terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Visita

A minha amiga veio ver-me. 
Telefonou, estava perto e combinámos um café, desde logo, não fosse o tempo e a oportunidade fugirem. Vi-a ao fundo da rua e estava igual a ela mesmo: riso pronto, abraço quente, olhos com brilho. Quando nos sentámos, as palavras começaram a fluir, de imediato, análises criticas e sentimentos partilhados, que a amizade é um campo aberto de papoilas vermelhas em qualquer altura do ano. Mesmo em Dezembro. E fomos de conversa em conversa, rindo e devolvendo mutuamente o lugar que sempre ocupámos no coração uma da outra. Sem mais quê ou para quê. 

E confirmei o que sempre soube: a minha amiga, que se ausenta vezes sem conta sem deixar rasto, mantém na voz e no olhar o desafio e a coragem de ser mulher combativa, decidida e lúcida. Atenta ao mundo e aos outros, inunda-os quase sempre com a sua humanidade e afeto caloroso, que gere sem poupar, numa generosidade desmedida. 

Quando a vida não é amiga ou se revela paradoxal, a minha amiga enrola-se numa espécie de limbo e adormece devagar, sem dizer porque vai e não fica. Mas nunca esquece os amigos e a fidelidade que lhes é devida, característica que lhe cobre a pele e a identidade de mulher adulta.

Todos os que a amam sabem disso, ainda que muitos não ousem dizer. Eu digo. Isso e muito mais. A minha amiga voltou, ainda que por um tempo curto, mostrando que a amizade é intemporal, resistente e pertença de gente bonita.  

Ontem foi natal. E foi muito bom.   

domingo, 22 de dezembro de 2013

Fim de tarde

Domingo.
Uma réstia de sol a banhar a tarde, poucos dias antes do natal. Um horizonte com tons de laranja, uns farrapos de neblina cinzenta, um tempo frio a ficar no corpo. É natal. Sim, ainda persistem umas tarefas da escola, mas agora não quero pensar nelas, ignoro-as. Quero o tempo todo livre, preciso. Um  tempo solto, cheio de outras coisas, embrulhos de prendas, a árvore e o presépio, a sala quente com a lareira, os filhos por perto, gente que telefona, amigos que se encontram, rabanadas e sonhos. De natal e de vida. 

Tempo livre para pensar nos que partiram e já não estão aqui. Apenas a memória, algumas fotografias, imagens e recordações, alegria e saudade. Tempo para parar na doçura de algumas presenças, ausentes, mas que ficam no coração para sempre. E por isso, estão cá. Dentro e fora de nós, em objetos, lembranças e escritas. A saudade hoje não dói, é terra plena de frutos silvestres. Vermelhos, roxos, a fazer bem à alma e ao corpo. 

Tempo livre para encostar o rosto à janela e procurar o futuro. Pesquisar o que aí vem, sabendo que fazemos muito do que nos cerca. Fazemos porque somos homens e mulheres de vontade e decisões. Sim é certo, às vezes temos pouco poder nas mãos, mas a maior parte das vezes, somos os ardinas das noticias que nos chegam. Recebemos o que anunciamos.

Tempo livre para olhar para a natureza, a terra e o mar, as árvores. Reter dentro de nós a beleza da vida, enchermos-nos dos seus cheiros e cores, deitar fora a imensa escuridão que nos rodeia em alguns dias da nossa vida. Vestirmos-nos de vermelho e luz, sem dar tréguas ao cinzento da derrota. 

Tempo livre para ler e escrever. Pegar em algumas palavras e torná-las réis e rainhas do quotidiano. Sem pedir licença, que somos donos do nosso destino e não vale tecer um muro de lamentações. Não ajuda, não convence, não liberta.

E nós somos gente de liberdade, somos "seres da briga", como dizia o Paulo Freire. Briguemos então pelo nosso direito a tomar o tempo, as palavras, a terra, a beleza, a vida. No natal e em todos os dias. De domingo a domingo.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Confissão

No natal, invade-me sempre uma ligeira nostalgia e uma pequena saudade que escurece os dias de luz. Fico -me entre a alegria do brilho das estrelas, a memória dos sinos da igreja e a melodia doce dos cânticos. 

Ando e penso, penso e ando, distendo-me no tempo que é de preguiça e cheiro a canela com açúcar.  E se isso me aquece e consola, não elimina a nesga de frio que espreita no coração. Uma pequena tremura, apenas minha, que não digo a ninguém, porque nada há para dizer. O que é muito nosso, assim deve ficar, na ausência de palavras para partilhar o que em nós parece pronunciar-se. Talvez a isto se chame solidão ou individualidade, talvez até identidade, aquela que tem a nossa pele por lastro, caldeada com a respiração e a vida que nos deram. 

