sexta-feira, 10 de junho de 2016

Tempo livre

Por fim, o silêncio. Por fim, um tempo livre para ajeitar o corpo, amansar  o desassossego, arredar o cansaço, compor os sonhos. Aproximarmo-nos mais lentamente de nós, do que somos feitos, esta imensidão de ser pessoa, em modo total e imperfeito. Mas único e irreplicável. Singular.

Um tempo livre. Para apreciar o vento, senti-lo leve junto do rosto, abençoar o seu som e a sua rebeldia de viver em liberdade. Ir ver o mar. Determo-nos no azul da água, no dourado do sol e no ruído longínquo das vozes de crianças a brincar. Eternamente, como coisa primeira e gostosa da vida. 

https://glaucocortez.files.wordpress.com/2010/10/designinforma_beijaflor.jpgUm tempo livre para olhar as flores do campo e a sua teimosia em alindar paisagens. Crescem por todo o lado, sem lugares convenientes, a sua pátria é a terra que nos envolve, lugar de todos, sem donos e vedações privadas. Trazer um ramo de giestas e deixá-las colorir a penumbra da sala. Um assombro de luz para os dias. 

Um tempo livre para pegar num livro. Acariciá-lo na sua forma de páginas macias, ler as letras e juntar as palavras, pegá-lo e largá-lo quantas vezes nos apetecer, sentirmo-nos viajantes por conta própria sem sair de casa e do nosso lugar. Alcançar outros mundos, desvendar as suas rotas mais esquecidas e belas.   

Um tempo livre para tomar um café com uma amiga de sempre. Rir dos anos que já temos e do dialeto que criámos, mapear de novo os desejos e reconfigurar a vida, falar, trocar ideias e acertar teorias. Aquelas que melhor servem o lastro de amizade, protegem a alegria e arredam os maus olhados

Um tempo livre para olhar, sem pressa, a nossa casa e os nossos. Os que connosco escolheram caminhar e aqueles que nós escolhemos para ter por perto, todos os dias da nossa vida. Um mistério e um desafio, amores suados e reais, não perfeitos, esculpidos na nossa pele e no nosso coração de gente viva. 

Um tempo livre para  recarregar baterias. Faz-nos falta. 


domingo, 5 de junho de 2016

Conversar a vida...

Entre festas e passeios, projetos a terminar, livros e leituras, muitas brincadeiras, o final do ano letivo aproxima-se a passos largos. Invade-me uma ligeira inquietação, uma espécie de nervoso miudinho, o desejo de ter mais tempo para continuar, apesar do cansaço. Tento conter-me neste desassossego, esbracejo por dentro, mas deve ver-se por fora, porque oiço a M. dizer mulher não te stresses!  e penso no meu currículo, no nosso currículo deste ano.  Tão incompleto.
Penso na semana. E na rapidez dos dias. No quanto planeámos e no quanto fizemos. E retenho como fundamental as conversas...como dizia a L. um dia destes mais outra reunião?  sinto-me uma chata mas não posso deixar de mobilizar as conversas, os conselhos. Temo-los aos molhos e apesar de alguma distração e agitação, julgo que os aprenderam a apreciar. Ouvem e falam, nem sempre às horas convenientes ou determinadas na rotina, mas sobretudo quando as situações acontecem. São conselhos urgentes, a quente, onde tentamos que todos se envolvam. Evito os monólogos, mas também existem. Acalorados, emocionados, porque é difícil viver aqui. Porque é difícil construir serenidade. Porque é difícil arrumá-los em lugares de afetos bons e seguros. Porque entram já zangados. Porque constroem relações pela briga, apesar de se gostarem. Porque choram. Porque o corpo não para. Porque querem muito colo. E pessoas atentas e amorosas. Porque precisam de liberdade e contenção.

A A. tira a flor ao R. e fica a vê-lo chorar muito e corre e foge e ri-se e deita-lhe a língua de fora. Observo e depois de entrarmos na sala e nos sentarmos, descrevo a situação e pergunto-lhe porque fez isso. Baixa os olhos e fica em silêncio. Levanto-me e fazendo teatro com o exemplo da plasticina que leva regularmente para casa, se te tirassem, se rissem e tu chorasses? Fica calada e em silêncio. Depois diz mas eu quero pedir desculpa. Esperamos. Como todos estão a olhar sugiro que peça noutra altura, não é necessário ser agora, pode ser quando estiveres sozinha com o R. mas ela diz quase zangada e em voz alta mas quero pedir agora e vocês não me ajudam! Concordamos em ajudar e repetimos em conjunto com ela R. desculpa! ele sorri. Ela também, aliviada e contente. Situação ultrapassada. 

