Fui ver o mar. Estava lindo e calmo e fresco. Sobretudo fresco. Palmilhei a areia e perdi-me nos pensamentos, iam e vinham e não se detinham, pareciam as ondas do mar.
Fez-me bem o passeio matinal e acalmou um pouco as inquietações dos últimos dias. Não me retirou o peso dos ombros, nem o sentimento de estar só nesta espécie de cruzada contra destinos amargos.
Confirmei em absoluto que o que é nosso não se divide, por mais solidários que sejamos. Um problema apenas pertence a quem o tem. Sim, claro, temos os amigos, os do peito, contamos e voltamos a contar, na secreta esperança que nos iluminem a narrativa, desejamos varinhas de condão e a realidade é o que é, e nós sózinhos, a destilar preocupações. E as preocupações não combinam com o tempo quente, programas de praia, cheiro a férias, gente fresca, interessante, gira e tantas outras coisas que alimentam o nosso ego e a nossa imagem de gente com sucesso. As preocupações não vão de bem com a cultura de felicidade com que nos queremos brindar a toda a hora, como se fosse proibido e pouco recomendável falar de pobreza, preconceitos, meninos aflitos, competências parentais e profissionais, equipas frágeis e tudo o resto. Nem sequer parece ser plausível duvidar da qualidade das nossas práticas enquanto educadoras. Não fica bem, dizem-me tantas vezes, não é bem assim, mas que exagero. Tu, então...
Eu sim, eu às voltas com a realidade, ela a impôr-se e eu a querer ter um golpe de asa para a mudar, coisas pequenas é aquilo que desejo e sobretudo o respeito pelas crianças.
Eu aflita, enliada nas tramas e mallhas do quotidiano, a rebuscar estratégias e a morrer na praia, depois de tanto esforço.
É metáfora, sim, mas quase sinto a areia no corpo depois de desfalecer de cansaço. E não há onda que rebata esta maré.
Por tudo isto e muito mais, hoje fui ver o mar. Pensei umas quantas coisas e não obtive resposta. Mas o silêncio e o azul da água fez-me bem.
E melhor que isso, ninguém me mandou calar para não assustar o dia maravilhoso que se anunciava. Ou para dizer, polidamente, vá deixa-te disso, que exagero...
Não, não é exagero, é a realidade. Não posso é aqui falar dela claramente.




