sábado, 23 de maio de 2015

Andar aos dias

Ainda tenho em mim o gosto pelas madrugadas frias, enrolada num cobertor à espera do sono, entre rios de memórias e praias desertas. Ainda percorro, sem lamentos, a geografia dos dias passados, elegendo o melhor que pude fazer, acomodando em gavetas um pouco desarrumadas, o que fiz sem jeito, engenho e arte. Ainda me esboço bailarina num palco imenso, esse sonho escondido de menina, que o futuro não quis ver em cena mas que o coração nunca esqueceu.

https://sacudindoasideias.files.wordpress.com/2014/01/mulher-escrevendo_3_thumb2.jpg?w=540Ainda me lembro de ti, de ti e de ti. E mais de ti. Levo-vos para todo o lado, colados à história do que sou, mistura certa para suster a respiração e renovar com fé, a construção dos dias na terra. Ainda pego nos utensílios que conheço e cultivo o amor e a amizade como combinação perfeita para afastar os feitiços da dor e do desalento. Ainda me quero amiga, mãe, companheira, profissional e cidadã do mundo. Convosco perto de mim, para ser corajosa e não ter medo.  

Ainda me abraço às palavras, num namoro permanente, amassando os dias desencantados, compondo pequenos textos, adjetivos e verbos mais que perfeitos, num exercício de resistência, para repor a rebeldia e escapar à morte lenta da vida, em vida. Ainda me sinto a andar aos dias, catando-lhes todas as possibilidades, numa procura quase física. Ainda  me embriagam os odores, as memórias e os sonhos. 

Apenas vão mudando em mim pequenas parcelas do corpo, o contorno da face, as rugas disfarçadas nos olhos, algumas cicatrizes da passagem do tempo, que as promessas de renovação celular não conseguem resolver. 

Não é pouco, mas ainda não é o suficiente para esmorecer em mim a comemoração da vida, (quase) todos dias. Assim me mantenha, hoje e por muito tempo, convosco por perto. 

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Famílias

15 de maio, dia da família, dizem. Pois que seja e pensemos nelas. Lá pela sala, não por ser este dia, mas porque assim estava combinado, tivemos a mãe de um menino connosco, a ajudar-nos no "projeto dos bebés". Não sei bem se assim o posso chamar, mas não vou agora deter-me em questões de rigor científico e pedagógico sobre trabalho de projeto. Para além da correção das fases e do seu desenvolvimento, este é um projeto, sim, que nos envolve por todos os lados (a uns mais do que a outros, claro) e envolve muitas famílias, sim. Entre janeiro e fevereiro nasceram dois bebés e agora mais seis mães estão grávidas. Algumas barrigas, grandes e lindas, entram-nos pela sala todos os dias, outras ainda pequenas, também avançam destemidas. 

Com tanta barriga, os bebés entranharam-se nos nossos dias, e andamos à procura de os conhecer um pouco melhor, que é o mesmo que dizer à procura de nos conhecermos, a nós e aos outros. Um bom motivo neste contexto. Já temos um espaço reservado na sala, uma mesa com livros sobre bebés, uma caixa forrada pelos meninos, que guarda objetos de bebés (chupetas, fraldas, biberons, roupa pequenina, brinquedos...), pinturas e desenhos de mulheres grávidas e muitas conversas com mães que vêm e passam um bocado connosco.

Hoje a mãe do M. respondeu a perguntas dos meninos e meninas e depois fez o desenho da família para um livro que estamos a fazer e se chama "nós somos assim...". A mãe do M. mostrou a barriga e a bebé (é uma menina) deu pontapés e todos se riram, entre surpreendidos, encantados e alguns um pouco nervosos, pareceu-me. Depois foi ajudar a "vestir" a mãe da L., que na semana anterior se prontificou a ser o nosso modelo e deitada no chão, deixou que os meninos a desenhassem de perfil.

Desenhou-se um bebé, colámos na barriga, em cima de algodão e com o cordão umbilical. E agora tinha que ser vestida. Já está, com a ajuda da mãe do M. e de um grupo de meninos. tem as unhas pintadas, flores numa mão, um vestido de pano cru que pintámos com canetas de tecido, uma saia preta, curtinha, umas meias às riscas e uns ténis também às flores. Ah e um colar e os lábios pintados. Está muito gira, dizem. Também acho.

