domingo, 12 de abril de 2015

Arte e educação

Entrou na sala, a sorrir e disse-me de repente
- Manela, tu és uma artista?
- Artista? Não sei, diz-me tu, o que é que achas?
Ficou a sorrir a olhar para mim e a sua amiga preferida, que entretanto também entrara na sala, disse
- Eu acho que és...porque trazes muitos artistas para nós... e porque sabes desenhar garrafas e copos...
Dei uma gargalhada e disse:
- Vocês acham? acham que sou artista por isso? Mas olhem, eu gostava era de ser artista das palavras, dizê-las bem, escrever as mais bonitas que encontrasse, fazer histórias, escrever livros bonitos...
- Então, tens que fazer. Pegas num papel e escreves, tentas...tentas muitas vezes...tu vais conseguir, tu vais ser capaz. 
E saíram para o recreio, a rirem, bem-dispostas e alegres. 

http://www.fotos-imagens.net/wp-content/uploads/2011/08/Van-Gogh-flores.jpgA garrafa e o copo tinha sido obra imposta no quadro, depois de uma conversa com a enfermeira C. sobre os perigos de consumir substâncias perigosas para a saúde (no caso bebidas alcoólicas e tabaco), no contexto do projeto embaixadores da saúde, em que estamos envolvidos neste ano letivo. 

Terminada a conversa, alguns meninos e meninas foram ilustrar o que tinham aprendido, exigindo que eu fizesse uma garrafa e um copo no quadro. Resisti quanto pude, como sempre faço, medindo a importância de ceder ou não, às suas representações sobre o que conseguem ou não fazer. É uma luta que por este lugar é reincidente, e quando vejo que é melhor aderir, desenho o que me pedem de muitas formas e feitios, contrariando a ideia de que existe apenas uma maneira de fazer. 

Neste caso, desenhei muitos copos e garrafas e eles iam rindo, expressando com o riso e os comentários, a compreensão da minha mensagem. E foi assim que muitos copos e garrafas apareceram, diferenciados, nos desenhos que ilustraram. E foi por isto que me tornei artista.

Para além da escrita, paixão da minha vida, não lhes disse que queria também ser artista do currículo, para encontrar a melhor representação de mim como escultora, pintora e poeta dos nossos dias, impulsionando um ambiente de criatividade, descoberta e aprendizagem serena. Não lhes disse que queria ser artista para com as estratégias certas, eliminar a fúria que transportam dentro de si e demora a sair dos seus corações de crianças. Não lhes disse que queria ser artista para fazer nascer o sol para todos e aquecer a sala de afeto e alegria, arrumando de vez o gelo das vidas que carregam em si. Não lhes disse que por aqui, ser apenas educadora, não chega.

E lembrei-me desta frase escrita na minha tese de mestrado, há muitos anos. O que eu aprendo e reatualizo com os meninos e as meninas...

Educar é uma arte. Porém, são muitas as competências que convergem nesta arte, tal como são muitas as  competências no artista, as decisões imperiosas sobre quando e como combinar essas competências. Os conhecimentos necessários para o fazer não são apenas uma competência técnica. Podem ser, sem dúvida, adquiridos, mas são também algo que provém das crenças mais profundas de cada um de nós e da nossa paixão pelas Crianças e pelo Mundo (Walsh, 1994)

sábado, 4 de abril de 2015

Um tempo doce

Nesta Páscoa que se aproxima, o tempo corre manso e morno. A primavera dá-nos flores e pássaros, papoilas vermelhas e girassóis amarelos, prontos a erguerem-se com o amanhecer dos dias. Por aqui estou, a apanhar bocados de pétalas coloridas, fragmentos de sol no cabelo, conchas partidas na areia fina da praia. 

http://www.osmais.com/wallpapers/201207/campo-florido-wallpaper-1680x1050.jpgComemoro a ressurreição da vida, relendo na natureza o espanto de renascer. 
Escuto a cadência da vida, ano após ano, como as águas frescas a correrem para o mar. 

Despeço-me do inverno, uma ponta de frio espreita ainda, presa à lembrança da chuva que caiu nos meses findos. 

Quero-me envolvida no tempo que vem, procuro vestígios de primavera doce, embrulhada em amêndoas de chocolate e canela. 

