segunda-feira, 30 de junho de 2014

Antecipação

Oiço os pássaros e vejo o laranja do céu deste fim de tarde. O silêncio é de oiro e a leveza do ar um bem para respirar. Cansada de tanto trabalho escolar, escapo-me por instante às tarefas e perco-me na luminosidade do sol. Penso no tempo que há-de vir. Imagino o mar, fresco e convidativo, a pele queimada, o calor do sol, o relógio perdido entre a toalha de praia e o creme. Objeto inutil nessa estação de ócio e muito descanso. Vai ser bom. Poder escrever quando tiver vontade, ler os livros há muito prometidos, demorar-me em todas as pequenas coisas que à minha voltem circulem, vozes com risos, grãos de areia colados à pele, conversas soltas com amigos, passeios à beira-mar, olhos fechados a sentir o tempo a passar, lento e doce, quase meigo e amigo.
Depois rumar ao norte e apear-me na minha terra, os milhos altos, a broa e a fruta do aido, a água fresca do poço,  o vento a soprar, o tempo mais fresco, acordar tarde e apreciar os pássaros no beiral da casa. Varrer a eira e montar a mesa cá fora, para uns pequenos almoços com amoras colhidas num caminho ao pé do braço da ria. Vai ser bom.

Até lá, ainda há muito por fazer. Reunir com as familias, conversar sobre o ano que passou, explicitar de novo percursos e aprendizagens, partilhar avaliações, organizar o próximo ano letivo. Pegar nas melhores palavras para dizer ao que vim, que o ano foi longo e de contantes adaptações, escola nova e cultura encrustada nas paredes, nos hábitos e nos gestos de quem lá  vive. Respira-se, absorve-se, rejeita-se, reconstrói-se. Com algum espanto, dia após dia, numa luta invisivel contra o instituído, o deja vu, ensaiando passos continuos para uma educação cooperada. Entre todos e com todos, para que ninguém fique de fora e à margem, ainda que saibamos que este caminho é sinuoso, improvável e dificil de escalar. E a meta, um objetivo sempre a alcançar. Pensamos que já chegámos e falta sempre um bom bocado.

Regresso às minhas tarefas.  Já não falta tudo. Vai ser bom terminar e descansar de tanta fadiga. Vai ser bom ter o mar por perto e o tempo a passar sem relógio que o controle. Vai ser bom...


sábado, 28 de junho de 2014

E se os deitasse fora?

Sábado, dia de escrita, alguma preguiça e arrumação de ideias. E da casa, tarefa um pouco mais fácil que a anterior. Porque arrumar a cabeça implica arrumar o coração, esse músculo imparável que às vezes (muitas vezes?) se mói com a vida  e nunca fica calado. E quando queremos arrumar o coração, nem sempre temos as gavetas disponiveis e os utensilios necessários para fazer face à tarefa, como quando arrumamos a casa. Arrumar a casa é muito mais fácil e torna-se até um momento de relaxamento e distração. Arrumar o coração e a cabeça já exige mais esforço e parece tarefa nunca totalmente cumprida.

Por hoje a casa já levou um bom avanço, o coração nem por isso. Nem a cabeça. Cheia de coisas, algumas um pouco tolas, não precisavam de se misturar assim disfarçadas com as imagens do jantar de ontem de fim da formação, que um grupo de professores se disponibilizou a fazer, apesar do fim do ano e do cansaço. Foi um convivio interessante e bem disposto entre formandas e formadores - estes atores - no bar de um teatro, que foi o nosso palco durante 25 horas. Ainda bem que resisti ao cansaço e não desisti. Aprendi, relacionei-me e pensei para além da escola, ainda que com ela sempre presente. Assunto bom e assunto arrumado, sem querer dizer esquecido, até porque ainda falta fazer o relatório e num futuro próximo canalizar as aprendizagens para a prática pedagógica.  Mas por agora ficámos assim. 

O coração e a cabeça é que não. Decidiram, sem me consultarem, arrastar outras coisas para este sábado, tornando-se um pouco incómodos. E se os deitasse fora? A sério, bem que precisava, cansam-me, deixam-me um pouco estonteada, feita barata tonta, a cirandar para cá e para lá, a esquecer-me onde ponho as coisas, a repetir gestos, a parar para espreitar o verde das árvores. 