 A mãe da I. foi lá com a filhota, de 3 meses e também nos contou como tinha sido o nascimento. E ainda faltam ir as outras mães. Os bebés entraram-nos pelos dias e assim andamos. E falamos do que precisam para nascerem e crescerem bem. Entre nós e com as mães.

É claro que é uma alegria e um rebuliço, e uma tempo meio caótico, na nossa sala e creio, na vida destas famílias. Um rebuliço meio infantil,  às vezes surpreendente, às vezes meio difícil, às vezes meio por acaso, pressinto. Mas vejo-lhe os olhos e sinto-as determinadas e doces, a carregar o peso de sonhos e afetos, profundamente amarrados ao seu corpo e à sua sorte de mulheres muito jovens.
 Entram na sala e ficam meias estarrecidas, sorriem para o estendal de desenhos e pinturas, livros e objetos, que colocam os bebés, os seus, no meio da vida da sala, no meio da vida dos outros filhos, os que ali andam e esperam os manos e manas. E descansam as mãos na barriga, em silêncio, a rir ou a brincar. Há de tudo, porque as mães e as familias são todas diferentes e todas iguais.

É claro que muitas outras coisas havia para dizer, neste dia da família e de tantos bebés por nascerem. Mas hoje não vou escrever sobre isso. Não me apetece discorrer sobre necessidades, direitos, vidas justas e outras tantas matérias desta realidade tão complexa e tão simples que nos dá a todos o primeiro colo e o primeiro leite. Pão e amor. Eu sei que nem sempre é assim, mas também sei que as famílias que vemos na televisão, essas lindas e e perfeitas e serenas e tudo... não existem. Ou se existem, também têm os seus achaques, como diria a minha avó.
E lembro-me do poema de Adriana Calcanhoto a Ciranda da Bailarina. Porque todo o mundo tem, só a bailarina é que não tem. Aqui fica.

Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
(...)
Só a bailarina que não tem
(...)
Todo mundo tem
Um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida ela não tem
(...)
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem quem não tem?
Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem
Um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha ela não tem
(...)
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família quem não tem?
Procurando bem
Todo mundo tem


sábado, 2 de maio de 2015

Dia da mãe: o essencial

Maio chegou. Lembro-me do cantor e do poema maio maduro maio, quem te pintou e encanto-me de novo com a doçura do mês. Tem cheiro de flores, cores de primavera, lutas de abril que ainda o salpicam. É um mês maduro e fecundo, assim o sinto. E foi nele que nasci e foi nele que foste mãe, minha mãe. Sinto-te a falta, para olhar para ti e celebrar a vida, esse sopro pequeno que cresceu em ti e fez de mim o que sou. Com outras histórias, pois, que mãe não dá conta de tudo. Mas dá conta do essencial.

E o essencial talvez fosse, hoje, sentarmo-nos à volta da mesa e lancharmos as duas, o sábado é perfeito para umas torradas e um café quente, aquele da cafeteira, a fumegar com cheiro da infância. Depois sacudir as migalhas, arrumar a loiça, sentarmo-nos no sofá a comentar as notícias. Tu a dobrares umas meias dos rapazes, parando a ouvir, a tua curiosidade a desafiar as minhas explicações de filha informada. Gostavas disso, ainda que criticasses o meu tempo gasto na rua e na profissão e as rotinas domésticas esquecidas. 

http://www.wikinoticia.com/images/www.jardineria.pro.feed/www.jardineria.pro.wp-content.uploads.2010.02.Ramos-de-flores1.jpegO essencial hoje, talvez fosse ver umas quantas roupas no teu quarto, espalhar as blusas e as saias e passá-las a pente fino, eu a pressionar a sua renovação, tu zelosa, a fazeres comentários sobre cada peça, relembrando o seu bom estado e a inutilidade da mudança. Quando cedias, um riso breve inundava-te o rosto e a alegria de mulher cuidada aparecia junto a um leve contentamento, esse de ser tratada com afeto e atenção, tal qual fizeste durante o tempo em que fui menina e em que mulher me tornei. Porque amor com amor se paga.   