Faço tudo devagar, sem me desprender de mim, uso as palavras que tenho e cubro-me com elas, um manto imenso de silêncio e paz. Releio Manoel de Barros 

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito 
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade 
das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado 
para gostar de passarinhos
Tenho abundância em ser feliz por isso.
Meu quintal é maior que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato 
de canto.
Porque eu não sou da informática
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Uma casa, uma mãe

Conversávamos sobre os pais, preparando o dia que lá vinha assinalado no calendário, dia socialmente significativo. Conversávamos de mansinho, eu com medo de atropelar meninos e meninas, neste dia de prendas, abraços e beijos, supõe-se. Eu com cuidado, não vá o diabo tecê-las e entrarmos, desabridas, com falas menos próprias, nestes terremos movediços de sentimentos íntimos e quase sempre indizíveis. A realidade, esta realidade, é tão dura, às vezes, que temos que andar com pezinhos de lã, cuidadosamente, a acolher todos os bocados de ideias e sentimentos dos meninos e meninas. A acolher, depois de ter construído o lugar, o tempo e o ambiente para se dizerem. 

Conversávamos sobre os pais, com mães e manos à mistura, numa conversa um pouco à solta, sentados em roda, uns ao colo, outros meios deitados, a mexer os pés e as mãos, rindo entre eles, que a atenção nem sempre se cumpre com o corpo quieto e controlado. Assim um pouco ao de leve, dizendo coisas sérias, falávamos entre nós, das vidas, das alegrias e das dores. Muitos pais ausentes, lembranças e desejos, que quando não temos os amores, inventamo-los com competência e mestria. Criamos os contornos da sua presença, para que os dias tenham cheiros e memória de quem se foi sem nada dizer ou nunca apareceu. A M. quis contar a felicidade dos pais, numa fala cheia de afetos, o meu pai dava abraços à minha mãe, pegava-lhe na mão, os meu pai e a minha mãe, eles eram felizes. E sorriu. E ficámos todos a olhar para ela, eu a pensar na sua capacidade de construir o que pouco viveu, mas quer ter dentro de si.

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/736x/fa/80/68/fa8068919abd987999e54abdbf549039.jpg Depois, o C. disse assim, de repente:
- A mãe da Manela, já morreu, não foi? Quando a mãe da Manela morreu, a Manela foi a mãe
- Fui a mãe? perguntei eu
- Sim, quando a mãe da Manela morreu, a Manela ficou a mãe.

Surpreendi-me com a ideia e quase que estremeci ao lembrar-me do que senti quando a minha mãe partiu, há sete anos. Exatamente isso, agora atrás de mim já não há ninguém, estou na linha da frente e sou a mãe. E sorri pelas palavras do C., pela sua expressão e pela sua lógica de compor a vida e concertá-la, reforçando a ideia de que há lugares que não podem estar vazios, quando toca aos afetos e ao amor. Muito menos, quando esse vazio se refere à barriga que nos embalou ou aquela que, na sua ausência, nos suporta, acalenta e ama pela vida fora.

Por aqui, neste lugar, as mães são, na sua maioria, as figuras da linha da frente. Lutam, resistem, multiplicam-se, fazem de pai e mãe, cansam-se e baralham-se. Mas fazem e são e estão. E respondem à chamada quando no dia do pai, se apresentam na sala e pintam Miró com os filhos, entre alguma inibição e riso aberto, depois da obra feita.

Se houvessem lugares vazios, como poderíamos fazer a festa da vida e a descoberta de nós como autores do nosso tempo e do nosso lugar? 
Sem dizer isto, foi isto que o C. quis dizer. E eu concordo. Plenamente.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Corpo e memória

Olho para as fotografias que decoram esta pequena sala, transformada em espaço de trabalho e aconchego-me nelas. Quase todas a preto e branco devolvem-me a infância e a juventude, riso aberto e ar confiante, assim estava eu em alguns dias, nesse tempo. Percorro os detalhes e as lembranças. Afasto algumas, não quero entardecer de nostalgia. Porque o fim de tarde está a chegar, o sol vai ficar alaranjado quase em cima da ria e vou querer reter essa imagem dentro de mim, serenamente. O que me espanta na vida é como conseguimos guardar tanta memória no nosso corpo e como ele é um roteiro condensado do que fizemos e vivemos, amores, projetos, paisagens e vestígios, intentos, duvidas, causas, filhos, pais, mães. Amigos e companheiros. Tudo em nós, no nosso corpo, dentro deste limite material de que somos feitos. E depois num lugar que não se vê, mas que está cá. Coração? Alma? Espirito? 

