Enquanto não choveu andei a dar uma volta pelo jardim, a apanhar ervas e a limpar folhas, que outras coisas, nesta arte, não sei fazer. Reparei nas minhas mãos e lembrei-me das tuas, no mesmo gesto. Iguais. E tu vieste de novo para perto de mim, antecipando a Páscoa e a saudade. E fizeste bem, tinhas que vir, amanha, domingo de Páscoa, comemorarias os teus 84 anos. Seria uma festa redobrada, porque no dia em que nasceste era domingo de Páscoa.
Se não fossem as mãos seria a saudade. E a vontade que tenho de poder falar-te de coisas inconfessáveis, sentimentos vagos que me alastram na pele e no coração, sacudo-os quando me invadem, digo-lhes para irem dar uma volta, que o mundo é grande, o futuro é distante e os meus sonhos são poderosos como na juventude. Quer dizer, espera, estão menos urgentes e mais razoáveis, sim, mas continuam a ser sonhos. Creio que também os tinhas, os teus, e quando te via rir espantava-me com a meninice do olhar, uma doçura alegre, leve e folgada, a contrastar com as (poucas) rugas do rosto. Era o antídoto contra a passagem do tempo, uma forma de resistir e contrariar o destino e a aproximação do futuro. Hoje sei que não lhe atribui o sentido que lhe davas, essa vontade desmedida de continuares a viver e a amar, porque era isso que gostavas de fazer. E sabes porquê? porque de alguma forma, quando somos mais novos, menosprezamos o valor e o sentido do que sentem os mais velhos. Como se apenas aos mais novos pertencesse a ousadia e a necessidade de reinventar o mundo e a vida. Foi assim contigo, é agora assim comigo.

É isso que me faz falta e foi por isso que me lembrei de ti ao olhar para as minhas mãos. Tenho saudades das tuas, a mexer nas coisas em jeito de afago e a cirandar pela casa, discreta e quase invisível, mas sempre presente. Isso faz-me falta hoje e agora para viver a Páscoa com mais alegria e para entender, com mais sabedoria, como sou agora.