sábado, 27 de julho de 2013

Os fios da meada

Está um vento frio, agreste, assobia e fustiga as folhas das árvores, levanta os papéis do chão e a poeira. E no entanto é verão. É o tempo das eiras na minha terra, ceifar o milho e desfolhar as espigas, um calor bom a entrar no corpo, vozes altas na rua, uma espécie de ladainha a acompanhar o anoitecer dos dias, depois das obrigações do trabalho.

E no domingo tudo pára, vai-se em romaria à missa, é certo que poucos já vão a pé, agora os automóveis fazem a peregrinação. Apesar disso a tradição ainda é o que era e isso parece o xaile da infância, a embrulhar-nos dos medos e das birras. Da vida.

E a vida é uma epopeia com fim, mas longa nas suas aventuras, guerras e vitórias. Guerreiros somos todos, empunhamos punhais de coragem e construímos armadilhas invisíveis, numa conduta persistente para vencer o imprevisto.
E também o previsto, o que sabemos que vai acontecer, somos homens e mulheres prevenidos, ainda que às vezes nos surpreendamos com o vento frio das manhãs de sol e a solidão estarrecida dos que nos cercam.

Nesses dias não sabemos explicar as palavras que nos invadem nem a saudade premente da mãe e da avó por perto. Ficamos deslaçados a tentar dar conta dos laços e dos nós partidos, não alinhamos com perícia o começo da meada, porque o perdemos momentaneamente no embaralhado dos fios. Aqueles que nos ligam aos outros, os que à nossa volta estão e que nos amam e nos querem. 

Tarefa árdua esta, compor a arte do(s) novelo(s), remendar fios partidos, atar pontas e nós, retomar uma cadência segura, para os sobrepor, camada sobre camada, na mesma direção. Exige paciência, consciência de movimentos, sentido de orientação, focalização na tarefa. Sem recuo.  

Mesmo nos dias em que o vento provoca remoinhos no chão e nos pensamentos. Como hoje. 




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