terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Votos para o novo ano

Último dia do ano.
Silêncio absoluto na minha casa, nesta manhã chuvosa. As gotas de chuva decoram a janela do meu sótão, escorreguem lentamente pelo vidro, parecem pérolas. Lá fora o vento agita a folhagem verde das árvores. O dia está melancólico mas suave.  

Antes que os ruídos se instalem neste quotidiano, procuro as palavras com que posso fechar este ano. Não vou fazer balanços ou prognósticos, os textos que já fiz retratam algumas situações vividas, o futuro vai apresentar-se como bem puder. Deixemos ficar tudo como está, não há forma de antecipar o que está para vir e em muitos casos, nem sequer convém. Vivamos um dia de cada vez.

Mas posso expressar desejos e vontades, para o ano que se aproxima. Logo à noite é o que farei, quando der a meia-noite e comer as passas. Repetirei o ritual, pedindo, emocionada, o que sempre peço e se vai cumprindo. Ou não. Para além do que queremos que nunca nos abandone - saúde, paz, amor - às vezes invisto noutras solicitações, desejos menos comuns, que vêm o ano passar sem serem realizados. Mas não podemos querer tudo, dizia a minha avó, mestra da vida e dos sonhos. Tinha razão.

A vida é imensa, cheia de surpresas e imprevistos e nós, quais mágicos de um circo antigo, compomos truques com maior ou menor competência. Nem sempre acertamos, porque não temos reportório nem perícia suficiente para todas as situações com que nos deparamos. Aceitemos a nossa finitude, sabendo que, nos aspetos fundamentais da vida, as respostas dependem de nós.  

Mesmo assim, peço força, criatividade, resiliência, alegria, coragem. Para mim e para os meus. Peço que os meus amigos se mantenham por perto, atentos, lúcidos e sempre generosos. Que os meus filhos continuem a serem homens do seu tempo, sensíveis, capazes e abertos ao mundo. Que o mundo possa ser mundo em oportunidades e igualdade para os que vivem escondidos na sombra e destituídos da sua dignidade. Que os dias sejam de luz e claridade, que saibamos ter golpes de asa para as noites de escuridão, que nos possamos rever e acreditar nos eventos que soubermos realizar, individual e coletivamente.

Para isto e muito mais, peço saúde, paz e amor. Para mim e  para todos aqueles que se mantêm nos seus postos, homens e mulheres ao comando de barcos lançados ao futuro e que fazem as viagens necessárias para que se cumpra o destino.

E porque não temos toda a decisão nas mãos, peço ainda sorte. Muita sorte.
Para todos vós também.    

domingo, 29 de dezembro de 2013

A minha mochila

Domingo cheio de sol. Uma luz forte e quente bate no mar e dá-lhe um brilho azul magnifico. Esta é a sua cor. Eterna. É assim que pensamos no mar, quando dele temos saudade. A paisagem que vejo, da varanda, parece um postal ilustrado.  Quase perfeita. Respiro. Vou precisar deste mar e deste sossego em muitos dias dos próximos meses que se aproximam. Vou tentar levar um pouco desta luz e deste brilho dentro da minha mochila

Tenho uma mochila que carrego comigo, há muito tempo. É transparente e invisivel, ninguém a vê, mas pesa que se farta e nem sempre é comoda de transportar. Tem bolsos e pequenas divisórias onde arrumo, como posso, diferentes assuntos e matérias de vida, tentando não misturar pessoas, acontecimentos e memórias. 

Quando caio, porque me falta o chão ou o céu, não  consigo proteger a mochila e tudo se mistura dentro dela. Aí, sim, não consigo impedir a confusão, coisas que passam de um lado para outro, ficam baralhadas e difíceis de colocar no seu lugar. Nessas alturas, necessito de fazer uma paragem, conferir todos os compartimentos e respetivo espólio, reagrupar e voltar a arrumar cada coisa no seu lugar. Para que possa seguir viagem.