Vejo a mulher idosa a passar na rua, corpo dobrado pelo peso da idade, pequena e no entanto sei que guarda dentro dela quilómetros de vida, enrolados em lembranças e esquecimentos, tudo lá por dentro, tanto, tanto e contudo o seu corpo é pequeno e frágil. Mas chega para acolher as memórias mais recuadas da infância e juventude, quando partia para o campo para desfolhar as espigas e vinha no carro dos bois, ou quando ia à feira vender batatas e feijão, em cestos de vime, colocados uns ao lado de outros, que nem montra de produtos biológicos. Naquele tempo não se dizia assim, estas palavras não se tinham comercializado, vendia-se o que era cultivado, para depois poder comprar pão, vinho e peixe. 

http://avisala1.tempsite.ws/portal/wp-content/uploads/2013/03/avisala_33_sustanca3.jpg
No meu corpo guardo também as idas à praça com a minha avó, que fazia desse ato o seu gesto de liberdade e autonomia. Contra a opinião dos filhos, apanhava-me nas férias grandes e seduzia-me para esta rotina, inventando uma horta pedagógica, desculpando-se com a pequena, faz-lhe bem aprender e entreter-se, é por isso... Os filhos calavam-se e nós levantávamo-nos cedo e lá íamos as duas, nabiças e feijão-verde que cresciam por cuidados das suas mãos. No fim da venda, comprávamos bananas e padas, quentes e macias, e quando chegávamos a casa o pequeno almoço sabia pela vida. Pela vida e pela liberdade. A venda da minha avó, teima que manteve até muito tarde, para ser autónoma e depender apenas dela. Um regalo para os olhos, uma lembrança permanente da força de algumas mulheres.

Guardo tudo no meu corpo e nos meus sonhos e agora que a Páscoa está a chegar, guardo as amêndoas na sala do Senhor e a visita do padre. E a alegria do dia e o toque dos sinos, em forma de aleluia. E o sabor das regueifas que os padrinhos nos davam, depois de pedir a sua bênção.

Sinto o cheiro, sinto a alegria, sinto as imagens. Não sei como traduzir, mas sei que estão inscritas no corpo e nos seus sentidos. Tudo cá dentro, tanta vida e tanto andar e tanto tudo.
Por isso me emociono e me surpreendo com o que guardamos em nós, no nosso corpo. Um guardião de memórias, uma esteira de caminhos, um espaço de identidade e reserva de futuro.

domingo, 22 de março de 2015

Desejos de primavera

Uma porta larga e um campo aberto, a perder de vista. Um pouco de vento nos cabelos e os pés descalços, uns passos de dança, leves, muito leves. Assim me queria hoje. Para sentir um mundo grande, que este meu anda estreito. Em tudo. Até nas palavras que me faltam. Estranho-me. Desertaram de mim?  Assim parece. Hoje tenho-as a conta-gotas, numa aproximação tímida, as que se disponibilizam encobrem outras, que permanecem teimosamente presas. Temo que sejam as mais importantes. 

Uma porta larga e um campo aberto, a perder de vista e a vontade de nele redesenhar os contornos dos dias descansados. Paz e silêncio. Risos de crianças felizes e a certeza da vida justa. O pão na mesa, água quente para o banho, o cheiro gostoso do sabonete, uma toalha a embrulhar o corpo e um abraço a sustentá-lo. Firme e seguro. Um abraço com palavras para conter a fúria de si. Um sono à noite embalado pela voz de quem se ama. Aconchegar o lençol e o amor, rir do papão em cima do telhado.

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/236x/da/bb/41/dabb41baa9101e91124fb4ecbe2df2bf.jpgUma porta larga e um campo aberto, a perder de vista. Reconstruir as casas e os caminhos, rever a sorte e distribuí-la, cada um numa casa, cada casa com famílias, trabalho e direitos, deveres e compromissos. E projetos. Diversos, coloridos, sem roteiros pré-definidos, em ciclos de pouca sorte. 

