sábado, 13 de maio de 2017

Bonita idade e bonito rapaz...

Fazes hoje 65 anos. Bonita idade e bonito rapaz...diriam os do teu tempo, aqueles que contigo palmilharam caminho e elucidaram os dias, tentando em conjunto encontrar um sentido para a vida. Os amigos do peito, pertença de uma geração, forte nas ideias, plena de convicções. 

Bonita idade e bonito rapaz. Também digo, mas digo mais. 

Digo que rapaz já não és, mas ainda manténs, com redobrada acutilância, os combates da juventude, por uma terra mais justa, um futuro mais promissor, onde os homens e as mulheres possam ser iguais por direito e condição. Continuas firme na denuncia do que não podemos aceitar. E a tua voz ainda se levanta, com indignação, contra ventos e marés da ignorância e do preconceito.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/e0/Gustav_Klimt_017.jpg/497px-Gustav_Klimt_017.jpgDigo que rapaz já não és, mas ainda dás gargalhadas altas, a soltar a alegria, quando falas com os filhos e lhes admiras a forma e o ser, sereno de termos feito o melhor que sabíamos e podíamos nesta aventura extraordinária e inquietante de fazer viver e crescer pessoas. Confirmas, com renovada juventude, que o desafio valeu a pena e que eles te reconhecem e admiram, mesmo quando discutem futebol e esgrimam argumentos de quem não é do mesmo clube.

Rapaz já não és, mas continuas vaidoso, a namorar as roupas que gostarias de ter, perfumes e objetos bonitos, coisas que arrumas na tua secretária de professor aplicado e organizado. O trabalho a moldar-te os dias, essa preocupação desmedida de fazer sempre o melhor, e que não raras vezes brigou com o tempo para a nossa vida de família. Também a enriqueceu e dignificou, eu sei.

Rapaz já não és, mas ainda choras quando vês filmes, emocionado com histórias de bem querer e muito amar. Ainda procuras musicas e livros, ainda me abraças e me fazes sentir em casa. Uma casa grande, com chão e horizonte, com colo e janelas para espreitar o mundo e a liberdade das gaivotas, essas que nomeaste quando nos conhecemos e eu queria voar mundo fora. Rapaz já não és, mas ainda discutimos por causa do jardim e das árvores que não sabes cortar, porque és como o teu pai, tudo é para guardar e cuidar. E discutimos e rimo-nos e dançamos, esquecidos do tempo que já passou e que por isso, nos ajudou a construir a nossa vida e a ter esta história.

Que não é de agora, mas de vem de longe, muito longe. Feita de amor, partilha, dedicação, luta e persistência. Feita de acertos e desacertos, com filhos, mães, pais, amigos...lá dentro. Uma história cheia de nós e de outros. E é como diz a canção " o que nós andámos para aqui chegar!" 

Parabéns, rapaz. E estamos prontos, para continuar, não é?

sábado, 6 de maio de 2017

Acolher maio...

Entrar de mansinho em maio e guardar-lhe todo o esplendor. Sacudir a lama dos sapatos, esquecer as luvas e o casaco grosso, descompor os cabelos e soltá-los ao sol. Desarrumar a alegria e trazê-la para a rua, feita festa da liberdade que já começou. Descansar ao entardecer e preparar a nossa lonjura, em rios que se apressam para o mar, sem medo do caminho.

Acolher maio em regaços frescos de amor, tonto pela renovação dos laços e dos amores, esses que nos enredam a alma e os sonhos, esteira macia do futuro. Acolher maio e as memórias, tecê-las devagarinho em nós, doces e recolhidas, mas sempre presentes, igual à árvore que volta a dar flor e depois fruto e depois sustento com polpa e sumo. 

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/43/a5/43/43a543c80d62011123a5364f9117a21c.jpgAcolher maio e descrever-lhe os encantos, com palavras raras e poemas antigos, que decorámos rápido, um dia, marcados pela emoção de sermos jovens e mudos de espanto. Acolher maio e renovar os votos de resistir para sempre à morte da vida, que chega embrulhada em pequenas doses de conformismo e desistência. 

