domingo, 17 de abril de 2016

Carta para uma amiga


Hoje, 15 de abril, faz anos uma grande amiga, que tive a sorte de conhecer, quando era menina e moça e ela também. Hoje, mais uma vez vamos a sua casa, comer uma coisita simples, que não é nada de especial, diz ela, naquele jeito de aligeirar o seu modo de ser e estar com os outros...como se fosse possível uma coisita simples quando se trata de abrir as suas portas e cuidar de quem ama! Sabemos que não. 

O que esta amiga tem de maravilhoso e único é uma arte especial de bem acolher e cuidar, requintes traduzidos em boa comida, espaços abertos, conversas soltas, atenção colocada nos outros, palavras de amizade e conforto, risos e abraços. É uma mestra nesta arte, com credenciais dadas, conhecemos a sua extrema disponibilidade para pensar nos outros, amá-los com ternura, verdade e justiça. Sei do que falo.  


Por isso nunca é de mais escrever-lhe cartas e repetir-me nas palavras. Não me canso e nunca me cansarei. Com ela atravessei anos e anos de aventuras, trocas profissionais, partilhas de vida, filhos e companheiros, mães e sogros, textos e frases, trapos e adereços…de tudo tivemos, de tudo nos rimos e chorámos, com tudo crescemos como mulheres e educadoras. Eu, sobretudo.


http://images.e-konomista.pt/articles/850_400_prendas-que-nao-pode-mesmo-oferecer-no-natal.jpgCom a sua generosidade, ficou com os meus filhos de noite, regou-me as flores no verão, tratou-me dos gatos, mudou fraldas ao meu sogro e possibilitou que tivesse férias. Ouviu as minhas duvidas e medos, parou de arrumar a casa para me dar café e pão com manteiga. E eu confiei na sua mestria e descansei dos meus cansaços. Amiga assim, é uma pérola no nosso caminho e um amparo para os dias cinzentos. 


Agora estamos mais velhas e mantemos a nossa amizade, porque ela faz parte da nossa vida, da nossa pele, da nossa identidade. Continua a dar-me muito, e não falo nos doces de natal ou nos bolos que faz para os nossos aniversários, na sarapilheira que vai comprar, nos catos que me oferece para a escola. Falo do lugar que ocupa na minha vida e na vida aqui de casa, nas perguntas de cuidado do meu filho que é seu afilhado, e já lhe dedicou um espaço no jornal…falo do lugar que sei que guarda no seu coração, da liberdade de telefonar a qualquer hora e ouvi-la dizer sim, Manela, então, está tudo bem? E da certeza do seu tempo para ouvir, mesmo que esteja ocupada.


Porque esta amiga não conhece ocupação para quem ama. Porque esta amiga tem um coração do tamanho do mundo. Porque esta amiga sabe conjugar como ninguém o verbo cuidar. 
Precisamos todos, os que a amam e reconhecem, agradecer a sua presença e cuidar dela também. Porque ela merece, como ninguém.


quinta-feira, 7 de abril de 2016

Esperança(s)

O dia hoje não foi fácil, saí da escola em desconforto, a ideia que ainda falta fazer quase tudo e quase tudo é muito, agora. Não quero nem posso falar disso aqui.
Saí a querer silêncio, a querer tempo para pensar, sentir e compreender. Mas o dia não acabara e teria ainda que falar na reunião do fim de tarde. E falei. E ouvi e voltei a falar. Mas não disse o essencial. Porque o essencial estava de repente no seu rosto, sereno e terno, misturado com uma força amena, que se via a léguas, nos olhos e nas palavras, a fazer eco e ressonância dentro de si e da sua barriga. Uma barriga redonda, grandinha, ajeitada nas mãos e no pensamento. No amor. 

http://www.tempoagora.com.br/wp-content/uploads/p%C3%B4r-do-sol-mar-praia-fim-de-tarde2.jpgRegressei a casa, com o desejado silêncio, uma musica de fundo, a pensar no que tinha sido dito e explicitado. A fazer síntese, da síntese partilhada. Teria dito o essencial? não, de todo, porque o essencial ali estava, na memória daquela barriga, como colo e sustentação de um bebé. Um bebé esperado por uma mulher de esperança, que o procurou de braço dado com a fé e a alegria. E o amor. 