Depois do almoço, quando ficamos sentados, a M. pergunta: porque é que os homens não querem namorar? Digo-lhe  não sei o que queres dizer. Repete a ideia. Pergunto-lhe: é isso que me queres dizer? e avanço com: acho que me queres dizer ou perguntar outra coisa e acho que sabes o que é, digo. E ela diz namoram, fazem os filhos e depois vão embora. Às vezes acontece, respondo. E ela diz: sim eu sei, os pais continuam a pensar nos filhos e a amá-los, já me disseste. Digo-lhe, e tu não acreditas, é isso? estás e pensar no teu pai e na tua mãe? Diz, estou...eles não atendem o telefone, sequer...mantenho a conversa como posso entre dar-lhe ternura e atenção e colocá-la frente à sua vida.
No dia seguinte, pergunta Manela, há homens que namoram com homens? sim, há, respondo. E mulheres que namoram com mulheres? sim também...faz um trejeito com a cara, como se não gostasse, e diz: quando for grande vou namorar com um rapaz. Está certo, digo eu, escolhes um rapaz mas temos que respeitar quem escolhe diferente. Cada um é que sabe com quem quer namorar...Estão todos a ouvir em silêncio e dizem, pois...sim... e a S. diz: pois é como se quer...mas eu não gosto. E a M. diz e eu vou ter filhos e não lhes vou bater. Vou conversar com eles...e ensino assim. E ensinas bem, digo eu, apesar das dificuldades...quais? pergunta. Então as da vida...eu também tenho. Tens? e querem saber quais são...e falo delas. Ouvem. E talvez relativizem as suas. 

Vejo o G. sozinho no recreio, aproximo-dele e pergunto o que tem. Chora e diz que está sem amigos. Chamo alguns e pergunto se podem brincar com ele. Quando entramos na sala, coloco a questão quando andam no recreio, não vêm os meninos que estão sozinhos? e falo da situação do G. conversamos sobre a importância de olhar e ver e termos atenção e delicadeza para com os outros. Falo das pessoas que estão sozinhas, e dou exemplos: as pessoas mais velhas que não têm com quem falar, os sem abrigo que não têm casa, e levanto-me a andar, sem olhar para nada, a fazer o teatro de pessoas indiferentes. Olham espantados, começam a dar sugestões, a falarem de poder dar abraços, de dar palavras. E o A. diz podemos convidar os sem abrigo para irem para a nossa casa...sorrio e digo se calhar não podemos, mas podemos parar, olhar, conversar...e remato: o mais importante na vida são as pessoas...se fossemos embora desta sala, e não voltássemos, como é que ela ficava? muitas ideias e o sentimento de que somos nós que fazemos o mundo e o lugar onde estamos. Somos nós que podemos dar aos outros atenção, carinho e alegria.

No dia da criança, depois de muitos festejos e brincadeiras, um jogo na sala. Cada um senta-se numa cadeira e os outros falam sobre essa criança. Que criança é o...a... ?? espantoso como se conhecem, como escolhem palavras bonitas e como também dizem o menos agradável de forma suave e equilibrada. Quem está sentado sorri de satisfação, os olhos brilham, e sentem-se acolhidos no meio de todos. Os adultos também falam, com cuidado, para não cair em doses de enaltecimento ou critica velada. É um jogo para nos dizermos e dizermos como nos vemos, valorizando-nos num colo coletivo. Resultou. Emociono-me com estas competências relacionais e sociais, que nesta sala, é o motor do currículo, com a amizade que soubemos construir, apesar de muitos dias, ser arranhada, agredida e protestada. E chorada. 

Mas é assim. E assim se aprende o que há de mais importante na vida. Sabermos ser em relação com os outros, que é coisa pouco fácil e exigente. Foi isto que fizemos este ano. Sendo muito, às vezes parece-me pouco. Porque com tanta conversa, o tempo escapou, deixando de lado tantas outras coisas. Mas educar é escolher. Em contexto. É bom que me lembre disto.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Em jeito de telegrama

Em pequenos, fazíamos o presépio e ainda hoje me lembro do cheiro do musgo e do espelho a fazer de lago, com os patinhos em cima e das suas mãos a compor os montes e a alisar os vales. Quando crescemos, escreveu-me ideias fortes em papéis pequenos, foi um amparo bom nos dias menos claros e um desafio certo para abraçar sonhos.