Uma porta larga e um campo aberto. Deixar entrar a primavera, acolhê-la num coração sossegado, inspirar os seus perfumes, desfolhar os malmequeres como em criança. Malmequer, bem-me-quer, muito pouco ou nada, se não disseres muito eu fico zangada. Soletrar poemas de amizade e amor, convictamnete e com fé.  Marcá-los no tempo e no corpo. Rir descaradamente pela liberdade e justeza da vida.

Uma porta larga e um campo aberto. A certeza da chegada da primavera como renovação do mundo e das sortes. Baralhar e tornar a dar, como hipótese de tudo ficar no seu devido lugar. Aquele a que todos, homens e mulheres, meninos e meninas, têm direito. O lugar certo, porque o sol quando nasce é para todos. A primavera também.

Assim me queria hoje. Uma porta larga e um campo aberto a todas as possibilidades. Sem meias palavras e meias medidas. Tudo por inteiro, que assim é que somos.

domingo, 8 de março de 2015

Para a minha tia Maria



A minha tia Maria partiu ontem. Era a ultima irmã do meu pai e foi embora sem se lembrar de nós, a memória pregou-lhe uma partida no final da sua longa e boa vida. Apear desta ausência que a doença impôs, sei que nos levou a todos dentro dela, porque era uma mulher de peito grande e oração quente. E riso aberto, a sua última fotografia mostrava um ar de menina doce, rosto suave e olhos sorridentes. Apesar dos seus quase noventa anos.

Lembro-me do seu andar, ligeiro e rápido, cabeça levantada e o corpo deitado para trás, um pouco em arco, como se não tivesse medo de nada e tudo tivesse solução. E tinha. Resolveu, com a destreza certa, todos os nós e laços que a vida lhe deu, uns muito apertados e seguros, outros mais deslaçados, a precisarem de mãos competentes e seguras. Mãe de quatro filhos, avó de oito netos, bisa de cinco bisnetos, amava a sua família e era uma espécie de matriarca, a falar alto e a compor os dias, para cá e para lá, numa labuta constante.

http://chavena.com/sites/default/files/artigos/chavena-com-cafe.jpgCostumava vê-la durante o verão, uma visita que se impunha desde menina. A casa dela cheirava sempre a café e o convite era certo, vamos beber café com leite. Sabia pela vida. E pela vida sabia também, o olhar que me oferecia, cheio de cumplicidade de quem conhecia e conhecendo-me, sabia ser apoiante e discreta.

Cunhada da minha mãe, foi sua ouvinte e conselheira, num tempo em que a vida parecia estar contra a maré. Mulher da terra da ria e dos barcos, pegava nas palavras e compunha remos e outros utensílios para ajudar na faina da vida. Agradeço a amizade e companhia que sempre lhe deu, nas quintas-feiras da praça, onde ir à sua casa era paragem obrigatória.

E agradeço o café com leite e a recordação desse cheiro e desse sabor. Nunca mais bebi outro igual, a não ser em casa da sua filha mais velha, a minha prima Dulce. Uma espécie de legado familiar e uma espécie de ritual de afeto, que me aconchega o corpo e o coração. Ainda hoje.

Neste dia da mulher, agradeço-lhe ter feito parte da minha vida e da minha família. Agradeço-lhe o riso, a alegria e o sentimento que dela guardei desde menina: as mulheres são fortes e são capazes de resolver quase tudo. Apesar de já ser adulta, persisto nesta ideia que alimenta os dias e as horas do meu tempo.
Obrigada tia Maria. E em sua memória, obrigada a todas as mulheres que fazem a vida andar em sentido ascendente. Com risos, palavras, afetos. Sem arrepiar caminho.


domingo, 1 de março de 2015

Tempo e palavras


Hoje, guardei as palavras dentro de mim e com elas o silêncio. Fiz como o poeta, agarrei-as ao poste, muitas já me fugiram, instalei-as noutros lugares. Mas hoje não as quero por aqui, a vaguear à solta, com tanta gente por perto.

Vou precisar muito delas, amanha, cheias de poesia e sons de alegria.

Não as posso desperdiçar. São preciosas para acalentar meninos e sonhos.