Porque nos deram uma vida um dia e nome e casa e colo e nos soubemos gente a partir de então, ainda que só muito mais tarde disso tenhamos consciência. De quem somos, o que queremos, o que negamos e entendemos. E durante os anos em que nos fomos tornando pessoa, em muitas parcelas de tempo estamos apenas connosco, ainda que rodeados de todos os que nos amam. 

Assim estou. Comigo e em mim, a esperar este natal com uma pontinha de nostalgia e saudade. É coisa pouca, não incomoda por aí além, mas está cá. 

Aceitemos os seus motivos e razões e rendamos-nos a quem somos. 
Não há mal em ter saudade não é obrigatório um estado permanente de felicidade. Apenas porque é natal. 


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Nelson Mandela

Lutou pela liberdade e pela igualdade. Recusou um país e um mundo de donos e senhores e escravos submissos. Tinha um rosto sereno e uns olhos de amor. Iluminou multidões pela luz da crença e a força do combate. 

Esteve preso e resistiu. Continuou sempre a acreditar e a lutar. 
Até ao fim dos seus dias.

Partiu ontem. 

Fica a sua memória para nos lembrar, todos os dias, o respeito pela dignidade e pelos direitos humanos. 

Em todos os cantos do mundo e no nosso mundo, mesmo à frente dos nossos olhos. Não vale disfarçar. 

"A educação é a ferramenta mais poderosa que podemos usar para mudar o mundo" (Nelson Mandela)

Sexta-feira

Sexta-feira. Vem aí o fim de semana. Não, não está completamente livre de trabalho, amanha temos ocupação, mas é por uma boa causa. Não protestemos.

Sexta-feira, dia de lançar a mala das coisas da escola para perto da secretária, no sótão, ainda que seja por pouco tempo. Fica tudo um pouco esquecido, meio de molho, para libertarmos o corpo e o coração dos imenso(s) cansaço(s) de trabalhar e viver com pessoas, crianças e adultos. Sempre no mesmo espaço. Precisamos de restaurar o pensamento e as ideias e desligar. Se for possível. Ler um jornal, ver televisão, fazer uma caminhada, ver o mar, escrever. Pensar em nós, ficar em primeiro lugar. É por pouco tempo, mas é necessário e vital para começar de novo, como diz a canção.

Eu sei, de novo nunca se começa. Já fizemos história e enredos, já tatuámos impressões e imagens, já dissemos palavras e ideias, já estabelecemos propósitos, já errámos, já fomos e viemos, já nos enternecemos e zangámos. Já nos comprometemos com vinte e cinco crianças e suas famílias. Já não há retorno para o que somos e fazemos.

Mas precisamos de parar, para oxigenar a emoção e o combate diário. Um combate sim, contra a exclusão, a desconfiança, o medo, os ataques primários de quem sendo muito novo, andou na escola e não lhe esqueceu a dureza e a agressão. Falo de famílias, que reproduzem a sua história de infância na história dos filhos. E desconfiam de mimos e palavras doces. E de educadoras que não conhecem. 

Criar laços de confiança, em algumas comunidades, exige um posicionamento lúcido, atento e disponível dos profissionais. Exige capacidade para acreditar que só o tempo transforma relações de distância e desconfiança em laços de comunicação e parceria. Até lá, o nosso olhar tem que ser perspicaz, competente nas suas leituras e ilações, sereno e persistente. E humilde, porque apesar de tudo o que sabemos a realidade é sempre um dado a escutar e a compreender. Com toda a informação e formação de que formos capazes. Uma leitura quase sociológica do que nos envolve, para podermos ficar livres das rasteirinhas do senso comum. Ser profissional é outra coisa, é saber identificar para atuar, propondo espaços de desenvolvimento, numa perpetiva ecológica. 

Apesar destas competências, se as tivermos, saibamos lidar com o imprevisível. E saibamos fazer-lhe face, com o máximo de serenidade e convicção. Hoje, sexta-feira foi assim. Ganhámos uma luta e uma causa. Não será definitiva, mas aceitemos a lonjura do caminho.

Por isto tudo, o cansaço é muito. Dói o corpo de tanta emoção, controle e desocultação de alguns sentidos. Por isso é preciso desligar e ir ler o jornal. E por creme na cara e dar um jeito ao cabelo. Há quanto tempo não cuidamos de nós?

P.S. - Tenho inveja do meu filho mais novo, está em Paris. Era lá que queria estar. Andar pelas ruas, ver o Sena, ir a Montparnasse, sentir-me uma Simone de Beauvoir com as devidas diferenças. Mas fico-me por cá. Em descanso. Pelo menos por esta noite.       

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Doce natal

A cidade inunda-se de sons e cheiros, de noite as luzes brilham, há um pouco de musica no ar, alguma cor e um frio gelado que faz gostar do calor tépido das casas que são as nossas, onde moram os nossos afetos e quase toda a nossa vida. 