Porque maio nos convida para sermos inteiros e eternos. Talvez e ainda belos, porque capazes dos maiores riscos e ousadias na reconstrução de sermos como somos. Filhos de mães que partindo, permanecem em amor, mães de filhos que nos prolongam pelo tempo, família de gente aguerrida e valiosa, amigos daqueles que nunca nos deixam sós. Os do peito e de sempre.

Porque em maio, definitivamente, podemos dizer ao que vimos e queremos ir. O sol brilha, a terra é fértil, os cravos continuam ao alto, porque abril permanece em nós. Sem medos e prudências cautelosas.
Acolhamos, pois, maio e a sua rebeldia de mês luminoso e inquieto. Como nos cantou o poeta 

 Maio, maduro maio

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul.


Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andava
Ao longe a varar


Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar


Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu


José Afonso 

sábado, 15 de abril de 2017

Na Páscoa, comemorar a vida

De novo a Páscoa, com amêndoas na mesa e flores no campo. De novo a comemoração da vida e dos laços, a alegria de estarmos por cá, com os nossos, em amor e liberdade. Porque é abril, o mês onde a revolta se vestiu de cravos, estampados na mão de uma criança, contra a ditadura. Por isso, é possível falar, escrever e cantar sem medo.

E hoje o meu canto é de silêncio, aquietado pela surpresa e a emoção. Temos uma nova pessoa entre nós, menina pequena e redonda, boca perfeita e dedos grandes, veio de um lugar quente, uma barriga doce, que a gerou, acolheu e devolveu aos braços de quem a fez. Um pai e uma mãe jovens, que se encontraram e prometeram ser felizes, amando-se a cada dia e querendo assim ficar para o futuro. Uma nova pessoa, linda e amorosa, chora, mama e sorri, tem cheiro de bebé e cabem nela todos os sonhos do mundo, aqueles que ainda não sabe nem conhece, mas a sua condição de pessoa já almeja. Porque nascemos para o melhor que saibamos e possamos ser.

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/736x/60/68/04/6068047f0ef7acb3d9924c9a906afaa8.jpg Espanto-me sempre perante este milagre. E renovo a condição de quase mistério, nesta nova vida que agora respira por si, aninhada em colos de amor e proteção, primeira condição para a autonomia da sua pessoa. Que ser quer inteira e livre, amorável e plena, confiante e desassombrada.

E emociono-me com este corpo pequeno e a sua promessa maior. E calo-me e alegro-me perante este compromisso e este projeto. Que exige entrega, atenção, amor e cuidado. Mas também respeito, disponibilidade, sentido de escuta, sensibilidade e bom senso. Para que a menina cresça luminosa e a sua pessoa se cumpra, em liberdade. 

Assim desejo que seja, nesta Páscoa. Com ovos de chocolate, folares caseiros e abraços quentes. Para os jovens pais e a nossa menina. E para nós todos, artesãos da vida. 

domingo, 26 de março de 2017

Saudade(s) e afetos

Domingo de chuva. 
Aqui da janela do sótão, as gotas fazem um barulho manso no telhado, deslizam pelos vidros e sobre as árvores, juntam-se em fios de água, ensopam a areia dos caminhos, lavam as pedras da calçada. Fica tudo fresco e limpo e apesar do cinzento do céu, uma luz doce invade o dia. Parece um choro brando.

Acordei com saudades. Dessas que teimam em se disfarçar de outras coisas, corpo dorido e sono a persistir, gestos lentos e vagos, imagens a inundarem o coração, para além da manha que já vai alta e pede a celebração da rotina. Uma rotina boa, em jeito de ritual, porque é domingo, os rapazes vão chegar para o almoço entre abraços e preguiça.
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Mas acordei com saudades, daquelas que nos comprimem as palavras e dão primazia ao silêncio.

Saudades do passado, menina com vestido novo no largo da igreja, depois da missa, o cheiro das regueifas, das mimosas, os bons dias entre os vizinhos, pequenas conversas e risos, a minha avó a dar-me a mão, os tremoços e o arroz doce na mesa, em jeito de agradecimento ao senhor. Por estarmos vivos, por ser quem somos, por o futuro se ancorar numa estranha fé na vida. Por tudo ter um lugar e o lugar ter quase tudo.

