sábado, 14 de junho de 2014

Bom tempo e preocupações

Fui ver o mar. Estava lindo e calmo e fresco. Sobretudo fresco. Palmilhei a areia e perdi-me nos pensamentos, iam e vinham e não se detinham, pareciam as ondas do mar. 
Fez-me bem o passeio matinal e acalmou um pouco as inquietações dos últimos dias. Não me retirou o peso dos ombros, nem o sentimento de estar só nesta espécie de cruzada contra destinos amargos. 

Confirmei em absoluto que o que é nosso não se divide, por mais solidários que sejamos. Um problema apenas pertence a quem o tem. Sim, claro, temos os amigos, os do peito, contamos e voltamos a contar, na secreta esperança que nos iluminem a narrativa, desejamos varinhas de condão e a realidade é o que é, e nós sózinhos, a destilar preocupações. E as preocupações não combinam com o tempo quente, programas de praia, cheiro a férias, gente fresca, interessante, gira e tantas outras coisas que alimentam o nosso ego e a nossa imagem de gente com sucesso. As preocupações não vão de bem com a cultura de felicidade com que nos queremos brindar a toda a hora, como se fosse proibido e pouco recomendável falar de pobreza, preconceitos, meninos aflitos, competências parentais e profissionais, equipas frágeis e tudo o resto. Nem sequer parece ser plausível duvidar da qualidade das nossas práticas enquanto educadoras. Não fica bem, dizem-me tantas vezes, não é bem assim, mas que exagero. Tu, então...

Viña del Mar Eu sim, eu às voltas com a realidade, ela a impôr-se e eu a querer ter um golpe de asa para a mudar, coisas pequenas é aquilo que desejo e sobretudo o respeito pelas crianças. 
Eu aflita, enliada nas tramas e mallhas do quotidiano, a rebuscar estratégias e a morrer na praia, depois de tanto esforço. 
É metáfora, sim, mas quase sinto a areia no corpo depois de desfalecer de cansaço. E não há onda que rebata esta maré.


Por tudo isto e muito mais, hoje fui ver o mar. Pensei umas quantas coisas e não obtive resposta. Mas o silêncio e o azul da água fez-me bem. 
E melhor que isso, ninguém me mandou calar para não assustar o dia maravilhoso que se anunciava. Ou para dizer, polidamente, vá deixa-te disso, que exagero... 

Não, não é exagero, é a realidade. Não posso é aqui falar dela claramente.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Em jeito de oração

Apenas quero ir dormir para descansar, se for capaz. 
Apenas quero que a noite termine e o dia amanheça com outra luz e outro destino e que haja espaço e tempo e sossego para ver os meninos entrarem na escola a sorrir e a correr. 
Apenas desejo que hoje todas as crianças, algumas que conheço, tenham um sono tranquilo e que a sua respiração alcance um ritmo sereno e morno. Em lençois lavados com mãos de amor.

Apenas espero que o  amanhã e todos os dias que hão-de vir se possam apresentar com boas novas, emolduradas com a brisa do mar e a justiça dos homens.

Estou cansada de destinos encrustados nos dias e nas rugas de gente que por mim passa. Apenas necessito da esperança e da fé de alguns milagres, simples e claros, o riso das crianças em manhãs de primavera, o pão na mesa de mães e pais, o amor suave a vencer a escuridão do medo e das trevas.

Que assim seja, amanhã.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Tarde de formação

Feriado, 10 de junho. Tempo livre, tempo de descanso.
Bem, nem tanto, de tarde tenho três horas de formação na Companhia de Teatro de Almada, denominada "Oficina de teatro", em conjunto com outros professores, para pensarmos e discutirmos e aprendermos coisas sobre a matéria em causa, mas também para no sensibilizarmos para a importância de sermos agentes ativos para aproximar a vida das crianças e jovens destes espaços de cultura. Para que a escola tenha mais arte e os currículos possam alargar-se e sairem das suas fronteiras tantas vezes comprimidas, rígidas e demasiado escolares.

aulas-de-teatroEstou a gostar, apesar de um horário algo carregado, para um final de ano letivo. Mas chego a cada sessão, às vezes ligeiramente mal disposta e cansada, até um bocadinho arrependida desta minha decisão, e tudo passa, porque me apaixona discutir com outros o sentido da escola, a nossa importância como arautos de outras culturas e formas de pensar a educação, o ensino, os meninos e as meninas. Os alunos. E as familias e as comunidades educativas. E claro, aquilo que se aprende sobre teatro.

