quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Vê-los e ouvi-los

Fui vê-los. Na hora do intervalo quando o corpo pede corridas e brincadeiras malucas, com alegria e liberdade. 

Vieram a correr, a chamar o meu nome, entre risos, abraços e empurrões. Ia caindo ao portão, com a força dos meninos e meninas que foram para o 1º ano. Muitas conversas e informações, tudo ao molho e fé em Deus, que o tempo é curto e as saudades apertam... olha, já comecei a aprender coisas... olha o ...portou-se mal...olha vais cá ficar? não, não vou, vim visitar-vos e para ali ficámos, seguras do amor e das histórias que vivemos juntos, nos anos que passaram. As festas e conversas espalharam-se e eu a olhar em redor. O A. quieto a um canto, com as primas, sem se mexer. Fui ter com ele e dei-lhe um beijo e disse-lhe ao ouvido que o meu coração se lembrava dele quase todos os dias. Riu, em silêncio e encostou a cabeça ao meu peito. Um calor e um reconhecimento.

https://eitamocidade.files.wordpress.com/2015/05/crianc3a7a-de-colo.jpgDepois fui à sala do jardim de infância e eles lá estavam, meninos e meninas do ano passado e outros novos. Pararam as brincadeiras e deram abraços e vieram para o colo e riram, olhando-me com olhos de ver para além do que mostro. Uma procura atenta do que neles resta de mim, agora que começaram outro tempo e outro ano. Depois foram para as suas vidas, aquelas que estão a inventar na sala e que os grandes permitem e incentivam que as tenham. Andei para ali, sentando-me e levantando-me, sentindo a infância em redor, por palavras, gestos, emoções. Ainda pude cantar uma canção e falar baixinho, dizer segredos e outras coisas. E os olhos deles disseram quase tudo o que queria ouvir.

Depois vim-me embora. A pensar nas escolas, nas comunidades e nas culturas.  Naquilo que se vê e se intui. Naquilo que existe e no que falta. Na imensa alegria dos meninos e na imensa necessidade que têm de ser ouvidos e amados. E em nós, educadores como âncoras de uma aprendizagem que se quer justa, emancipatória, reconstrutora de identidades e circunstâncias.  Para que todos tenham vez e voz e o direito a uma cidadania plena, que começa aqui, pelo direito ao sucesso como pessoa e como aluno. Às vezes separamos uma coisa da outra e isso não é separável. Porque quem aprende é a pessoa que existe em cada menino e menina, com a sua história, o seu presente e as ideias que vai construindo de si para o futuro. E é para isto que servem as escolas e os educadores, para cuidar, ensinar e libertar gente de corpo inteiro, no agora e para os dias que hão-de vir.  

Com as saudades reconfortadas, foi isto (e mais outras coisas) que vim a pensar para casa. 

domingo, 9 de outubro de 2016

Outono...de novo a pedagogia

Sábado.
De manha bem cedinho comprou-se o jornal, acompanhado de um café quente, rotina mantida como gesto inaugural do fim de semana, cumprindo o direito a ficarmos sós connosco mesmo, numa espécie de liberdade boa que se junta à brisa e ao fresco do dia. É outono, pelo caminho muitas folhas no chão, cores quentes a invadir as ruas, os casacos leves a aconchegar os ombros. Uma promessa de recolhimento, de nos guardarmos nas vestes que nos vão tapar do frio e da chuva, que há-de chegar lá para o inverno. Mas por enquanto ainda não, que o sol é tépido e torna-se dourado nos finais de tardes.  

É outono. O tempo convida a passeios pelo parque da cidade, já não apanhamos folhas para a sala dos meninos, já não pensamos nas diferentes estratégias para provocar desafios de aprendizagem e envolvimento. Agora aos sábados, debruçamo-nos com atenção no planeamento das aulas, tentando acertar, com tempo e medida, nas melhores estratégias para desocultar o fazer e o sentido pedagógico da futura intervenção com as crianças.

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/d1/7a/b1/d17ab160e181e09f8f9bc400c0b92d1c.jpgE de novo uma espécie de urgência invade o quotidiano, um querer tudo em pouco tempo, como se aprendizagem se pudesse revelar por aquilo que dizemos, ainda que suportado em exemplos e pela mobilização da prática. Como se aprendizagem não tivesse que ser ancorada na ação, em contextos concretos, refletida em cooperação com pares, para confronto da diversidade de princípios, perspetivas. Como se aprendizagem não fosse um processo longo, que para acontecer, em cada um, tem que fazer sentido para quem aprende.

De novo, neste outono, a pedagogia e as suas múltiplas configurações, na educação de infância. Neste novo local de aprendizagem, com gente crescida, quase as mesmas questões com que nos deparamos frente aos mais pequenos: como construímos uma comunidade de aprendizagem, numa escola que se quer democrática, com direitos e deveres? como instituímos processos de autonomia, partilha, participação? como desenvolvemos um currículo significativo, com sentido social e cultural, face ao tempo em que vivemos? Como incentivamos o gosto e o prazer por aprender?

