domingo, 28 de setembro de 2014

Entre dizer e fazer

Num fim de tarde da semana que passou, disse a um amigo que há diferenças entre olhar uma criança pequena que vai de mão dada na rua com a mãe e olhar a mesma criança na sala. Silencioso ficou a olhar para mim e fui obrigada a explicitar o meu raciocínio, que me tinha assaltado de repente, mas que andava a marinar a algum tempo dentro de mim.  

- Sabes, é que a criança quando entra numa escola torna-se um aluno e olhar para um aluno muda muitas vezes o sentido do olhar sobre a criança...a um aluno exigimos coisas e comportamentos que eventualmente a uma criança, com a mesma idade, noutro contexto, não exigiríamos. Maior maturidade...silêncio para ouvir a história...saber estar numa fila para fazer a higiene...entender a metodologia de trabalho...ser simpático e cordial para os amigos....acenámos os dois com a cabeça, parecendo entender o que estava em causa...

Quando saí, pensei que apenas eu e os que lidam com crianças, sabemos do que falo. Apesar da individualização dos cuidados, da educação e do currículo, que tentamos todos os dias praticar, uma espécie de jogo de empurra institucional faz prevalecer as regras, a norma e o funcionamento coletivo sobre a identidade e a pessoa de cada criança. E nós, e eu, desatamos a querer que se todos se comportem como achamos que se devem comportar. Exigimos silêncio, interiorização rápida de rotinas, compreensão dos instrumentos de trabalho, interação positiva com os pares, partilha, amizades fortes. E participação. 

Como se tudo isto não demorasse uma porção de tempo a construir e não fosse, para muitas crianças, uma novidade e uma outra forma de se sentirem tratadas. Até ver e porque são inteligentes, as crianças, muitas crianças, desconfiam, necessitando de contestar para confirmar o que é realmente verdadeiro. E sério. E para sempre adotado naquele espaço que agora frequentam. Sem dias de folga e sem ambivalências.

Tudo isto vem a propósito da última reunião de conselho e de, sendo a segunda do ano, com tantos meninos pequenos e novos, não ter corrido de feição. Conversas cruzadas, que a amizade já é mais alegre e boa de se sentir, distrações e espreitadelas por baixo da mesa, vários papéis para escrita porque muitos querem ser secretários, pouca atenção à fala dos amigos. E eu a desesperar, e eu a exigir e eu a ficar triste com as dificuldades, ou melhor, com o tempo que será necessário para que aprendamos o sentido de fazer uma reunião. E eu a esquecer-me das minhas decisões de dar tempo para a aprendizagem. E eu a querer que o modelo funcione com um estalar de dedos. E eu a vê-los como aluno, já crescidos, pois, e eles com três (e são seis com esta idade) quatro e cinco anos.

Não querendo ser simplista nem dogmática, devo colocar cada coisa no seu  lugar. Ser aluno não faz mal, é condição necessária e importante no correr da vida, para muitas destas crianças é um direito e uma condição de cidadania. Ser aluno não faz mal, desde que nós, os adultos, consigamos  manter em alerta permanente, o que sabemos e sentimos sobre as crianças, os seus trajetos de vida, as suas características e necessidades, ritmos e modos de aprendizagem.  Ser aluno é coisa boa se as nossas representações e práticas não entrarem em fuga para a frente, para alcançar a(s) meta(s) que predefinimos na cabeça e nos projetos curriculares. Para serem abandonadas? não, claro, para serem doseadas, comedidas e adequadas. Com bom senso e muita sabedoria. E calma. E com as crianças no meio delas. As nossas. As reais. As que estão connosco. Não as que imaginamos, para que tudo corra sem imprevistos, que  é coisa pouco provável em educação. 