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Também lhe dei palavras justas, penso, quando os anos se apoderaram de nós, e mais velhos, começámos a procurar as raízes de que fomos feitos. Ficamos às vezes no sofá a tecer esta irmandade, que é amor, alegria, intimidade e compromisso.

Mesmo que não estejamos de acordo, acordamos que somos da mesma barriga, e isso é um caldo que permeia a nossa pele e o nosso coração, ligando-nos como um cordão. O umbilical.

Nada é tão poderoso e tão incondicional. Para sempre.  
Bom dia dos irmãos, mano. 

sábado, 21 de maio de 2016

maio

Tenho uma leve nostalgia dentro de mim. É coisa pouca, mas insinua-se, de mansinho, num vai e vem permanente, tolda-me a razão e alerta-me os sentidos, brincando comigo, neste fim de tarde de apreciar saudades. E, no entanto, é maio, o mês das flores, papoilas vermelhas a alegrar os campos, raios de sol a descansar no mar, gatos preguiçosos a espreitar nas janelas. E crianças, muitas crianças a brincarem na berma da estrada, esperam os campos de trigo para correrem desenfreadas em busca do verão que está a chegar. 

E, no entanto, é maio, o mês em que nasci de ti, tu deitada na cama do quarto que durante anos me cheirou à nossa vida, na casa que a avó tinha como sua, entre o cheiro do café e das espigas do mês de agosto. Eras jovem e eu uma menina pequena, de bibe e sandálias brancas e lembro-me dos teus olhos e das tuas mãos, a ajeitar os laços do bibe e o cabelo, para ficar direitinha e composta, como uma menina. Agora já não sou.

Agora já cresci, já estou muito grande e em marcha certa para a idade que tinhas quando partiste. Procuro-te, quando me penso e desfio o novelo dos meus anos. Apareces-me sem que te chame e aninho-me na tua memória e na falta que fazes. Já não tenho bibe nem laços para ajeitar, mas as gavetas estão com meias desarrumadas, mãe, poderias vir dobrá-las e ficar em conversa amena, sentada na beira da cama, a espreitar o cair da noite, para fechar as janelas e descansar. 

E, no entanto, é maio, continuo a gostar tanto deste mês, em que me deste para o mundo e para a vida, um mês doce e forte, pintado de vermelho, salpicado de flores e liberdade, um mês a desaguar no calor do verão como um rio fresco, que se junta ao mar. Um mês de encantos e poesia, revolução e alegria.
Um mês certo para nascer, mãe, apesar da nostalgia que às vezes me invade o corpo e os pensamentos, como hoje. Mas isso não tira a beleza nem o encanto a maio.
Continuo a gostar tanto deste mês. Obrigada mãe.

Também eu

Também eu, também eu,
joguei às escondidas, fiz baloiços,
tive bolas, berlindes, papagaios,
automóveis de corda, cavalinhos…
Depois cresci,
tornei-me do tamanho que hoje tenho;
os brinquedos perdi-os, os meus bibes
deixaram de servir-me.
Mas nem tudo se foi;
ficou-me, dos tempos de menino,
esta alegria ingénua
perante as coisas novas
e esta vontade de brincar.

Sebastião da Gama 

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Famílias

Dia da família, dizem.
Penso na minha, a mais antiga, aquela que me viu nascer e cuidou de mim. Lembro rostos e risos, cheiros e palavras, aidos com árvores de fruta, ameixas e uvas, água fresca a correr da nora, os pés pequenos a calcar a terra. E o amanhecer, e as espigas na eira e as mulheres na dianteira, com chapéus de palha e o rosto trigueiro. Lembro a loja e a venda do pão, o cheiro do café e a porta sempre aberta, o terço à noite, a igreja e as preces. E lembro mais e não posso lembrar. 

