terça-feira, 21 de maio de 2013

De novo, a casa e os objetos

Voltámos lá, para fazer a ultima arrumação.
Vazia, a casa lá estava estática e muda, sentiam-se alguns ecos e vislumbravam-se imagens desfocadas, na sala de trabalho e nos quartos, assim me parecia. Pelo chão e na mesa, sacos, muitos sacos e dentro deles papéis, livros e dossiers. Tudo organizado e etiquetado, porque a amiga que viveu na casa, gosta de cada coisa no seu lugar e cada lugar com a sua coisa. À minha pergunta "e isto"?, com cara de quem devia rasgar ou deitar fora, ouvia mil explicações da sua utilidade para o futuro. Ou do seu significado face ao passado. Eu, em silencio obedecia, certa da sua absoluta lealdade para com os objetos que a tinham acompanhado. Por isso os queria ainda consigo. Para prolongar memórias, aconchegar sentimentos, inquirir futuros, aninhar-se em colos e réstias de saudade.


E de novo me espantei - ainda que talvez não devesse - com a sua admirável relação com o mundo, feita de gestos sossegados de bem querer e afagos eternos. É assim que é. Espraia-se pelas coisas, torna-as suas e cultiva-as, numa relação fiel com o(s) seu(s) sentido(s) e as suas histórias. Para todos tem enredos, pequenos apontamentos dispersos e no entanto profundamente colados à razão e emoção que a impele a amar. Porque é este o verbo que apoia e sustenta os objetos que guarda no templo da sua vida larga e grande. Como expressão de ter sido e ainda poder vir a ser, enquanto é. E assim entrelaça, num fazer continuo, pessoas, palavras, paisagens, tempo, passado, presente e futuro. E disso retira a filosofia com que alimenta o sonho, produz ideias, inicia e encerra capitulos do livro do seu viver. Que é grande, às vezes dificil de manusear e compreender, porque escrito em mil idiomas e grafias permanentemente inventadas.

Voltámos lá, para fazer as ultimas arrumações. Mas com tanta história e tanto desejo de a perservar, ainda muito lá ficou. Ou melhor, trouxemo-las para outro lugar. Para continuar a fazer contos e escritos da vida. Enquanto vida houver.

1 comentário:

  1. Muitooooo bonito Nela! Retrato fidedigno feito as tuas palavras.

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