É natal e ainda que neste ano, tudo pareça um pouco mais triste, não conseguimos deixar de gostar da luz das estrelas que não são cadentes, mas que anunciam, como na história, as boas vindas ao menino. 
E o menino somos nós, cheios de sonhos e alegrias, a lembrar a infância e a avó que deixava na meia pendurada na chaminé, umas panelinhas de alumínio, para que pudéssemos brincar e acreditar no natal. E no menino Jesus. 
Quem dava as prendas no tempo das meias na chaminé, era o menino Jesus. E era pequeno e nosso amigo. Não o víamos, mas era assim. Doce como o mel, quente como os abraços da avó, feliz como a nossa alegria. E a nossa emoção. 
Juro que sei de cor o cheiro dessa manha do dia vinte e cinco de dezembro. E o sentido da alegria. Coisa boa. Depois os risos e as panelinhas que na manha seguinte íamos mostrar às amigas, no carreiro junto à casa. E ficávamos lá a fazer as comidas, com areia, pedras e flores. A inventar o tempo de ser criança, com um menino que se lembrava de nós. Por milagre. 

E a infância tinha o tamanho da surpresa, do calor do colo do avô, do sabor dos bilharecos, do frio dos caminhos e da água do poço. E das vozes dos adultos por perto, que a tratar da sua vida, não muito folgada, tratavam de nós, com amor e lucidez.  
Sem grandes riquezas e ostentações, apenas com pequenos gestos, apenas os necessários para fazerem o natal que perdura, até hoje, intacto e perfeito dentro do coração. Para sempre. 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Pensamento(s) à solta

O fim de semana esteve cheio de sol e eu a correr, a correr. Apenas um intervalo no domingo à tarde. De resto, muitas coisas por fazer, entre a casa e a escola. Uma correria que nem sempre nos devolve os benefícios esperados, já se vê. Porque em quase tudo na vida, a calma e a serenidade são passaportes mais seguros para alcançar metas e portos de abrigo. Eu sei. Mas mesmo sabendo isto, eu corro. Correr quer dizer fazer coisas, quase sempre tarefas, às vezes um pouco soltas, com sentido imediato ou longo alcance. Quase todas integradas no caminho que vamos trilhando. Assim o sinto e assim o espero. 

Entre corridas e tarefas - de casa e da escola - o meu pensamento a mil à hora. Vai e vem, pára e continua, surpreende-se com o que vê, imagina e projeta. Sempre fui uma rapariga de muitos pensamentos, agora ainda mais, porque já não sendo rapariga, redobrou a necessidade de compreender mais profundamente o que junto a mim, acontece. Neste fim de semana andei às voltas com os meus meninos e meninas, cheia dos seus comentários e afazeres, a tentar apaziguar alguma ansiedade, num grupo que demora a encontrar a sua(s) identidade(s). Não, não é assim, demora a encontrar a(s) identidade(s) que eu gostaria de ver. Porque este é um dilema profundo, a ambivalência entre o que eles são e mostram ser e aquilo que esperamos que sejam. E desejamos que sejam atentos, calmos, autónomos, sensíveis aos outros, capazes de estar e ser em grupo e na comunidade da sala e da escola. Quase perfeitos, se olharmos bem para dentro de nós.

E eles? são o que são, corpos pequenos e palavras à solta, lágrimas fáceis e mãos de repentes, como dizia a minha avó. São o que são e poderão vir a ser muito mais, caso  vida e a sorte os envolva com gente atenta e mente aberta. E coração renovado de alegria e serenidade. Também com persistência e inovação. Gente com luz, para iluminar o que ainda são trevas e lusco-fusco. Gente com horizontes, em casa e na escola.   

Sei que nem sempre os tenho. Ás vezes (muitas vezes?) fico comprimida na engrenagem dos dias, embrulho-me nas rodas dentadas da máquina e não alcanço mais lonjura que aquela que se encontra na sala e no meio circundante. Tudo ali, muito perto dos olhos e do coração, com vistas curtas, o que não abona em favor do sonho e do projeto. Quando estou assim perco a lucidez, canso-me e zango-me. Comigo, claro, por ir tão ao sabor da maré... e do que tem que ser feito. Às vezes sem sentido... Plano anual de atividades, dias festivos, semana de ...   

Com o pensamento a mil à hora, neste fim de semana, detive-me nisto tudo e em muito mais. Detive-me no tempo que concedo a cada menino e menina e estremeci. Nas escolas, numa engrenagem nem sempre lúcida, gastamos muito do nosso tempo na gestão do grupo, entidade que leva uma eternidade para ser construída. E pensei na falta que me faz cultivar mais a preceito tempo individualizado com cada criança,  para que não seja mais uma, mas seja ela. E possa falar de si, do que pensa, sente e gosta. E não gosta. Como ser único, e não apenas como elemento de um grupo.
Sei que é urgente e sei que vale a pena. Para uma educação de vínculos e laços. E só se vincula quem encontra lugar no tempo de um outro. Para além da planificação, das atividades e do tem que ser