Por isso vim escrever, há quem diga que isso organiza os pensamentos e a emoção. Talvez.  Para isso temos que enunciar as palavras certas que digam o que sentimos e experimentamos. Depois fazê-las deslizar  direitinhas ao longo das linhas, umas ligadas às outras, para que descansem e nos libertem. Acho que é assim. 

Mas hoje não sei fazer isso, porque o abecedário é limitado para o que a cabeça e o coração ditam. Seria necessário descobrir outras letras, capazes de traduzir a vagareza em que me encontro, a incomodidade - ainda que pequena -  a lenta, mas persistente, invasão do dia com memórias, cheiros e sons mal definidos, atrapalhados e  nada razoáveis, para um dia de sábado, que se quer descansado e ligeiro.
Volto para a minha tarefa mais fácil, arrumar a casa.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Diálogo sobre a escola

É um menino alto e magro, olhos grandes como as amêndoas e escuros como as noites quentes de verão. Vai fazer 7 anos em dezembro e falava com ele sobre a próxima etapa da sua vida escolar, o 1º ciclo, que vai iniciar noutra escola.  Dizia-lhe de mansinho, mas de forma assertiva, muito perto do seu rosto, os cuidados que havia de ter quando em setembro, começasse a escola. Ele ouvia-me, olhos presos aos meus.
- Vais tomar muita atenção, ouvir as explicações da professora, cuidar dos teus cadernos, fazeres com calma o que for para fazer, tu aprendes bem, és um menino interessado, simpático...
Dizia que sim com a cabeça, mexendo na camisa com as mãos, sem desligar o olhar do meu. 
- Vais fazer muitos amigos, conhecer uma escola nova muito bonita, brincar muito nos intervalos, vais aprender e divertir-te.....e quando não souberes alguma coisa, pões o dedo no ar e perguntas à professora. E ela explica-te. A melhor maneira de aprender é fazendo perguntas, lembras-te?...vai ser bom e vais ser muito feliz, eu sei. 
O menino, sempre calado a ouvir, abriu a boca e disse, com voz baixa
- Só não sei quem me vai proteger...
Parei de repente. E emocionei-me. Pois claro, tinha falado de tudo, dado uma volta com as palavras acerca das aprendizagens formais, aflorei o lúdico e a brincadeira, mas não tinha dito o fundamental para o menino, este menino. Recompus-me e disse:
- A professora, todas as professoras da escola e todos os adultos que sabem que têm que proteger as crianças. Vai ser assim. E se no principio ainda não te conhecerem e tu não conheceres ninguém, vais para ao pé da D. e ela protege-te.

Chamei a menina que também anda nessa escola, é mais velha e por um feliz acaso estava connosco nesse dia e contratualizei a proteção.  E ela disponibilizou-se para assim fazer e o menino sorriu.

Depois foram brincar, a correr e fiquei a pensar no conhecimento que as crianças têm sobre si mesmas, sendo capazes de expôr as suas necessidades e simgularidades. E como isso às vezes é surpreendente e absolutamente claro, como no caso do menino em questão. E como apesar de sabermos, nem sempre atendemos a esta sensibilidade e sentido de si. 

Neste dia vim para casa a pensar na minha proteção a este menino e como isso foi determinante para o seu crescimento. Espero também ter-lhe dado asas para voar e força para conviver com os outros e as aprendizagens que hão-de vir. Espero não o ter protegido demais. 

terça-feira, 24 de junho de 2014

Monólogo

Não sei como dizer-te que precisas de respirar junto às árvores, olhar de perto as suas folhas, demorares na sua beleza e encanto. Assim, de mansinho, deixar o verde invadir a alma, para  que o corpo se liberte do seu peso e das suas mágoas

Não sei como te levar a ver o mar, sentar-te numa rocha lisa, salpicada com bocados de algas e pequenas conchas partidas, para que possas a apreciar o movimento das ondas na areia que brilha, tal qual as pérolas, que são raras, mas existem. Não sei como te aquietar dos medos, esses que transformaste em coisas permitidas, mas que parecem um polvo gigante a perturbar o cair das tardes. Não sei como te mostrar a poesia, palavras que embrulhamos em nós como mantos sagrados e nos protegem das tempestades secas de desertos, atravessados por guerras que inventamos. Ou inventam para nós.