E eu a pensar neste domingo, que escrever é uma forma de manter compromissos e alertar a minha consciência. Para melhorar a minha prática. Para dosear a minha tendência para queimar etapas...
As minhas crianças, que são também os meus  alunos, bem o merecem. E eu também.                    

sábado, 20 de setembro de 2014

Devagar se vai ao longe

Neste fim de tarde de sábado a minha rua está calma e as flores no meu jardim têm gotas de água nas pétalas. Choveu e uma estranha paz invadiu a paisagem em redor, deixando tudo liberto de ruído e agitação. O domingo aproxima-se a passos largos e por aqui descansa-se o corpo do cansaço da primeira semana de vida na escola. Entre risos, rostos expectantes, lágrimas e medos, lá fizemos a nossa entrada,  observando com olhar atento o ambiente da sala, as rotinas, propostas e tudo o que ia acontecendo, enquanto se acalmava o desconforto da ausência do(s) seu(s) aconchego(s). Umas lágrimas, pedidos de colo e abraços, liberdade para correr e rir, alegria por amassar e moldar, desenhar, pintar. 

Os dias foram intensos e exploratórios, curtos para alguns meninos, longos para outros. Mas pelo andar da carruagem diria que os nossos príncipes e princesas gostaram do novo reino em que se instalaram de corpo inteiro, como sempre fazem e é da sua condição. Uns mais que outros, pois, que somos todos diferentes ainda que todos iguais. Por mim, andei num virote e a equipa também, para atender a tanta solicitação e a tanta(s) infância(s). Também expectante, com alguns receios e cheia de mil cuidados, entre senti-los frágeis e fortes, calmos e ruidosos, a estabelecer os primeiros laços com outros, grandes e pequenos. No final da semana, o mais novo, que ainda não tem três anos, levantou o braço e falou, na reunião de avaliação. Falou com voz muito baixa, não ouvimos tudo, mas pudemos entender mãe, pai e ecola. Ajudámos e traduzimos e eu maravilhei-me pelo sentido da sua participação ao redor da mesa grande. Por aqui começa a construção do sentido de ser pertença de um grupo e do exercício da cidadania.

http://lh4.ggpht.com/_Ynkg-kVEqjA/Sdd4qi0qEoI/AAAAAAAAcCw/Vzih94_a8Bo/8.jpg?imgmax=640 Nesta semana, que correu veloz, inundou-me o desejo de ter tempo para dar tempo aos meninos e meninas e contrariar a lógica da produção a peso. A vontade que possa e saiba resguardar-me da corrida ao currículo, presa das aprendizagens que tenho que proporcionar para o sucesso escolar. A todo o custo e a todo o vapor. Nesta semana o desejo de ser como o caracol, andar com vagar e em cima de ervas fresquinhas. Com os olhos, em antenas, a ver o mundo. 

Aprendendo com tempo e calma. Para que todos tenham calma e tempo para aprender. Uma aprendizagem com sentido, conjugada na primeira pessoa do singular e do plural do presente do indicativo.
 
Relembro um texto que li. Aqui fica um excerto.

“A percepção das crianças enquanto Outros é o reconhecimento destas enquanto sujeitos singulares que são completos em si mesmos; pertencentes a um tempo/espaço geográfico, histórico, social, cultural que consolida uma sociedade especifica, onde meninos e meninas de pouca idades são simultaneamente detentores e criadores de história e cultura, com singularidades em relação ao adulto (Gobbi e Leite, 1999). Sujeitos de pouca idade sim, mas que lutam através dos seus desenhos, gestos, movimentos, histórias fantásticas, danças, imaginação, falas, brincadeiras, sorrisos, caretas, choros, apegos e desapegos e outras tantas formas de ser e de se expressar pela emancipação da sua condição de silêncio. Condição que lhes foi imposta segundo uma visão adultocêntrica, engendrada no caminho histórico- social trilhado pela humanidade e que, em alguns casos, insiste em reinar nos mais diversos contextos contemporâneos vividos pelas crianças”

Alessandra Mara R. Oliveira (2004), “Entender o outro (...) exige mais, quando o Outro é uma Criança: Reflexões em torno da Alteridade da Infância no Contexto da Educação Infantil” in  Manuel Jacinto Sarmento e Ana Beatriz Cerisara (Org.) Crianças e Miúdos Perspectivas sociopedagógicas da infância e educação. Porto. Edições ASA, pp 181-200

domingo, 14 de setembro de 2014

Arrumar ideias

Domingo. Aquele que antecede a chegada dos meninos e meninas da escola. A expectativa e uma ligeira inquietação, nem sei se lhe posso chamar assim, é apenas uma preocupação presente no(s) pensamento(s) e uma tremura no coração. Um pouco de exagero, talvez, mas é assim que sou e é assim que me sinto. 