A minha mochila é uma peça fundamental para as viagens que faço, todos os dias, rumo ao futuro. Por isso necessita de zelo e atenção. Não em demasia, porque há bolsas e espaços mais escondidos, sobrepostos e encaixados que raramente se abrem e mesmo nos tombos não dão sinal de si. Merecem uma atitude de  bom senso, não vale a pena mexer no mais profundo da mochila que carregamos.

http://data.whicdn.com/images/49366814/backpack-bag-fashion-leggings-legs-favim-com-435749_large.jpgA minha mochila, apesar de pesada, é forte e insubstituível.  Tempos houve, de adolescência e juventude, em que julguei podê-la trocar, mudando a sua marca, forma e volume. Achava eu que, mudando por fora, o seu interior se alteraria, ficando mais leve e ligeiro o seu conteúdo. Esta ilusão durou pouco tempo. Desde que alguns laivos de maturidade me invadiram a vida, que sei que as mochilas que carregamos connosco são o nosso património e o nosso ADN. Têm o nosso cheiro, bocados de pele e rugas, desalentos, sonhos, vitórias e derrotas. Albergam os que amamos e ainda estão connosco e  os que partiram. Têm brinquedos de infância, as ameixas da casa da avó, o primeiro namorado, amigas do peito, o nascimento dos filhos, a aventura da profissão, os risos e lágrimas das crianças que educámos. 

Têm isto e muito mais, numa hierarquia de assuntos e matérias que não é possivel reproduzir. Por isso a minha mochila é pesada e pesa que se farta. Ainda bem. De que outra forma poderia guardar esta minha vida que me corre nas veias, desde que nasci, e me faz ser quem sou? 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Dias de pausa

Da janela da varanda posso ver o mar. Sereno e grande, largo, em tons de cinzento, porque hoje o sol está envergonhado. O mar ao longe parece uma esteira grande onde nos podemos deitar e descansar, a céu aberto.
Percorro a manhã lentamente. Detenho-me em coisas de nada, tenho o coração um pouco vazio, trémulo, meio perdido. Mastigo a noticia triste que uma amiga deu, a vida nem sempre se aceita. A vida tem surpresas que doem e a amizade faz com que sejam nossas as dores de outros. Fico quieta no sofá, olho vezes sem conta a meia lua da água ao longe, quero convocá-la para uma manhã mais fácil e menos introspetiva. Está quase a chegar o fim do ano, mas ainda é cedo para rever as contas, conferir ganhos e perdas,  acertar o crédito para o futuro. Deixemos a contabilização do stock para mais tarde. Não faltarão oportunidades.

Agora, aqui, é tempo de descanso. Não se ouvem as vozes das crianças nem os seus pedidos constantes, não saimos de nós para entrar no mundo dos meninos e meninas que nos foram confiados. Podemos enfim pensar neles, demoradamente, sem que tenhamos de enfrentar a interação diária, condição imprescindivel da pedagogia e arte de educar.

Libertos dessa exigente competência, de que fazemos uso todos os dias com maior ou menor sucesso, podemos, nestes dias finais de dezembro, rever a nossa intervenção, avaliá-la e projetar o que sonhamos e queremos fazer com as crianças e para elas. Ideias gerais a partilhar em janeiro, para que as crianças possam dar contibutos para a definição do agir diário. A pedagogia da participação é isto, o direito a ter voz no quotidiano. Nada fácil, uma lição ainda a aprender por parte da escola e da(s) comunidade(s).

Por isso, tenho o computador ligado e o tempo disponivel. Hoje ensaia-se a análise do tempo de ser educadora, nesta nova comunidade. Um desafio imenso, surpreendente, apesar de 34 anos de serviço. Registo, por escrito o que observei e vivi, confirmando na primeira pessoa do singular, o que li e aprendi nos livros e nos processos de auto e hetero formação em que me envolvi ao longo dos anos. Nesta comunidade a educação de infância produz e reproduz muitas das fragilidades que estão descritas e estudadas na literatura da especialidade e nas experiências que muitos profissionais conhecem, em diferentes contextos. Descobrir e devolver aos atores mais diretos, familias e colegas, as suas potencialidades é o meu desafio. Tarefa de monta, que não se faz individualmente, mas com equipas coesas e linguagens comuns. Outro desafio, não menos importante. Por isso não gosto de trabalhar sózinha, sem o apoio de outras educadoras e é assim que estou. Pobre, de alguma forma, sem visões diferenciadas que ajudem a fazer adequadamente o diagnóstico e a definir estratégias mobilizadoras de mudança. Porque é urgente mudar a conceção de escola, educação, aprendizagem e desenvolvimento das crianças. E já agora dos adultos, profissionais e famílias.