E pensei que não lhe tinha dito o quanto isso hoje foi importante. Por isso escrevo. Para deitar fora o desconforto do dia e guardar o dom de quem, devagar e sem medo, sonha e deseja a vida. E a faz com mais gente e mais mundo. E com todo o compromisso.

E assim queremos ser, com apostas de fazer figas ao vazio e renovar votos de esperança. Assim queremos para este bebé e para a sua família.  Um doce recomeço de fraldas, cheiro de risos e leite, calor de regaços e abraços, dias de sol e noites de embalar berços.

Assim queremos também para os meninos lá da escola, para quem falta fazer quase tudo. Pensando bem, talvez não seja muito. Apostemos, mais uma vez. E sempre.  


sábado, 2 de abril de 2016

As histórias da minha avó

Os livros. Não havia muitos lá em casa, quando era menina. Muito menos para a infância, porque a infância nesse tempo não estava especializada, era-se menino ou menina no meio de grandes, que regendo a vida com arte e engenho, iam tratando dos pequenos e do futuro, como sabiam e tinham experimentado. Portanto não havia livros, a não ser aos sete anos, os da escola, com as primeiras letras e as lições de moral, para aprender a ler e a saber comportar-se, sem sonhos e ousadias. Gostei deles, apesar de tudo, porque me senti autónoma e poderosa, lembro-me disso.

http://www.brincandoeconstruindo.com.br/blog/wp-content/uploads/2013/08/FEIRA-DE-LIVROS.pngPortanto, não havia livros, mas havia a minha avó. Mulher forte e misteriosa, com luz nos olhos e nos cabelos, impetuosa e doce, contava-me histórias de fazer medo, lobisomens e gatos pretos, bruxas e escaravelhos, o Joãozinho que se perdeu na floresta, a madrasta que não deu de comer. Contava com entoação, ainda que sem grandes intimidades, fazendo desfilar o bem e o mal em forma de bichos ou de mistérios. E eu ouvia e imaginava os gatos pretos em cima dos muros e as mulheres a combatê-los, em posições de guerreiras. 
No final tranquilizava-me, ficávamos em silêncio a olhar a lareira e eu cansada de correr o mundo em imagens de tecer fantasmas. Às vezes as histórias eram reais, a minha avó nova, o namoro com o meu avô, a zanga por causa do café e dos tamancos, o nascimento da tia Cecília, risos e dores, lutas e sucessos, outros enredos, o mesmo entusiasmo.  Eu a imaginar e a guardar dentro de mim a revelação das imagens das suas histórias. Persistem até hoje.

Portanto não havia livros, mas havia a minha avó. Acho que a ela lhe devo o gosto danado por ler, que na adolescência me fez procurar nas estantes do meu irmão os livros proibidos, antes de 74 e consumi-los num abrir e fechar de olhos. Agradeço-lhe este comportamento aditivo, de braço dado com o prazer de escrever e amar as palavras, amar os homens e as mulheres, querer ser escritora e correr mundo e que não tendo sido possível, me alimentou a vida e os sonhos. Ainda hoje.

Neste dia internacional do livro infantil, o desejo de que os meninos e as meninas sem livros em casa, possam ter uma avó para lhes contar histórias. E que as escolas e os educadores se saibam e sintam arautos da literatura para as crianças, como concretização de um direito. Porque não só de pão vive o homem e os meninos também não. Conhecer e gostar de livros é uma forma perfeita de conhecer e gostar de si e do mundo. E ser poderoso.

sábado, 26 de março de 2016

Intimidade

Enquanto não choveu andei a dar uma volta pelo jardim, a apanhar ervas e a limpar folhas, que outras coisas, nesta arte, não sei fazer. Reparei nas minhas mãos e lembrei-me das tuas, no mesmo gesto. Iguais. E tu vieste de novo para perto de mim, antecipando a Páscoa e a saudade. E fizeste bem, tinhas que vir, amanha, domingo de Páscoa, comemorarias os teus 84 anos. Seria uma festa redobrada, porque no dia em que nasceste era domingo de Páscoa.