A reunião com os crescidos já se fez, de novo a confirmação dos afetos e das desconfianças, animosidades declaradas que temos que entender e aceitar, sem perder a compustura e empatia, não é contra a nós é contra o mundo e projetam-se ali, medos e outras histórias antigas, lembranças de infância mal resolvidas, representações não positivas da escola, que fazem lançar garras e marcar território em defesa dos filhos. Rostos zangados, palavras duras, com receio de exclusão. Apenas a compreensão e a racionalidade permitem estabelecer pontes, ainda que frágeis, para iniciarmos o ano com o máximo de cuidado, educação e clareza. Uma proeza nem sempre conseguida num primeiro contacto. Acreditemos que tudo se vai recompor e ficar no lugar certo, que é o lugar do respeito, da cooperação e aliança(s). Para que as crianças cresçam mais fortes, mais tranquilas, mais livres e poderosas.
http://3.bp.blogspot.com/-KqlZEhoDeQY/TgT-s9HE3jI/AAAAAAAAGtA/_X2WTOPcUPU/s1600/Pablo+Picasso+-+Tutt%2527Art%2540.jpg 
Assim estou neste domingo, rebobinando as lições de vida e de profissão que fui aprendendo ao longo do tempo, na mira de encontrar os melhores meios para comunicar eficaz e afetivamente com as crianças e as familias. Apesar de banal no quotidiano dos educadores, esta é uma matéria delicada, que não se pode negligenciar, apenas resulta quando atende e se adequa ao ambiente social e comunitário onde a escola se insere. Implica um bom senso extraordinário e a resolução de dilemas quase diários, nem sempre claros e visíveis, entre o que os profissionais são e defendem e os projetos das familias. Como são, como amam as suas crianças, que condições, valores e modos de vida vivem e defendem. 

É preciso olhar e ver com olhos de ver e entender. É obrigatório não rotular, antes oferecer outra(s) formas de ser e fazer. Com cuidado e sem pressas. Para impregnar o quotidiano de diversidade(s), para abrir horizontes e lutar contra os guetos.  

Assim estou. A organizar-me para acolher o melhor possivel. Razão, coração, saber, sensibilidade. Sem esquecer que os escolhi. Eu e toda a equipa

 .  

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Escolhas

Escolhi-os. Apesar das dificuldades, de dias cheios de dúvidas, de um cansaço quase permamente, de sentimentos ambivalentes e pouco gratos que me acompanharam quase todo o ano, quando chegou a hora da decisão...escolhi-os.

As escolhas são situações quase sempre dilemáticas, que mobilizam os nossos afetos e a nossa razão e sobretudo um quadro de principios e valores que carregamos junto à pele e que por isso, nos transformam no que somos, compondo a nossa identidade e as lentes com que vemos e lemos o mundo. Escolher, em liberdade, é optar por uma coisa em vez de outra, o que nos fazer perguntas, criar listas de prós e contras, afinar o que queremos e o que nos move, deslocarmo-nos errantes entre o sim e o não.  Escolher pode ser mais ou menos ponderado, mais ou menos discutido, mais ou menos surpreendente. Ou uma opção que confirma a nossa teimosia e imperativo(s) ético(s). 

criancas-bricando-mundo-2Lembrei-me de tudo isto, hoje, na sala, enquanto dava mais um jeito no espaço, organizava os processos dos meninos e meninas, pensava nos poemas a colocar para bem acolher as familias no dia da reunião, selecionava os livros que hão-de acompanhar o riso e o choro dos nossos primeiros dias.  