Penso na minha família agora. A nuclear, dizem. Um companheiro de 30 anos, amor e lealdade provada, os filhos meninos e agora grandes, orientar e decidir, conversar e contar histórias para adormecer, aplaudir e condescender, implicar e enaltecer. Penso nos dias de trabalho e nas noites de sossego, nas alegrias e na dor, nos beijos com doce e nos abraços sem fim, nas zangas fortes e deceções, nas bolachas escondidas e nas festas de aniversário, nas gomas em agosto, nos mergulhos no mar, na preguiça, nos pecados bons e nos devaneios e sonhos perdidos. E naqueles alcançados.

http://www.viveresaber.com.br/vs/images/stories/logo_familia.jpgPenso nas outras famílias. Umas que conheço e são ainda famílias, porque amigas, e as outras, aquelas que me cercam e são o colo e o sustento dos meninos e meninas lá da escola. Penso nelas e nas suas circunstâncias, famílias de carne e osso, reais, autênticas, contrárias às imagens de publicidade das manhas felizes ao redor de uma mesa farta.

E surpreendo-me pela audácia, a coragem, a magia de fazerem do pouco, muito, repartindo e dividindo por todos, o que multiplicam sem saberem como. E aprecio os risos e os silêncios, quando, em alguns dias, observam os desenhos e as pinturas e a marcação das presenças. E quando pela manha trazem os filhos pela mão e vão para casa, porque não podem ir para o trabalho. E quando ficam para ler uma história e sorriem e soletram em conjunto as palavras difíceis. E quando dizem que não sabem fazer, porque desconhecem.

Penso nas famílias que me cercam e centro-me nas suas lutas e vitórias. Na sua participação na sala, no que podem dar e nós podemos acolher, ainda que confundam dias e momentos e troquem as voltas ao currículo e o que foi planeado tenha que ser mudado. Porque isso é coisa menor face às redes de afeto que vamos tecendo, pelo meio da vida, das suas circunstâncias e das crianças que vivem entre nós, a pedir-nos laços e solidariedade. Esqueço-me das desvantagens, porque retenho como fundamental a importância das famílias como espaços emocionais onde estão as raízes da identidade (Sousa, 1998).

E se assim é, têm que ser ouvidas, respeitadas e entendidas nas suas múltiplas formas de ser e viver, porque são o primeiro colo dos nossos meninos e meninas. Não nos esqueçamos delas, destas, neste dia da família.  
   

domingo, 1 de maio de 2016

Lembrar as mães

Penso nas mães. Nessas mulheres com barrigas que deram gente, que se animaram e cansaram de as carregar, apesar de todo o amor e todos os sonhos. Penso nas mães e nos cheiros, nas flores e nas promessas, hei-de gostar de ti até ao fim do mundo garantindo que as mães são para sempre e por isso os filhos dormem descansados todos os dias da sua vida.

Penso nas mães e na largueza da praia, a perder de vista, um continente imenso de compromisso e dedicação, dar banho e pôr o creme, tirar a febre e aconchegar a roupa, espreitar os namoros e os  amigos, perguntar pelas notas e levar à natação, olhar de longe e de perto e de lado. Olhar em todos os sentidos e direções. Olhar para comprovar o tempo a crescer e o amor a aumentar e às vezes, ainda a ser pouco.   

http://blog-imgs-31.fc2.com/n/e/k/nekokuroneko/20090915220220be1.jpgPenso nas mães e lembro as suas condições. E vem-me à ideia a quadra de Aleixo, a rica tem nome fino, a pobre tem nome grosso, a rica teve um menino, a pobre pariu um moço. Penso nas mães e nas suas diferentes histórias, mulheres que se levantam cedo e levam os filhos ao colo, transportes e infantário, cedo cedinho, que a vida começa de madrugada e não há tempo a perder.

Penso nas mães que não tiveram infância, amedrontadas por uma barriga a crescer num corpo de menina, não seguram o peso nem o medo, acolhem os filhos com  risos e sonhos trémulos e saudades de um colo para se aninharem ainda.