O essencial hoje, era, talvez, voltarmos a ver o álbum de fotografias que te ofereci num aniversário e rirmos a bom rir com as caras dos rapazes, doces e atrevidos, comentando cada graça e cada pulo de crescimento. Os beijos e abraços de bebés, as poses atrevidas da adolescência, as fotos das primeiras namoradas...E tu a rematares, entre suspiros, tão lindos que eram...já cresceram, pronto, já estão homens.

O essencial hoje era que estivesses por cá, cirandando pela casa, permanecendo entre nós, como aconteceu nos últimos anos da tua vida. E que amanha, dia da mãe, recebesses um ramos de flores e te sentasses à mesa para um almoço melhorado. Um prato do teu agrado, aletria e um bom café, por entre o essencial do dia: a alegria de estarmos em conjunto, a celebrar a vida. 
Não sendo possivel, aqui fica o essencial de mim, a escrita da minha saudade e da tua recordação boa. 

sábado, 25 de abril de 2015

Viver e acreditar na democracia

Viver em democracia não é fácil. Sobretudo se a quisermos coisa presente e viva nos nossos espaços de vida. Sobretudo se a escolhermos como compromisso para a tradução dos seus princípios fundamentais, respeito, liberdade, cooperação, justiça, igualdade, participação. Sobretudo se a colocarmos no coração da pedagogia, uma espécie de obsessão, como referiu Sérgio Niza, na sua desafiante comunicação, na quinta-feira, quando da atribuição do seu Doutoramento Honoris Causa. Ouvi tudo e tudo guardei, reatando a convicção de permanecer acompanhada no caminho.  

http://3.bp.blogspot.com/-NWggiMiW7hc/UyM-ixEeFvI/AAAAAAAAP-E/tz91D0c0n-k/s1600/cravos_h.gifViver em democracia nos espaços das escolas significa lutar contra as formas mais seculares da organização escolar. Aquelas que já não tendo as carteiras, a secretária, a régua, os mapas de rios e caminhos-de-ferro, continuam inscritas na nossa memória e cheiros de infância: obediência, autoridade, ordem, método, ensino magistral. Não o fazemos já, a escola mudou, dizem, mas persistem em nós fazeres pedagógicos envoltos em teias de aranha do resto que resta da nossa socialização e herança pessoal e social. Politica.

Viver em democracia, acarreta riscos, imprevistos e combates. Um constante alerta, uma vigilância de lince, uma coragem de leão. Dissabores e exposição, defesa e intransigência pelos valores que permitem uma escola de diálogo e negociação, inclusão de todos, aprendizagem como meio para a produção da cultura e intervenção no mundo. Um passaporte para viagens de si, homens e mulheres livres, comprometidos com a construção de uma terra mais justa e mais igual. A fraternidade como um valor a não perder.  

Viver e acreditar na democracia implica não dar tréguas nem intervalos às nossas representações das crianças e famílias como subalternos. Exige saber viver entre margens fluídas, que não comprimam o desenvolvimento e a participação de cada um para o bem comum. Exige acreditar que todos, mas todos, têm que estar na dianteira e que não há quem fique para trás ou tenha orelhas de burro.

Viver em democracia na escola, significa saber ouvir criticas, lidar com a frustração, aceitar os olhares sobre a nossa incompetência. De quem não dá a primazia à regulação externa como principal estratégia de controlo dos grupos de meninos e meninas. De quem não faz os dias em cima de rotinas e regras exógenas à vida pedagógica, que facilitam o rodar da engrenagem e mantém a ordem e a regularidade, manda quem pode, obedece quem deve.

Bem sei que tenho falado muito disto. Continuo pois obsessiva com este caminho, quase a querer calar-me de tanto me repetir. Mas o 25 de abril e a comunicação do Sérgio Niza deram-me alento. Precisamos dele como do pão para a boca.
Obrigada a quem luta assim pela democracia, sempre, sem fazer cedências e com determinação. Quem inaugura todos os dias, o dia inteiro, como no poema de Sophia

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner  

sábado, 18 de abril de 2015

Participação e currículo

Dizem que sim e vêm, tímidas e meio atrapalhadas e os filhos escolhem os livros para que os leiam. Sentam-se ao seu lado e sorriem, porque os seus estão em destaque a construir o currículo e a participar. Com voz e vez. A vez nem sempre é fácil de negociar, misturam-se os dias e as rotinas, as negociações são inúmeras e insistentes, ora este dia ora aquele amanhã não, não posso...e se for à tarde?... E na quinta-feira? E nós a ajustar todas as possibilidades. Não queremos desistir destes fios que nos unem, num território onde estar fora da escola é a regra. 