Se não fossem as mãos seria a saudade. E a vontade que tenho de poder falar-te de coisas inconfessáveis, sentimentos vagos que me alastram na pele e no coração, sacudo-os quando me invadem, digo-lhes para irem dar uma volta, que o mundo é grande, o futuro é distante e os meus sonhos são poderosos como na juventude. Quer dizer, espera, estão menos urgentes e mais razoáveis, sim, mas continuam a ser sonhos. Creio que também os tinhas, os teus, e quando te via rir espantava-me com a meninice do olhar, uma doçura alegre, leve e folgada, a contrastar com as (poucas) rugas do rosto. Era o antídoto contra a passagem do tempo, uma forma de resistir e contrariar o destino e a aproximação do futuro. Hoje sei que não lhe atribui o sentido que lhe davas, essa vontade desmedida de continuares a viver e a amar, porque era isso que gostavas de fazer. E sabes porquê? porque de alguma forma, quando somos mais novos, menosprezamos o valor e o sentido do que sentem os mais velhos. Como se apenas aos mais novos pertencesse a ousadia e a necessidade de reinventar o mundo e a vida. Foi assim contigo, é agora assim comigo. 

http://static8.depositphotos.com/1036242/953/i/950/depositphotos_9538555-Hands-of-a-Woman-Caring-on-the-Garden.jpg E era sobre isto que te queria falar.  Sobre a passagem do tempo no corpo, na alma e no coração. Se estivesses cá amanha, não seriam, contudo, necessárias muitas palavras para te dizer isto (e muito mais) porque junto a mim, a apanhar ervas, verias as minhas mãos mais velhas e em silêncio pensarias, sem dizer nada, que tal como tu, eu estou a envelhecer. Mas se estivesses cá amanha, eu sei que aproveitaríamos para comemorar a vida, a ressurreição, a alegria de estarmos todos juntos. A mesa teria um bolo de aniversário, cantaríamos os parabéns e os rapazes diriam graças e tu ficarias com os olhos ternos de tanto amor. Por eles, por mim, por nós.

É isso que me faz falta e foi por isso que me lembrei de ti ao olhar para as minhas mãos. Tenho saudades das tuas, a mexer nas coisas em jeito de afago e a cirandar pela casa, discreta e quase invisível, mas sempre presente. Isso faz-me falta hoje e agora para viver a Páscoa com mais alegria e para entender, com mais sabedoria, como sou agora. 
  

sexta-feira, 25 de março de 2016

A vida da gente

A vida da gente tem pedras ásperas, pequenas e grandes, perdidas no chão, escorregam e caem em demasia, enrolam e estremecem com o peso dos pés, deslocam-se do lugar e voltam de novo, persistem sem pedir licença. Atravessá-las de corpo aprumado, em pontos incertos de equilíbrio, sem vergar às suas escorregadias formas é o propósito firme de cada dia. Sempre.

A vida da gente tem crianças pequenas, parecem pássaros aflitos, estonteiam-se em brincadeiras de azul, procuram o sol e voos livres, falam e sonham e riem do desenho, inventam heróis em fantasias de amigos, abraçam quente e choram alto, querem porque sim e porque não. Esperam-nos a cada manhã, com olhos de  espanto e expectativas justas. Exigem corações abertos e pessoas inteiras, prontas a reinventar a alegria, a cada dia que passa.  

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/236x/85/b7/4d/85b74d25300bce351fd46a21cb1d4421.jpgA vida da gente tem sonhos eternos, persistem novos no tempo mais velho, reclamam espaço e arco de flecha, são pontos de luz nas noites de breu. Tecê-los é a arte mais difícil, pegamos nas pontas e acertamos princípios, encarreiramos caminhos e compomos quimeras, desfazemos o nó e começamos de novo, procurando a ponta certa da meada. Mais uma vez e eternamente.