Escolhi-os. Aos que transitam do ano anterior e aos que iniciam esta caminhada a vinte e cinco vozes. Contra o esperado e contra ventos e marés, escolhi-os. E não iria falar disso se hoje, a lucidez não me tivesse assolado e um bocadinho de frio não me invadisse a barriga e o coração. O receio de viver de novo com as crianças o que não é suposto ser vivido. O receio de me confrontar de novo com infância(s) que parecem não ter essa condição, como direito e garantia de igualdade e equidade no mundo.

Escolhi-os. Se não o fizesse quem o faria? Se não o fizesse como iria conviver comigo e com a convicção de que todas as crianças merecem espaços de aprendizagem, estabilidade e afeto, para poderem crescer com apreço, reconhecimento, bem estar, autonomia. E que as mudanças são processos lentos, inconciliáveis com desistência(s).

Escolhi-os, porque não podia ser de outra forma. Se assim o fiz, é prudente que me capacite e me prepare para os seus risos e todas as vitórias que vamos conseguir juntos. Não posso olhar para o ano que vai iniciar sem esta premissa. Escolhi-os.

domingo, 7 de setembro de 2014

Devaneio

Poderia sempre dançar ao vento e rir desalmadamente, mas o corpo hoje não lhe fazia a vontade, nem o riso saia liberto do seu rosto de mulher ausente. Perdida na floresta dos afetos, esperava o render do sol, esse que acontece nos fins de tarde de dias inaugurais. Dias extensos e perfeitos, fantásticos, com taças de vinho em mesas de acolher amigos, ladeadas por vasos de amores perfeitos moldados no atelier da casa. Uma casa grrande, com janelas largas para ver o mundo, nunca se quisera fechada em laboratórios de estudar e conter vidas por decidir.

http://zildetenovaes.no.comunidades.net/1348734442/101_me_nat1.jpgCansada da rigidez do corpo, espreitou a cascata da água, molhou as mãos e lavou a cara, como quem limpa uma alma cansada. E assim ficou à espera do tempo novo, em cima do tronco da árvore mais frondosa do sua planície de desejos, rosto encostado às folhas que pendiam dispersas e viçosas. Assim se deixou estar, braços e pernas a baloiçar, olhos fehados, sentidos alerta. Sentia a brisa do vento, o quente do sol, a espuma do mar, os beijos da mãe.

E assim permaneceu até ao cair da noite. Pela madrugada enlaçou-a um sonho de futuro, uma vontade de germinar estrelas, a certeza serena de fazer caminhos. E por aí se foi, agitando o corpo para retomar postura, equilibrar contrários e refazer os sonhos. Outros que não estes, de paisagens perfeitas em fins de mundo passados.

Procurou a chave e voltou a casa. Confirmou que tudo estava como sempre, em lugar certo e seguro. Só depois se fez à vida, certa da estranheza da noite, necessitada da rotina dos dias.
De novo se projetou como autora do seu tempo, com raízes e chão. Sem histórias e falsas fugas de encantar.

sábado, 6 de setembro de 2014

Construir a escola, pensar a pedagogia

Estava à sua frente e podia ouvir e observar, com clareza e proximidade, as suas palavras e gestos. E apesar de não ser a primeira vez, de novo me surpreendi e me interroguei, confrontando a idade, a lucidez, o saber e a indignação. A capacidade e a coragem para se dizer e dizer um coletivo, sem azedume, mas determinação. Tudo em voz suave, com algumas palavras mais altas e fortes, saídas um pouco em sobressalto e inquietação, sem contudo se atropelaram ou confundirem. Um discurso claro, para uma critica sem disfarces ou concessões, a não ser aquelas que derivam do seu respeito e afeto pelos seus companheiros de jornada e profissão. Um afeto feito presença, com atenção e quase sempre, delicadeza.