E acordei com saudades. De ser cuidada e protegida de tomar a dianteira, de ser poupada a ter sempre a lanterna pronta para iluminar o caminho, a mim e aos meus, sem desistir. De não ter que fazer perguntas e construir as respostas, de não andar continuamente a esculpir o tempo, perscrutando os seus desígnios e sentidos, os seus alcances e mistérios. Porque cansa. E ainda cansa mais em tempo de invernia. 

Acordei com saudades. De me deitar na eira, em dias de sol, aninhada e contente, a minha avó a escolher feijões e a explicar-me o sentido da vida e de ser mulher. Com precaução e verdade.  E eu a acreditar, pelo seu tom de voz, as suas palavras sábias e a sua assertividade, capaz de afastar maus olhados e tempestades frias. Em tempo de primavera.

Deve ter sido por isso que acordei com saudades. Do tempo quente e do amor, incondicional e protetor. Um amparo para a alma. Um descanso para o corpo e para a lonjura do futuro.  


quarta-feira, 8 de março de 2017

Falar delas

Relembremos as suas vidas.
Os filhos que levaram pela mão, no principio das madrugadas, a roupa lavada no lavadouro, os aventais a cobrir o vestido gasto pelo tempo, o cabelo preso na missa de domingo, o arroz doce na mesa para alindar a festa. As horas a correrem devagar e o olhar vago pela janela. 

Relembremos as suas vidas.
Levantar cedo e preparar o leite, fazer a cama e arejar a casa, cortar o pasto, regar o quintal, fazer a sopa, numa panela grande, à lareira e distribui-la pelos pratos, ficando com a menor parte. Tornar-se invisível e transparente na paisagem das casas que cuidam e alindam. Com sabem e podem.

Resultado de imagem para imagem de mulheres na arte miróRelembremos as suas vidas, aquelas que acontecem todos os dias, visível nos corpos que se apresentam quando levam os filhos para a escola, como hoje de manha. Fui vê-las, neste dia, num jeito discreto de comemorar a sua bravura como organizadoras dos dias das suas gentes.
 Fui vê-las e envolvi-me de novo no seu acolhimento feito de silêncio, poucas palavras, sorrisos mornos e amigos, uma maneira de contemplar os outros, como se vissem um filme e não pudessem ser os atores principais, ainda que a sê-lo. A sua condição de segundo plano, pausadamente aceite e interiorizada numa espécie de acordo tácito construído desde a infância.  

Relembremos as suas lutas miudinhas, pequenos feitos, grandes milagres, multiplicar o pão e a fruta, esticar o dinheiro até ao fim do mês, comprar as galochas para a chuva, oferecer rebuçados para adoçar os filhos, aguentando as criticas de más gestoras da economia doméstica. E culpadas de todo o insucesso, pela pertença a grupos socialmente desfavorecidos.

Relembremos  o seu lado de dentro, atacando os preconceitos e as menos valias, aquelas que pautam as nossas representações sobre as suas vidas e o seu alcance. Porque estas mulheres constroem os dias e o futuro, numa labuta discreta, mas poderosa.
Reconheçamos a sua presença e poder em todos os lugares do mundo. Em casa, na rua, nas escolas. Hoje e todos os dias, com práticas de participação e defesa dos seus direitos e da sua dignidade.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

De novo, a amizade.

O vento a soprar lá fora e eles por ali. Entravam na sala e sorriam, oferecendo olhares brandos e comedidos, a sondar caras e corações. Abraços e sorrisos íntimos, um como estás e como andas, perguntas que eram mantas e colos para todos se deitarem. Na sala, um espaço manso de alegria cobria algumas dores escondidas no corpo e na alma. Tudo devagar, tudo a preceito, tudo composto de gestos discretos e palavras sensíveis.  