Hoje, é um bom programa, para que possa sair de casa e me misture num grupo de pessoas que andam à cata de serem melhores profissionais e construirem redes de apoio nesta aventura de ser professor. A mim vai-me ajudar a relativizar a missão não cumprida de ontem que ainda paira no ar e dentro de mim. Como um insucesso. Manda o bom senso que me lembre e acredite num ditado que a minha avó tantas vezes dizia: o que não tem remédio, remediado está.

E sacudia os ombros e ia para a frente, a fazer caminho. Sou menos decidida e mais arrastada e pegada às situações... sempre a pensar que eventualmente teria remédio, se...e se...e se...

Vai-me fazer bem ir para a formação. 


segunda-feira, 9 de junho de 2014

E quem disse que era fácil?

Decididamente, este não é um tempo fácil. 
Irrompem por muitos lados situações menos tranquilas, comunicações apenas para um dos lados, eu a falar das crianças e as familias a vê-las noutro sentido. E está certo, assim é que é, assim é que deve ser, uma educadora é uma educadora, uma mãe é uma mãe. Eu não os carreguei na barriga, carrego apenas umas quantas horas ao longo dos dias e nem sequer é dentro de mim. É muito ao colo e muito perto do peito, mas não é de facto, cá dentro. E isso faz toda a diferença. O que eu gostava era que as diferenças de olhares se completassem, se entendessem para alcançar estratégias conjuntas. E pontos de vista que não se anulassem - ou isto ou aquilo - mas se ampliassem - istou ou aquilo e mais isto e mais aquilo. Porque a vida não é uma sinfonia a dois andamentos, mas a muitos. Aliás, a vida não tem só andamentos, tem também muitos desandamentos.

Tudo isto a propósito de transições de ciclos e dos meninos e meninas estarem mais ou menos capazes de seguirem em frente, com autonomia, segurança, aprendizagens, sentido social e individual do "escrever, ler e contar". E nós sabemos que num percurso de vida até aos seis anos, estas conquistas têm diferentes expressões, significados e importância para os meninos e meninas que estão numa sala. Por muitas coisas, que vão desde as experiências familiares e sociais, até aos interesses individuais, estilos de aprendizagem, modos de ser, competências e aptências ... e sei lá mais quantas outras coisas. O que nos resta decidir é se já é tempo de partir para um mundo onde as aprendizagens formais do ler escerver e contar se transformam nas prioridades de ensino e aprendizagem, durante cinco horas por dia, cinco dias por semana.

E há meninos e meninas que ainda não estão prontos. Mais novos - em meses e maturidade - necessitam ainda de uma imersão mais profunda em mundos de projeto(s), com letras e números e pintura e desenho e recorte e colagem e dramatização e música e movimento...precisam ainda de aprender a estar com atenção e a descobrir dentro de si, o desejo e a necessidade de investirem, com autonomia, em aprendizagens autênticas e significativas para si. E mais importante ainda, precisam de aprender a serenar o medo, a inquietação, a disputa, a zanga fácil, a birra e a impaciência. Para ficarem mais ordeiros? Não, para que a cabeça e o coração sosseguem e fiquem libertos para aprender, que é sempre um ato que necessita de espaço e de uma vida emcional mais ou menos resolvida. Claro que nem sempre é assim, mas é maioritariamente assim. Como dizia João dos santos "tire a mãe da boca e aprenda a matemática com as tias". Queria ele dizer que era necessário estar de bem com os nossos afetos mais próximos, para poder aprender com os outros, tias ou professores.

E era isto que eu precisava de ter dito, hoje, mas não desta forma, claro. Falei do que foi possivel e como foi possivel e não me fiz entender como gostaria. Ou melhor, não consegui vencer uma representação de escola como espaço que deve, desde muito cedo, estar presente na vida das crianças, em vez de um jardim de infância, porque "aqui só se brinca e assim não se aprende". Compreendo. Já li e vivi o suficiente para compreender esta ideia e o seu significado na vida das famílias, nomeadamente nesta comunidade. É natural que assim pensem.
Mas compreender, neste caso, não ajuda ao meu sentimento de missão não cumprida. Decididamente este não é um tempo fácil.

sábado, 7 de junho de 2014

Fontes de vida

Vai ser noite e o sol vai-se deitar. Percorro com o pensamento os campos da minha infância e juventude, rasgo paisagens e deito-as fora, arrumo outras com ternura paciente, dão algum cansaço, mas não as quero fora de mim, estão tatuadas na pele e na memória. Apagá-las seria um gesto imprudente. 