Penso nas mães neste dia a elas dedicado, um domingo de sol soalheiro e claro, o primeiro do mês de maio. Penso em todas as mães que receberam flores e beijos e nas outras que nem por isso. As que perderam filhos pelo caminho, as que não foram amadas para poderem amar, as que tiveram frio na infância e gelaram o coração para sempre, as que procuram pão e paz e não encontram. 
E lembro-me da canção do Zeca Afonso

Quanto é doce quanto é bom
No mundo encontrar alguém
Que nos junte contra o peito
E a quem nós chamemos mãe
Vai-se a tristeza o desgosto
Põe-se a um ponto na tormenta
Quando a mãe nos dá um beijo
Quando a mãe nos acalenta
E embora seja ladrão
Aquele que tenha mãe
Lá tem no meio da luta
Ternos afagos de alguém

Feliz dia da mãe para todas as mães 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Dias de luz e atrapalhações

Não tenho escrito sobre os meninos e as meninas da escola. Quando não escrevo, ando cabisbaixa e a cismar, como se diz na minha terra. Pois assim tem sido, ainda que talvez não devesse, já levo três anos desta comunidade, as surpresas já não deviam acontecer, dias e dias de aprendizagem e constatação, um empurrar permanente dos destinos, um alindar dos espaços, um refazer de estratégias e propósitos.

Mas surpreendemo-nos sempre. Como não? A vida a entrar em forma de choro, as noticias sobre famílias que não estão, os pedidos de colo, o eterno bater como primeira reação, as opiniões sobre quem manda brincar com quem, porque Manela não pode ser, eu não deixo que fique ao lado de...e nós a tentar remendar a questão, porque outra coisa não se pode fazer. De remendos vamos vivendo, fazendo uma coisa e sonhando, em muitos dias, com outras. Então, fica-se desconfortável e a cismar... porque é em cada lugar concreto que a pedagogia se faz, o que implica centrarmo-nos no aqui e agora, amando o que se tem.

Depois, luzes de esperança em alguns dias. Festa e risos, desenhos e pinturas, meninos a pensar e a falar. Como o A. que disse no outro dia eu sei que quando chegas vens para arrumar os meninos. Arrumar?? sim, acalmar, falar baixo... arrumar. Pois, tem razão. Quando consigo (nem sempre consigo), priorizo o bem estar e a conversa, a atenção e a serenidade. Arrumo-os como posso em mim e em nós, mas é pouco e não chega. O mundo existe para além da sala e nem sempre é doce e suave.

http://static7.depositphotos.com/1004899/735/i/950/depositphotos_7350468-Rain-of-lights-christmas-or.jpgDepois luzes de esperança em alguns dias. Mães que vêm ler histórias e ficam a ver e a ouvir a discussão sobre os meninos que não querem brincar com outros, batem e não desculpam. E nós, cansadas de tanta zanga, a discursar, com energia e a terminar  é o que eu acho e acredito nisto. E a S. a rematar e é esta a educadora que diz assim coisas e o que pensa e é a melhor...e riram e disseram pois e  a mãe a segredar isto é difícil!

Depois luzes de esperança em alguns dias. Uma reunião de conselho onde muitos falaram e o M. a dizer secretário, dá a palavra...e o secretário, bem novinho, a dizer-me eu não dei a palavra, tu é que deste Manela...pois foi, a pressa da educadora para segurar as ideias, que estavam a rolar, mesmo na direção que queríamos. Sempre esta eterna luta entre o que os meninos e as meninas podem e aquilo que os educadores necessitam de ouvir e confirmar. 

Depois luzes de esperança em alguns dias, seguidas de atrapalhações. Falámos do 25 de abril, com uma história e o livro os rapazes dos tanques, todos muito atentos, olhos abertos e ouvidos à escuta e quando se falou da prisão e da falta de liberdade, logo opiniões de outras prisões da sua vida, a minha avó também...o meu tio... e nós sem recursos pedagógicos plausíveis para demonstrar que não era a mesma coisa. Enrolámos o discurso, mas tentámos.  Atabalhoadamente, parece.

Atabalhoadamente também ficamos quando vem a Escola Segura, para os meninos mais crescidos e tudo vira um rebuliço. Todos comentam no portão e as palavras inundam o espaço e as conversas. Tento explicar, mas mais afincadamente tento arrumá-los, como disse o A. Blindar a sua agitação e disponibilizar um corpo seguro, que os embale e os retire das aflições. Para que possam serenar e viver bem na sala. 

Esta imensa disponibilidade é muito exigente e traiçoeira. Não mora sempre em nós, o que é uma dificuldade e uma atrapalhação, para a construção de dias bons e soalheiros. Porque o currículo, neste lugar, passa por aqui. Muita luz e muito amor. Possamos nós assim fazer, sem cismas.
Sem estar sempre a pensar, ainda que veladamente, que devíamos estar a fazer outra coisa, no currículo.