E espantamo-nos, eu espanto-me, neste tempos conturbados de vida à deriva, com a sua força e resistência, a sua luta e sonho por uma escola como uma casa de cultura, com uma socialização democrática, onde a aprendizagem se faz pela apropriação do currículo, através do uso de diferentes linguagens, faladas e escritas, entre pares e entre adultos. A revindicação de uma escola que defende os Direitos Humanos, no aqui e agora do seu quotidiano, com profissionais com brio e coragem para dizer não aos atropelos e à negação do desenvolvimento das pessoas que fazem as escolas.

http://www.crismenegon.com.br/portal/images/educacao/material-escolar-38-95_1.jpgE eu espanto-me e confirmo o saber que tem e mostra, mastigado assim e devolvido numa reflexão histórica e politica, assombrosa, a reafirmar que a educação e o ensino não se devem aninhar em nichos de neutralidade, mas antes combater o fascismo, é terrivel quando o fascismo entre no nosso sangue. Estremecemos porque nos inquietamos com essa possibilidade.

E eu espanto-me com a veemência, a liberdade, a profundidade e a quase leveza das suas palavras, quando para e pelo meio, desoculta com um sorriso, o tom e algumas palavras utilizadas, como que amenizar o ar e o silêncio que se respira.. E espanto-me com a juventude, perguntando-me onde vai renovar a energia  para combater o presente e o furo. 

Não gosto de venerar pessoas nem fazer heróis que ofusquem a capacidade de pensar, agir, criticar. Não gosto de seguidismos cegos. Mas gosto e reconheço a importância de pessoas que ajudam a manter vigilantes os nossos princípios, a nossa coragem e as nossas práticas pedagógicas. Em escolas que respeitem a herança cultural e democrática dos direitos humanos e da cidadania para todos.

Escrevo e falo de Sérgio Niza. Obrigada por atualizar, recorrentemente, a indignação e o combate, o sonho e o saber, os principios e as práticas de uma profissão que se deseja inteligente, critica e digna. Dos professores, das crianças e da(s) comunidade(s).

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Renovar os afetos...brincar às mães

Olhou para mim, sorriu e veio a correr. Leve, deu um salto para os meus braços que já estavam estendidos, pelas saudades. Reparei nas suas trancinhas meticulosamente feitas, no brilho dos olhos, no que tinha crescido, na canção que trauteava em surdina, enquanto brincava com uma boneca, depois de ter saído do meu colo. E quando me encontrava a falar com outros adultos, veio de repente e ofereceu-me um bolo que acabara de fazer numa panelinha, mexendo devagar:
- queres? 
- sim, claro, é de quê? 
- é um bolo de tomate...
- tomate? nunca comi...e leva mais o quê? 
- arroz...
- ah, se calhar fizeste o almoço...arroz, tomate...e mais o quê?
- carne...gostas?
- está muito bom...embora eu goste mais de peixe...mas o tomate está muito bem temperado e o arroz delicioso...
Depois serviu-me um café, que fez numa cafeteira pequenina de plástico. Encheu uma chávena e perguntou
- muito ou pouco?
- meia chávena, tenho que ter cuidado, já bebi café, hoje
http://cdn1.sempretops.com/wp-content/uploads/foto-boneca-de-pano-06.jpgDepois ainda falámos ao telefone e ela disse-me que a mãe tinha ido trabalhar. Dei-lhe um beijo e vim-me embora, contente de a ter encontrado e de com ela ter brincado ao faz de conta, por sua iniciativa. Tal e qual como se estivessemos na sala, ela a explorar a sua área preferida e a oferecer-me comida ao longo da manhã, quase todos os dias. Com riso e compenetração. E está certo, porque quando lhe perguntei um dia o que queria ser quando fosse crescida, respondeu-me "mãe, para dar comida e tratar do bebé...". Ora essa é uma tarefa e uma função que exige muito treino e cuidado, num exercício diário constante.

E assim foi hoje também, de novo. Podem vir férias e muitos dias sem escola, mas depressa se repete e se ritualiza o que para nós foi, e é, gostoso bom e verdadeiro. Não há longe nem distante para quem se quer bem e se enlaçou com pedaços de brincadeiras sérias e doces. De bolos e almoços.

Retomo dentro de mim a ideia de que vai ser bom voltar a brincar e a aceitar comidinha saborosa feita pelas crianças. E observar, em interação dialógica, as suas aprendizagens de serem pessoas no mundo.