Neste vai e vem entre o gosto e o desgosto, surgem-me rostos imperfeitos e amados, gente de carne e osso, risos e lágirmas, cachos de uvas em cestos de vime, o cheiro da palha dos cabanais, as gotas de orvalho no verde do musgo, abelhas à volta das flores do jardim. Um gato a beber leite num prato velho em cima da eira.  E o sol da tarde e o fresco da manhã. E as cantigas à volta das espigas de milho, trabalho feito na eira pelas mulheres da casa e as vizinhas.

Entre os cheiros e as palavras, moça me tornei, curiosa e inqueita, atenta e pouco ordeira, que a vida se fundou regateada entre sonho e realidade. Entre a norma e a urgência, entre o ficar e o partir. Se não vou a pé, fujo em pensamento, remato em palavras, desdigo em rebelião. Assim foi.

E foram percorridos todos os caminhos, alguns atalhos entendidos como avenidas, espaços de liberdade e contramão, que a vida também se faz ao contrário, começar pelo fim para chegar ao principio. Doridas ficavam as pernas de andar para trás, às arrecuas, mas o treino deu-lhes o o jeito e o balanço certo para, em altura própria, correr para a frente. Uma espécie de refazer o que tinha sido menos bem feito. Retomar o percurso em tempo e espaço próprio.  Com avanços e sem medo.

Neste vai e vem de fim de tarde, guardo todos os amigos que me foram mostrando o norte, em diferentes mapas e latitudes, com a sabedoria de guias encartados e o cuidado de uma amizade fiel. Sem me prenderem os movimentos e amordaçarem os sonhos. Ali estavam ao som de um murmúrio e uma chamada urgente, prontos para acolherem penas ou saudarem vitórias. Discretos e destemidos, assim os sentia e assim os retinha como fonte de inspiração e navegação nas águas que escolhera para a bom porto chegar.
Amigos do peito, alguns ainda de hoje.

Neste vai e vem de fim de tarde, guardo a familia, esse primeiro caldo e lastro de todas as jornadas, umas felizes outras menos, as mãos da mãe, de volta dos cuidados diários, a sopa e a festa, a sua tenacidade e amor, as sentenças da avó, histórias de muitas vidas, o riso e a ternura do irmão, primeiro amigo de todos os dias e revelador de futuros, a alegria e a coragem da prima, a prontidão de tias, mulheres fortes e resistentes. Guardo-lhes o riso, as rugas, os abraços e as palavras.

Das palavras, minhas e dos outros, fui fazendo a minha casa na árvore, a cama no chão, o meu pranto e a minha alegria. Mastiguei-as e devolvi-as ao papel, num esforço de entender todas as consoantes e vogais dos verbos que me alimentavam o presente, ilustravam o passado e alvejavam o futuro. Por elas e com elas, namorei a vida e os amores, persegui sonhos e combati dúvidas, desdenhei destinos. 
Fiz-lhes figas. Nem sempre ganhei, mas ganhadora estou de uma vida preenchida. E não falei de tudo, porque de tudo não se pode falar.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Já?

Quase no fim da semana e quase no fim do ano. Letivo, pois, porque o outro só chega em dezembro, carregado de frio e luzes de natal. Não estamos ainda no inverno.
Por estes dias, de primavera a caminhar para o verão, o cansaço espreita a toda a hora, de manhã já nos cerca ligeiro, mas a fazer notar-se, parece que não houve noite para o espantar e ele ficou colado a nós,  fiel e teimoso, à espera das férias que ainda tardam a chegar. É um cansaço poderoso, obriga-nos a suspiros e pensamentos constantes, uma espécie de instrospeção, ainda que em pequenas doses, porque as crianças nos rodeiam e precisam de nós e é tudo intenso e quente e em turbilhão. Nunca foi de outra forma.

Estamos no final do ano e invade-me um sentimento de estar ainda quase no início. Não é explicável, nem razoável, sei que é junho, mas persegue-me um não sei quê de desconfortável, como se ainda tivesse quase tudo para fazer com os meninos e as meninas.
Ponho-me a pensar em quantas propostas de trabalho deixei cair, o que ficou por completar, o tempo utilizado a compor choros e lamentos, feridas de dedos e beijos e pensos, mãos agarradas à bata e às pernas, empurrões para ter colo, corridas na sala em disputa de brinquedos e desenhos.