De novo, neste outono, a renovação dos desafios para uma pedagogia com ética e compromisso face aos mais pequenos. Agora, através dos mais crescidos, futuros educadores. 

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Faz-me falta

Já não escrevo há muito tempo. Falta-me o mote e os motivos, as falas, risos, perguntas e opiniões, feitos e fitas. Faltam-me. E como me faltam, no decorrer dos dias. 

Por isso, de alguma forma, perdi a inspiração. Movo-me menos inquietada e menos perguntadora, mais colada ao previsível, olhando o tempo e as tarefas como coisas a fazer, ainda o melhor que sei, é certo, mas sem a interpelação dos sentidos e dos saberes dos meninos pequenos, absolutamente grandes em interação e vida(s) partilhada(s).

Faz-me falta a construção colorida dos dias, esse permanente vai e vem entre descoberta, alegria, crescimento, encontro, ousadia. Essa espécie de luz primeira, brilho nos olhos, mãos descansadas nos nossos ombros, perguntas a confirmar os fazeres e a dedicação.

http://1.bp.blogspot.com/-WGdFpP2wMFc/UA8OEEfn2eI/AAAAAAAADI4/lJgUKJQaTHU/s1600/desenho+c%C3%B3pia+baixa.jpgFaz-me falta a revelação da pedagogia, feita de coisas singulares e muito concretas, pegamos nos pincéis e desatamos a pintar, um sol e uma flor, riscos e rabiscos e damos-lhe um nome e uma intenção, e nós a sorrir pela liberdade e pela construção da luz, do lado de dentro de cada um, no contexto da sala e dos afetos.

Fazem-me falta as conversas "ao redor da mesa grande", nem sempre simples e afáveis, mas sempre poderosas para a reconstrução da vida coletiva. Uma procura inacabada para o entendimento, para a conquista de cada um ser o melhor que pode, numa comunidade de aprendizagem.

Faz-me falta até o cansaço, o desassossego dos dias, as negociações e zangas, os problemas e as dificuldades para se ser de corpo e coração inteiros. Faz-me falta cuidar, apoiar e receber, um pouco de tudo o que os meninos e as meninas guardam e procuram dentro e fora de si. 
Faz-me falta ser sua companheira de aventuras e desavenças. Faz-me falta. 

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Fazer parte

Quando pertencemos ao lugar onde estamos? Quando olhamos e o que vemos, é também aquilo que sentimos e temos dificuldade em separar a pele da árvore, o colo do chão, os olhos do jardim? Quando é que por dentro já somos parte do que vemos por fora e tudo se conjuga numa amálgama de cores, risos, caminhos e projetos?

Quando é pertencemos ao lugar onde estamos? Quando é que o tornamos nosso e nele inscrevemos as nossas impressões digitais, aquelas que permitem tornar conhecido, amigável e desejável o que antes era apenas uma forma de arquitetura, mais ou menos bela, mais ou menos neutra? 

Quando é que as pessoas se tornam parte de nós, os risos são saudações de acolhimento, as falas uma espécie de cartão de identidade? Quando começámos a amar e a fazer parte? 

http://1.bp.blogspot.com/--DzH8yIE1io/Uw9tC4fVeHI/AAAAAAAAFIY/gTJnXmZwYjU/s1600/14-Si+no+hay+viento+habr%C3%A1+que+remar.JPGQuando é que deixamos de ser estrangeiros nos lugares que habitamos e nos tornamos gente no meio de gente, sabendo ler as sinas e as mágoas, os ditos e os silêncios, a alegria e a tristeza? Quando é que sabemos que tudo está certo, porque assim é que é, para além das dificuldades e deceções?

Quando é que a vida se põe de feição, mostrando que ali é o nosso lugar e que podemos escrever quase todas as histórias que os sonhos necessitam? Quando é que começamos a sentir que a vida se faz por aquele sitio e aquele sitio é o lugar mais certo para fazer a nossa vida e a de outros?  

Quando é que estamos no meio da nossa gente? Quando pertencemos ao lugar onde estamos? 

Carreguei ontem dentro de mim todas estas perguntas, quando me apresentei na ESE, lugar para onde vou dar aulas, durante este ano letivo. Carreguei-as de novo, hoje com mais intensidade e desconforto quando fui à minha sala e encontrei pela rua, a minha gente.

Assim me sinto, a despedir-me de um lugar onde fiz cama, colo e projeto, onde as histórias se desenharam com cores e traços de amor, para enfrentar a construção de um novo lugar. 

Mas tenho saudades do que foi e do que poderia voltar a ser, lá no meu lugar. E lembro-me do poema de Cecília Meireles...pois é! 