As espécies mais utilizadas são Jabuticabeira, Laranja, Mexerica Pitanga, Romã, Macieira, Kiwi e Amora / Shutterstock / Mazzzur Não sei como te empurrar para o futuro, de peito aberto, sem que tenhas medo de cair nos precipicios medonhos que ladeiam as estradas que desenhaste em mapas imaginados no decorrer de noites de solidão. 

Quero que fiques assim, lavado de histórias antigas, sequioso de novas marés, a espreitar os dias longinquos carregados de promessas como uma macieira madura do jardim cuidado de uma casa. Não sei como te ajudar a construi um lugar, o sitio certo para morar o amor que trazes contigo e permanece virgem de apeadeiros seguros.

Não sei como te apoiar na luta contra tempestades e dias escaldantes. O sol vai chegar forte e abrasador e não tenho um chapéu para te emprestar.
Espero que consigas uma sombra grande para te abrigares, sendo certo que deves deixar livre as mãos e a esperança para apanhar a liberdade que vai passar por aí.
Eu sei que vai, só não sei como dizer-te e fazer-te acreditar.

domingo, 22 de junho de 2014

Dia de festa

É sábado.
Manhã de rotina, comprar o jornal e beber o café, ler as gordas e respirar. Apreciar o sossego matinal e o silêncio, sobretudo o silêncio, depois de uma semana cheia de ruídos, vozes, choro e risos de meninos e meninas. Como sempre e ainda agora.
Ontem foi dia de muito riso e alegria. Fizemos a festa de final de ano, evento discreto, à dimensão das crianças, que os grandes programas, pomposos e muito ensaiados, não são coisas de pequenos. Mas teve cor, música e danças, gel no cabelo, unhas pintadas de azul, flores no cabelo e na lapela. Assim escolheram os atores principais. Os grandes propuseram uma dança tradicional de roda e um rap. Dançado em muitas variações, com gestos de cu duro e danças ciganas. E até ballet. A diversidade é coisa para manter e coreografar os dias da nossa vida, para dizer ao mundo quem somos e afirmar as nossas origens e identidade(s).

O cenário ficou cheio de trabalhos coletivos, feitos durante o ano, pinturas de outono e primavera, um pano com os direitos das crianças, um quadro com colagem de rostos de crianças, uma pintura grande com as nossas pegadas, muitos traços e manchas e cor, feitos pelas nossas mãos. A divulgação das nossas obras é coisa para mostrar às familias e comunidade, para que a infância possa ser mais amada e respeitada. E entendida.

As familias subiram ao palco, para um abraço mais próximo e a entrega de um diploma a elas dedicado, confirmando que a sua presença é coisa para se alimentar e provocar, em todos os dias do ano. E para aprender e usufruir, que a vida tem que ser contrariada e quem vive na sombra tem direito à luz dos holofotes e a momentos de reconhecimento e afeto. Na escola e fora dela.
Depois lambuzámos a boca e os dedos com bolo de chocolate, torta de laranja, bolachas, gomas. Coisas de festa, doces e sumo a descer pela garganta, que a fome e a sede têm que ser saciadas, depois de uma festa de emoções e alegria.
Ainda houve tempo para pinturas de pais e filhos, avós e netos, tios e sobrinhos, primos e vizinhos, que as familias são diversas e refeitas com o correr do tempo e dos amores, do azar e da sorte, mas continuam a ser o colo onde as crianças dormem desde o dia em que nasceram, ainda que nem todas.

Ontem foi um dia bom. Uma festa curta, mas cheia. Lembro-me das crianças e da sua alegria. E da sua competência para se mostrarem, ligando palavra, dança e riso. Ninguém viu os enganos, a roda pouco redonda, os movimentos ao contrário, a distração a olhar para o publico. Isso foi apenas um infima parte da performance dos meninos e meninas. A outra parte, aquela que nos enfeitiçou, foram os abraços, o brilho dos olhos, as conversas soltas e próximas, as fotos e as flores que foram para a cabeça das familias, a provar que todos podem ser atores do seu tempo e da sua vida.