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/236x/49/ed/0b/49ed0be98f41bca556f92be0a86abb98.jpgTinham vindo aos poucos, e ali estavam, queriam mostrar-se e recolher-se, gerindo em parcerias implícitas, a imensa dureza da realidade. Discorriam sobre tudo e sobre nada, dispostos a aconchegar-se entre si, resgatando pequenas histórias e vínculos que os uniam. Sentiam, uns e outros, que esse era um património justo das suas vidas. Ali estavam e ali queriam estar, para dizerem presente à convocatória mal redigida do destino. Entre surpresa e aceitação, faziam da noite uma ode à amizade, resistindo, em doses certas de coragem e persistência. Uns e outros.

Quem se pusesse à entrada da sala, podia ver a imensa serenidade dos afetos. Iluminavam-se as rugas e a cumplicidade, pelos anos de convívio e de sonhos, percetíveis nos gestos de afago e na insustentável leveza do ser. 

Quando cantaram, na penumbra da sala, souberam mais uma vez, colocar a voz e os corações ao alto. Cada palavra foi  uma espécie de grito e de flor para traduzir o presente em companhia. Amorosamente, como apenas pode ser.
 

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A casa grande

A casa grande foi sempre grande, mas estava mais cheia e não se sentia o vazio. Quando foi escolhida, os rapazes disseram que sim, o pai também e a mãe anuiu, sem partilhar o mesmo entusiasmo. Contra as expectativas, preferia lugares mais pequenos, garantia que davam maior aconchego e proximidade.

A casa grande cedo se tornou necessária e feliz para quem nela veio morar. O avô, homem de poucas falas e muitas saídas, que da casa grande podia ir ter à sua, num ápice de liberdade e autonomia. A avó, perdida no jardim e no portão, olhando a rua e as flores, à espera de bocados de histórias que lhe ofereciam ao final do dia. Os rapazes, com sonhos de espaço e independência, todos ao molho e fé em Deus, nas noites em que os amigos cá dormiam, mas cada um no seu quarto, quando a rotina se impunha e a intimidade exigia lugares para ser e ficar só;  O pai à volta do sótão e dos livros, das suas coisas e loisas, com dias de jardim, a rir pelas uvas apanhadas, a domar o crescimento desenfreado de ervas daninhas,  A mãe, contente com o refugio para a escrita, mas dispersa por todos os lugares, numa espécie de radar ligado, estar aqui e ali, mas também acolá.
 
Imagem relacionadaA casa grande teve dias em que foi pequena, festas de anos, noites de natal, S. Martinho e S. João, gente a entrar e a sair, amizades grandes e eternas, conversas soltas, abraços, lágrimas e alegria. Testemunhou  o crescer da vida, conteve tudo o que nela foi vivido, gente mais nova e gente mais velha, borbulhas dos rapazes e amores destroçados, amuos de avós e rugas sem parar, doenças e partidas, queixas e afagos, liberdade, inquietação e amor. Acolheu todas as mudanças e caminhos percorridos 

Depois os anos passaram e a casa foi ficando mais vazia. Primeiro, partiram os avós, cada um por sua vez, deixando vazios os quartos, os lugares na mesa, as conversas à noite, junto à televisão. Uma saudade imensa, amenizada pelas memórias e fotos na sala. Depois partiram os rapazes, um primeiro e o outro a seguir, fazendo-se à vida, como autores de sonhos na primeira pessoa do singular. E ficou o pai e ficou a mãe, de volta do sótão e do jardim, dos projetos e do trabalho, da casa e das memórias, cuidando-a e cuidando de si, para alento do que foi e do que ainda pode ser. E a casa ficou maior e mais vazia. Mais grande, ainda. 

Mas em alguns dias, a casa volta a ser pequena, de novo. E é uma alegria. Enche-se de amigos, dos rapazes e das suas companheiras, dos sobrinhos e dos pais, de outras famílias, é um entrar e sair, ficar e permanecer, relembrar e construir outras maneiras de ser casa e ser família. Com laços de sangue e laços de coração, que as famílias tomam as formas que quisermos. As casas também, simbolicamente falando. Porque não se pode impedir que sejam da forma que são, maiores ou mais pequenas. E esta é grande. Em espaço, em memórias, em referências. Assim possa continuar, por muitos anos. E que possa ser em muitos dias, pequena, pela presença de muitos. Os que amam a casa e a casa ama.