Ao princípio a voz sai trémula, com repetição de frases e palavras soletradas, para em seguida ficar mais nítida e alegre, pelo apoio dos meninos e meninas que escutam, corrigem e explicam. E pela nossa presença e informalidade, que propondo a participação in loco, tentamos que o momento seja aprazível e possa inaugurar outras vindas e proximidade.

http://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/be806b683/7830519_Drnsw.jpegNão é fácil. A rotina vira-se do avesso, a planificação anda um pouco ao sabor das dinâmicas das vindas e das idas, uma maior agitação paira no ar, quem vem hoje e a que horas? ainda que tenhamos um quadro de marcações...riscado e rasurado e alterado. E ainda que nem sempre se trate de leitura, porque quem não quer ler, pode contar e conversar.  Mas tudo serve e tudo dá jeito, para que a confiança ganhe a dianteira e se apresente como matéria fundamental no quotidiano pedagógico.

Não é fácil, mas é possível. Sobretudo se soubermos conviver com a imprevisibilidade, a diversidade, a fluidez do tempo, do espaço e da organização escolar. Se soubermos priorizar objetivos e estratégias. Se a cada momento, formos capazes de identificar o essencial, abrindo mão das nossas credenciais como especialistas do currículo. Se soubermos deixar cair as metas e alcançarmos a aprendizagem e desenvolvimento em momentos de relação e participação entre crianças e famílias. Como um direito e um benefício para todos e que se adeque às características de quem participa.

Isso exige despojarmo-nos das nossas certezas e saber viver um pouco na corda bamba, com práticas inclusivas, permanentemente questionadas por nós e pelos de fora. Trabalhar de porta aberta é assinar um contrato onde todos podem entrar, com as suas ideias, histórias e modos de vida. Um contrato que exige disponibilidade para entender diversos dialetos, acertar pontos de vista, desculpar modos mais abruptos, sem ceder a fechar a porta, mantendo a nossa profissionalidade e essência.

Não é fácil, mas é possível. Lentamente, com avanços, recuos, paragens. Mantenhamo-nos persistentes, que o caminho é longo e as dúvidas ladeiam-nos todos os dias, como o sol quente em tardes de verão.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Elogio a uma amiga

Quando a conheci vestia de amarelo e foi convincente nas respostas que deu sobre a motivação para ingressar no curso de educadora de infância. Foi assim como auxiliar e professora que cruzámos os nossos caminhos e cedo compreendi que tinha uma mestra da educação e da vida por perto. 
As idas à sua sala, o acompanhar do seu fazer pedagógico, deixavam-me muda de espanto, pela criatividade, alegria, sensibilidade, questionamento. Longas horas de reflexão sobre as práticas ensinaram-me a certeza da sua ética, da sua procura e investimento nas coisas da infância. Um amor infinito pelas crianças, uma utopia de querer sempre o melhor, entendendo-se já nessa altura, como profissional da relação e a criança como sujeito de direitos, inserida numa família e numa comunidade. 

Mestra nas relações, a sua sala estendia-se até à vila e era vê-la ligeira a ir fazer arroz doce ao restaurante, a cuidar de uma horta no quintal de um avô, a escutar as famílias como parceiros, num terreno nem sempre fácil para a cooperação. Poucas coisas a desanimavam, sabia como ninguém criar laços e atar nós.

http://www.florista.pt/wp-content/uploads/2010/09/ramo_campestre.jpgQuando se formou, no dia da bênção das pastas, disse-me já deu as notas, não deu? então gostava que fosse à minha casa, comer um bolinho...Assim fiz, com o filho pequeno e o marido a reboque e de novo me espantei. Muita família, mesas no quintal, a festa a celebrar o sonho. Tínhamos então 30 anos.

Depios disso, como diz a canção muita água rolou de baixo das pontes e a nossa amizade manteve-se de pedra e cal. Viva e atual. Noites a preparar reuniões, licenciaturas e mestrados, filhos a crescerem, apoios mútuos, o telefone a tocar à meia-noite, trabalhos até de madrugada, que somos mulheres de pouco sono e muita vida. Discussões, projetos, troca de opiniões, desabafos, jantares e lanches, numa casa que é um convite a entrar e a permanecer. Sempre.