Hoje bebi o café com mais confiança e sentido de missão cumprida. Por entre as gordas do jornal, ouvia e via os meninos e meninas e a sua alegria, o movimento dos seus corpos e o som da sua voz. Temos que continuar a apostar em tempos de luz, ainda que saibamos que os dias cinzentos irão continuar a existir. Que isso não nos demova, nem nos consuma a energia e a fé nas nossas convicções. Sobretudo aqui.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Palavras emprestadas: sou doutras coisas

Estive para aqui a remoer ideias e projetos, a sentir saudades, a organizar o tempo e a vida e encontrei este escrito, guardado num caderno de poemas, que escrevi em tempos, à mão.
O texto não é meu, mas serve na perfeição para dizer o meu estado e a minha condição.

Aqui fica

Sou de outras coisas
pertenco ao tempo que há-de vir sem futuro
e sou amante da profunda liberdade
sou parte inteira de uma vida vagabunda
sou evadido da tristeza e da ansiedade

Sou doutras coisas
fiz o meu barco com guitarras e com folhas
e com o vento fiz a vela que me leva
sou pescador de coisas belas, de emoções
sou a maré que sempre sobe e não sossega

Sou das pessoas que me querem e que eu amo
vivo com elas por saber quanto lhes quero
a minha casa é uma ilha, uma pedra
bulutlar,güneş,gökyüzü,sahil,sahil,gün batımı,deniz,gece,turuncu,tekneque me entregaram num abraço tão sincero

Sou doutras coisas
sou de pensar que a grandeza está no homem
porque é o homem o mais lindo continente
tanto me faz que a terra seja longa ou curta
tranco-me aqui por ser humano e por ser gente

Sou doutras coisas
sou de entender a dor alheia que é a minha
sou de quem parte com a mágoa de quem fica
mas também sou de querer sonhar o novo dia

Fernando Tordo  

sábado, 14 de junho de 2014

Bom tempo e preocupações

Fui ver o mar. Estava lindo e calmo e fresco. Sobretudo fresco. Palmilhei a areia e perdi-me nos pensamentos, iam e vinham e não se detinham, pareciam as ondas do mar. 
Fez-me bem o passeio matinal e acalmou um pouco as inquietações dos últimos dias. Não me retirou o peso dos ombros, nem o sentimento de estar só nesta espécie de cruzada contra destinos amargos. 

Confirmei em absoluto que o que é nosso não se divide, por mais solidários que sejamos. Um problema apenas pertence a quem o tem. Sim, claro, temos os amigos, os do peito, contamos e voltamos a contar, na secreta esperança que nos iluminem a narrativa, desejamos varinhas de condão e a realidade é o que é, e nós sózinhos, a destilar preocupações. E as preocupações não combinam com o tempo quente, programas de praia, cheiro a férias, gente fresca, interessante, gira e tantas outras coisas que alimentam o nosso ego e a nossa imagem de gente com sucesso. As preocupações não vão de bem com a cultura de felicidade com que nos queremos brindar a toda a hora, como se fosse proibido e pouco recomendável falar de pobreza, preconceitos, meninos aflitos, competências parentais e profissionais, equipas frágeis e tudo o resto. Nem sequer parece ser plausível duvidar da qualidade das nossas práticas enquanto educadoras. Não fica bem, dizem-me tantas vezes, não é bem assim, mas que exagero. Tu, então...

Viña del Mar Eu sim, eu às voltas com a realidade, ela a impôr-se e eu a querer ter um golpe de asa para a mudar, coisas pequenas é aquilo que desejo e sobretudo o respeito pelas crianças. 
Eu aflita, enliada nas tramas e mallhas do quotidiano, a rebuscar estratégias e a morrer na praia, depois de tanto esforço. 
É metáfora, sim, mas quase sinto a areia no corpo depois de desfalecer de cansaço. E não há onda que rebata esta maré.


Por tudo isto e muito mais, hoje fui ver o mar. Pensei umas quantas coisas e não obtive resposta. Mas o silêncio e o azul da água fez-me bem. 
E melhor que isso, ninguém me mandou calar para não assustar o dia maravilhoso que se anunciava. Ou para dizer, polidamente, vá deixa-te disso, que exagero... 

Não, não é exagero, é a realidade. Não posso é aqui falar dela claramente.