Ou isto ou aquilo
Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!



Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

(...)
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.


terça-feira, 23 de agosto de 2016

Despedida

Vou partir desta terra e deste cheiro, dos milhos verdes, da água da ria, dos barcos moliceiros e do tempo fresco. Vou partir desta casa e desta saudade. Um estado permanente que se pega à pele e permanece imutável. Sempre.

Vou partir. Vou levar comigo na bagagem, o descanso morno na cama quente, as fotos de menina, a salinha da lareira, o aido com fruta, o bom dia das mulheres, as conversas soltas de quem nos conhece há muito tempo e para na rua, a sorrir. Vou levar-me e levar-te.

https://neurocrescimento.files.wordpress.com/2012/03/milho.jpgSetembro vai chegar, as folhas vão cair, o sol ficará dourado e ameno e vou ter-te ainda. Porque a saudade é bem que se quer por perto, para confirmar que já fomos outros e continuamos com eles por dentro de nós. A compor a vida que temos e aquela que ainda sonhamos e queremos.

Deixo por cá a minha passagem, impressa nas muitas coisas que faço e sou. Como sempre, alindei jarras e cantos, decorei com pedras a beira das janelas, acertei quadros e cortinas, para tudo ficar a preceito e lindo. Intacto e silencioso. Profundo.

Porque este é o teu lugar. E tu estás sempre por cá, outra coisa não poderia ser. E por isso te sinto nesta despedida e por isso te levo para o recomeço do tempo dourado do outono.  

 

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O amor

O amor. Que coisa é esta do amor? 

Fiquei cheia desta palavra e desta procura, depois de o ter deixado em casa, magro e muito frágil, a sorrir, antes de fechar a porta, em jeito de agradecimento e segurança. Como se a tivesse agora, como outrora a teve, e dela fez a sua bandeira. Ainda hoje.

O amor.
https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/564x/fa/80/68/fa8068919abd987999e54abdbf549039.jpgConduzi pelas ruas lentamente, com o sol a consumir-me e a ideia da inevitabilidade do amor às voltas dentro de mim. Como coisa poderosa, que é cuidado, presença, preocupação, pele, sustentação, partilha. E dor, às vezes. Muito ou pouco, depende.

O amor que tem tantas caras e expressões, pessoas e dialetos, horas curtas e eternidades, princípio, meio e fim. O amor, que é dos filhos, dos pais, dos companheiros, dos amigos, das crianças da escola, das famílias, do mundo. O amor e os amores, todos diferentes e todos iguais, porque plenos de afeto, liberdade, autonomia. Diferente e ousadamente. O amor, como condição de respeito e bem cuidar. E bem querer. E bom ser.
 
O amor, aquele que damos e recebemos e nos faz fazer parte. O amor que evita a exclusão e o preconceito, que cria canções de roda de mãos dadas, gente atada nos outros, uma espécie de cordão umbilical, que vai e vem e não se desprende. Uma linha e uma conduta, um compromisso, a testemunhar histórias e percursos, que são nossas e dos outros, os que amamos e nos amam. Porque amor com amor se paga. E outra forma não há de viver.

O amor.
O que embala no berço, reforça o sonho, ampara na aflição, combate a desistência, imprime direção e rebeldia. E é porto seguro em dias de tempestade. E uma janela aberta para a vida, quando o ar falta no peito e o tempo parece estar em contra-relógio.
Como hoje, como agora.
 

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Descanso

Mar longo, mar imenso. 
Secam-me as palavras com a frescura da tua água, invade-me uma lentidão morna quando te olho, assim manso e lento junto à areia. Tanto mar e eu por perto, sem relógio e sem pulsar, apenas cheia de silêncio que é a única coisa que aprecio, por agora. E sol. E liberdade.

De resto, admiro-te todos os dias e recomponho o tempo junto a ti. Nada mais quero fazer, a não ser deslindar-me da pele enrugada das dores dos dias, ainda tenho o corpo cativo do cansaço e dos excessos. Do trabalho e das pessoas. Apenas algumas, sim.

http://2.bp.blogspot.com/_Q5TN4EpETn4/TNl7PoQRhWI/AAAAAAAADQ8/wY1zE5nbyN8/s1600/P+tarde.JPGTodas as outras moram comigo neste início de verão. Transportam a minha amizade e a minha vida, apreciam o mar por dentro de mim, escutam o silêncio e continuam atentas e dispersas, coloco-as assim por assim me ser mais fácil ouvi-las e atendê-las. Mas não falam, respeitam esta imensa necessidade de ouvir apenas e só o bater das tuas águas contra a areia dourada. 

Mar longo, mar imenso.  Daqui te vejo e quase te ouço, leve e gentil, para não assustar o bater do coração nem agitar o sono profundo do descanso. Dele preciso e dele me renovo, por agora. 
Contigo, lá ao fundo.