Por isso, tenho o computador ligado, mas adio a tarefa. É exigente. Apesar de não ter as vozes dos meninos e meninas, sinto-as dentro de mim. Lembro-me deles e tenho saudades, em alguns casos, preocupação. Como estarão? como terá sido o natal em casa? como irão chegar? 

Por isso, tenho o computador ligado e comecei pela escrita no blog.  E sem dar conta vim ter às crianças e à minha profissão, depois de começar pelo mar e pela tristeza da noticia que recebi, ontem à noite. Não podemos facilmente fugir de quem somos e do que fazemos. Relembro o meu professor António Nóvoa "a pessoa é o profissional e em cada pofissional há uma pessoa".  

Já comecei a minha reflexão. Vou continuar a fazê-la nos meus documentos.     


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Noite de natal

Já passou a consoada e o dia de natal. 
Aqui em casa, ontem, estivemos sem luz até às 11 horas da noite. Estávamos lindos à luz das velas dos castiçais, com a toalha vermelha e os enfeites de natal. A logística não foi fácil, mas foi tudo original e  muito tateado. 
A troca de presentes já foi iluminada, tornando tudo mais fácil e visível, ainda que menos belo, diria, porque as sombras que vi projetadas durante a ausência de luz nos transportaram para outros lugares e outros mundos, que partilhámos, entre risos, conversas soltas e afetos renovados.  

O meu filho Miguel ofereceu-me a reedição da poesia da Sophia de Mello  e adormeci muito tarde a reler as suas palavras. Uma escrita límpida, entre o mar, o dia e a noite, jardins e musas, amor e solidão, partidas e chegadas.

Bonita forma de acolher a madrugada, neste dia 25 de dezembro. Com poesia.

Aqui fica um poema que me apanhou de surpresa e me espantou, por ser tão verdade. Adotei-o logo. Diz assim

Apesar das ruínas e da morte.
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias

in Poesia de Sofhia de Mello Breyner Poesia 

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Visita

A minha amiga veio ver-me. 
Telefonou, estava perto e combinámos um café, desde logo, não fosse o tempo e a oportunidade fugirem. Vi-a ao fundo da rua e estava igual a ela mesmo: riso pronto, abraço quente, olhos com brilho. Quando nos sentámos, as palavras começaram a fluir, de imediato, análises criticas e sentimentos partilhados, que a amizade é um campo aberto de papoilas vermelhas em qualquer altura do ano. Mesmo em Dezembro. E fomos de conversa em conversa, rindo e devolvendo mutuamente o lugar que sempre ocupámos no coração uma da outra. Sem mais quê ou para quê. 

E confirmei o que sempre soube: a minha amiga, que se ausenta vezes sem conta sem deixar rasto, mantém na voz e no olhar o desafio e a coragem de ser mulher combativa, decidida e lúcida. Atenta ao mundo e aos outros, inunda-os quase sempre com a sua humanidade e afeto caloroso, que gere sem poupar, numa generosidade desmedida. 

Quando a vida não é amiga ou se revela paradoxal, a minha amiga enrola-se numa espécie de limbo e adormece devagar, sem dizer porque vai e não fica. Mas nunca esquece os amigos e a fidelidade que lhes é devida, característica que lhe cobre a pele e a identidade de mulher adulta.

Todos os que a amam sabem disso, ainda que muitos não ousem dizer. Eu digo. Isso e muito mais. A minha amiga voltou, ainda que por um tempo curto, mostrando que a amizade é intemporal, resistente e pertença de gente bonita.  

