinha livros de gente crescida, proibidos, que eu lia às escondidas e foi assim que muito cedo amei a liberdade, a democracia, conheci os erros mais feios dos homens e as as suas maiores dádivas. O meu irmão lia-me textos em francês e ensinava-me algumas palavras dessa lingua, na salinha da nossa casa. Foi nesse espaço pequeno que comecei a querer rasgar as cortinas das janelas para correr o mundo, viver em Paris e se possivel, escrever livros.

Hoje o meu irmão ensina-me menos coisas, porque já somos os dois crescidos e agora já não interessa tanto a diferença de idades. Eu já posso fazer quase todas as coisas e ser mulher ou homem já não tem assim tanta importância. Mas o meu irmão continua a serenar-me o coração, porque o meu irmão é um homem de afetos grandes e coração de menino, apesar de ser já não ser pequeno. Tem muitas coisas que tenho pena que já não façamos os dois, mas ganhámos uma relação de igualdade e fraternidade que tem o tempo e o sabor da idade que temos. 
É por isso é que o meu irmão é muito importante para mim e que eu gosto muito dele. E ele gosta muito de mim. Não dizemos isto muitas vezes, mas é uma grande verdade. No dia em que faz anos, decidi dar-lhe esta redação. Hoje não estou capaz de escrever uma prosa poética.
Parabéns, mano.  
           

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