Olho para a sala e acho-a bonita. Apenas agora. Alguma estética num espaço húmido, a pedagogia a brigar com a falta de condições. Olho para a sala e vejo os nossos nomes em barro, um pano pintado pelos meninos com os direitos das crianças, anilinas com imagens de crianças, desenhos de uma história, histórias construidas e ilustradas, textos sobre as crianças (o que os meninos e as meninas sabem e sentem...), fotos de algumas familias contadoras de histórias, os nomes das maes escritas pelos meninos...e pinturas, e desenhos e recorte...

Acho bonito agora, apenas agora, mas não chega para aliviar o sentimento de desconforto. Qualquer coisa que não esteve bem, uma voz fina a dizer-me isso, ainda que muito discreta e leve, mas presente.É uma espécie de pano de fundo, que incomoda, ainda que não alarmante, mas presente. É como se ainda fosse janeiro e precisássemos do resto do tempo até ao final do ano. 
Tento situar-me no contexto e racionalizar. Raciocinar. Pensar sobre o assunto. E deter-me no porquê de ser final do ano e eu a querer que seja o início.

Eu sei, eu sei...queria começar de novo, com as crianças e a equipa. E vencer aquilo que foram as armadilhas de uma espécie de socialização profissional, ou dizendo de outro modo, as rasteirinhas da prática... aquelas que nos engolem sem que saibamos como. E nos fazem ser apenas mais um educadora entre tantas outras. Sem garra e sem singularidade.

É assim que estou. Quando me distanciar um pouco mais, espero ter lucidez suficiente para vislumbrar e avaliar o que foi um trajeto de um ano letivo.
Que passou num ápice, sem ter dado verdadeiramente conta do tempo. É uma verdade e uma constatação, neste ano o tempo não foi um aliado.

    

domingo, 1 de junho de 2014

Memórias no dia da criança

Dia da criança, 1 de junho
Na minha casa, estou eu e o meu companheiro, os filhos andam por outras paragens, chamados pela vida que começam a construir para além do pai e da mãe. Tornaram-se adultos. Por isso, hoje, o dia da criança, não tem crianças por perto na minha casa, a não ser aquelas que moram no meu coração e nas memórias que guardo como um tesouro único e intransmíssivel.

Bem gostava dos dias da criança, quando ia de mão dada com os meus rapazes, meninos ainda, comprar uma prenda e um doce, e nos sentávamos em qualquer vão de escada a saborear o tempo, a companhia, as gargalhadas e algum choro, às vezes, também. Ou quando em bebés, apesar de ainda não conhecerem o dia e a comemoração, os abraçava com força junto ao meu peito. Tenho e terei sempre, o seu cheiro a leite e pó talco dentro de mim, o calor do seu corpo, a imagem das mãos pequeninas a procurarem-me. 

Brinquedos antigosTenho saudades desse tempo. Já o disse tantas vezes, mas repito sempre com a mesma certeza, tenho saudades de ser necessária na sua vida e de me sentar no chão a vê-los brincar, curiosos e observadores, com livros, rocas, bonecos, trapos, carros. Ouvir o seu falar, as conversas imaginárias, as perguntas com resposta, as respostas sem pergunta, os brinquedos arrastados para a cozinha ou para a sala, paraficarem perto de mim.
E ali ficavam e ali se faziam um pouco mais meninos, um pouco mais crianças, no decorrer de um tempo que sendo doce, passou tão rápido e tão veloz que não dei conta dos mil sabores da doçura e de outras coisas a acontecer na sua vida de jovens pessoas. De certeza. Tenho para mim a ideia e convição que da infância apenas lhe captamos a sua parte visível.

E continuo a achar que esta coisa de ser-se mãe e pai e construir  uma pessoa dentro de si e para além de si, é um milagre, uma aventura e um projeto arrojado. Que nos mobiliza dos pés à cabeça, nos comove e assusta, nos fortalece e responsabiliza. Para todo o sempre, até ao fim dos nossos dias.
Por isso hoje, passado tanto tempo, tenho saudades de comemorar o dia da criança, com os meus filhos,  em meninos. Vou enviar-lhes uma mensagem e mandar um beijo para que guardem a infância que ainda sentem, dentro de si. Como um tesouro. Parece ser uma coisa boa para trazerem consigo, como adultos.
Relembro João dos Santos  o segredo do homem é a própria infância