Ontem foi natal. E foi muito bom.   

domingo, 22 de dezembro de 2013

Fim de tarde

Domingo.
Uma réstia de sol a banhar a tarde, poucos dias antes do natal. Um horizonte com tons de laranja, uns farrapos de neblina cinzenta, um tempo frio a ficar no corpo. É natal. Sim, ainda persistem umas tarefas da escola, mas agora não quero pensar nelas, ignoro-as. Quero o tempo todo livre, preciso. Um  tempo solto, cheio de outras coisas, embrulhos de prendas, a árvore e o presépio, a sala quente com a lareira, os filhos por perto, gente que telefona, amigos que se encontram, rabanadas e sonhos. De natal e de vida. 

Tempo livre para pensar nos que partiram e já não estão aqui. Apenas a memória, algumas fotografias, imagens e recordações, alegria e saudade. Tempo para parar na doçura de algumas presenças, ausentes, mas que ficam no coração para sempre. E por isso, estão cá. Dentro e fora de nós, em objetos, lembranças e escritas. A saudade hoje não dói, é terra plena de frutos silvestres. Vermelhos, roxos, a fazer bem à alma e ao corpo. 

Tempo livre para encostar o rosto à janela e procurar o futuro. Pesquisar o que aí vem, sabendo que fazemos muito do que nos cerca. Fazemos porque somos homens e mulheres de vontade e decisões. Sim é certo, às vezes temos pouco poder nas mãos, mas a maior parte das vezes, somos os ardinas das noticias que nos chegam. Recebemos o que anunciamos.

Tempo livre para olhar para a natureza, a terra e o mar, as árvores. Reter dentro de nós a beleza da vida, enchermos-nos dos seus cheiros e cores, deitar fora a imensa escuridão que nos rodeia em alguns dias da nossa vida. Vestirmos-nos de vermelho e luz, sem dar tréguas ao cinzento da derrota. 

Tempo livre para ler e escrever. Pegar em algumas palavras e torná-las réis e rainhas do quotidiano. Sem pedir licença, que somos donos do nosso destino e não vale tecer um muro de lamentações. Não ajuda, não convence, não liberta.

E nós somos gente de liberdade, somos "seres da briga", como dizia o Paulo Freire. Briguemos então pelo nosso direito a tomar o tempo, as palavras, a terra, a beleza, a vida. No natal e em todos os dias. De domingo a domingo.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Confissão

No natal, invade-me sempre uma ligeira nostalgia e uma pequena saudade que escurece os dias de luz. Fico -me entre a alegria do brilho das estrelas, a memória dos sinos da igreja e a melodia doce dos cânticos. 

Ando e penso, penso e ando, distendo-me no tempo que é de preguiça e cheiro a canela com açúcar.  E se isso me aquece e consola, não elimina a nesga de frio que espreita no coração. Uma pequena tremura, apenas minha, que não digo a ninguém, porque nada há para dizer. O que é muito nosso, assim deve ficar, na ausência de palavras para partilhar o que em nós parece pronunciar-se. Talvez a isto se chame solidão ou individualidade, talvez até identidade, aquela que tem a nossa pele por lastro, caldeada com a respiração e a vida que nos deram. 

Porque nos deram uma vida um dia e nome e casa e colo e nos soubemos gente a partir de então, ainda que só muito mais tarde disso tenhamos consciência. De quem somos, o que queremos, o que negamos e entendemos. E durante os anos em que nos fomos tornando pessoa, em muitas parcelas de tempo estamos apenas connosco, ainda que rodeados de todos os que nos amam. 

Assim estou. Comigo e em mim, a esperar este natal com uma pontinha de nostalgia e saudade. É coisa pouca, não incomoda por aí além, mas está cá. 

Aceitemos os seus motivos e razões e rendamos-nos a quem somos. 
Não há mal em ter saudade não é obrigatório um estado permanente de felicidade. Apenas porque é natal.