Hoje faz 58 anos e continuamos amigas. Vou estar com ela e dar-lhe flores e beijos. Vamos rir com outros amigos, gente de sempre que com ela partilha os caminhos. E vamo-nos emocionar de alegria e bem-estar pela nossa amiga. Vou voltar a agradecer a sorte de a ter encontrado e de ter sido minha mestra de vida e profissão. De ter confirmado com a sua presença, que os amigos são uma força extraordinária que iluminam os nosso dias e reconfortam as nossas dores. E reforçam as nossas convicções e utopias. 

Nunca será demais dizer-lhe do descanso de a ter por perto, por a ética, a honestidade, a inteligência, a sensibilidade, a modéstia, a coragem, a disponibilidade, terem uma forma. A do seu rosto e do seu coração de mulher atenta e solidária.

Obrigada, Luisa, que sorte a minha.  

domingo, 12 de abril de 2015

Arte e educação

Entrou na sala, a sorrir e disse-me de repente
- Manela, tu és uma artista?
- Artista? Não sei, diz-me tu, o que é que achas?
Ficou a sorrir a olhar para mim e a sua amiga preferida, que entretanto também entrara na sala, disse
- Eu acho que és...porque trazes muitos artistas para nós... e porque sabes desenhar garrafas e copos...
Dei uma gargalhada e disse:
- Vocês acham? acham que sou artista por isso? Mas olhem, eu gostava era de ser artista das palavras, dizê-las bem, escrever as mais bonitas que encontrasse, fazer histórias, escrever livros bonitos...
- Então, tens que fazer. Pegas num papel e escreves, tentas...tentas muitas vezes...tu vais conseguir, tu vais ser capaz. 
E saíram para o recreio, a rirem, bem-dispostas e alegres. 

http://www.fotos-imagens.net/wp-content/uploads/2011/08/Van-Gogh-flores.jpgA garrafa e o copo tinha sido obra imposta no quadro, depois de uma conversa com a enfermeira C. sobre os perigos de consumir substâncias perigosas para a saúde (no caso bebidas alcoólicas e tabaco), no contexto do projeto embaixadores da saúde, em que estamos envolvidos neste ano letivo. 

Terminada a conversa, alguns meninos e meninas foram ilustrar o que tinham aprendido, exigindo que eu fizesse uma garrafa e um copo no quadro. Resisti quanto pude, como sempre faço, medindo a importância de ceder ou não, às suas representações sobre o que conseguem ou não fazer. É uma luta que por este lugar é reincidente, e quando vejo que é melhor aderir, desenho o que me pedem de muitas formas e feitios, contrariando a ideia de que existe apenas uma maneira de fazer. 

Neste caso, desenhei muitos copos e garrafas e eles iam rindo, expressando com o riso e os comentários, a compreensão da minha mensagem. E foi assim que muitos copos e garrafas apareceram, diferenciados, nos desenhos que ilustraram. E foi por isto que me tornei artista.

Para além da escrita, paixão da minha vida, não lhes disse que queria também ser artista do currículo, para encontrar a melhor representação de mim como escultora, pintora e poeta dos nossos dias, impulsionando um ambiente de criatividade, descoberta e aprendizagem serena. Não lhes disse que queria ser artista para com as estratégias certas, eliminar a fúria que transportam dentro de si e demora a sair dos seus corações de crianças. Não lhes disse que queria ser artista para fazer nascer o sol para todos e aquecer a sala de afeto e alegria, arrumando de vez o gelo das vidas que carregam em si. Não lhes disse que por aqui, ser apenas educadora, não chega.

E lembrei-me desta frase escrita na minha tese de mestrado, há muitos anos. O que eu aprendo e reatualizo com os meninos e as meninas...

Educar é uma arte. Porém, são muitas as competências que convergem nesta arte, tal como são muitas as  competências no artista, as decisões imperiosas sobre quando e como combinar essas competências. Os conhecimentos necessários para o fazer não são apenas uma competência técnica. Podem ser, sem dúvida, adquiridos, mas são também algo que provém das crenças mais profundas de cada um de nós e da nossa paixão pelas Crianças e pelo Mundo (Walsh, 1994)