A vida da gente tem amigos do peito, gente que ri e abraça com força, homens e mulheres da mesma jornada, juntos nos fazemos ao desassossego dos dias, teimamos igual e fazemos figas, somos enormes com eles em nós. Alimentá-los é o nosso futuro, em rituais de todos os dias, com café quente e esplanadas com sol. E risos e palavras para lavar medos
.
A vida da gente tem primaveras, dias tépidos para afugentar invernos, papoilas vermelhas da revolução, como um estado e uma condição. A vida da gente  renova-se assim, numa marcha cerrada para fazer de novo, esperando o sol como casaco quente e os dias longos como esteiras de paz.
A vida da gente é palavra, rosto, fé, alegria, saudade, medo, coragem e ressurreição. A cada dia que passa. Hoje e sempre.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Dia da mulher

Pelas mulheres do mundo e pelas mulheres da nossa vida. Mães, filhas, amigas, irmãs, companheiras. Pela sua tenacidade, força, liberdade, luta e alegria. Por porem a mesa e aconchegarem o lençol, por darem colo e beijos, por refilarem na fila do autocarro, por acalmarem medos e soluços, por ouvirem sem pressa, por fazerem café com leite e torradas, por se alindarem e quererem a paz, por se levantarem cedo para o trabalho, por dançarem em forma de pássaros, por sonharem com os filhos por perto, por acreditarem, por não desistirem e voltarem a querer. 

Pelas suas teimosias, sonhos e devaneios. Pelo que lutaram e podem voltar a lutar, se o tempo não for de feição.  Pelo seu riso, apesar das dores e lágrimas. Pelas suas lágrimas, apesar do riso. Pelo seu amor, combate e rebeldia. Pela sua coragem e persistência. Pela sua utopia.
Pela sua presença, apesar da ausência. Por serem eternas e não nos deixarem sós. 


O mar dos meus olhos

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma

E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos                    
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma


Sophia de Mello Breyner, in Obra Poética

domingo, 6 de março de 2016

Em frente ao espelho

Não gosto do vento frio e agreste, dá-me desconforto e fragilidade, uma espécie de mau estar, de coisa inóspita, raízes secas a desprenderam-se do chão, areia e espaço aberto, sem ponta de abrigo, lugar essencial para me aconchegar. Estou assim hoje e tenho andado assim. Estonteada pela vida, absorta em mil pensamentos, presa à realidade, sem lhe vislumbrar sonho e poesia. Fogem-me as palavras, foge-me a arte de lhes revelar os contornos, perde-se a magia e o riso claro de as escolher, com encanto e liberdade. Não consigo mais inventar outro tempo, neste tempo. E preciso. 

http://not1.xpg.uol.com.br/wp-content/uploads/2015/04/CLASSE-DE-PALAVRAS.jpgPara me recompor e recuperar do que vejo e me cerca, um mundo quadrado, com linhas fechadas, gente de galões com certezas feitas, destinos marcados antes de serem vividos, horizontes sem a luz doce do anoitecer que antecede as manhãs justas de alegria.

Não consigo mais inventar outro tempo, neste tempo. E preciso. De voltar a sentir que as palavras são o reino onde construo os cenários da vida, sem limites para a sonhar e sentir a escorrer e a perder-se, vertiginosa, com as batidas do coração e a força do sangue que corre nas veias. Coisa forte e mobilizadora, uma espécie de resistência ao desgaste e à impotência. Coisa alegre. Coisa nova.

E preciso. Para rasgar as vestes que escolhem para me vestir, todos os dias, teimando que a vida é aquilo que é, olhando de soslaio para os meus sonhos de mulher adulta, com idade para ser mais razoável, dizem. De tanto dizerem quase me convenço, embrulho a emoção e enrolo-me em mim, perco o sonho e as palavras, fico pobre e menos capaz.

Por isso preciso de encontrar de novo a magia das palavras.  Elas são espada, flor, luz e claridade para reinventar os dias e a vida. Teimam em não chegar, por agora. Contudo espero-as, expectante. Será que vão demorar?