quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Raízes

Não se ensaiam para dizer o que pensam e na ponta da língua têm um discurso pronto e rápido, ainda que limitado ao que da vida receberam como herança. Mantém  a cabeça fora de água, numa teimosia meia infantil, tentando reter a linha do horizonte ou a passagem de um barco para o outro lado da margem. Esbracejam sem parar, gritam, não dando tréguas a águas mornas. Duvidam da mansidão do mar, habituados que estão às ondas traiçoeiras que lhes sacudiu a vida. 

E da vida conhecem as horas dos dias lentos, que enchem sem parar, num ativismo desordenado, para enganar o desejo de um outro futuro. Vão e vêm num território prescrito, dele fazendo campo de batalha, arraial de verão, casa de família, laços de vizinhança. Amarram nós entre o corpo e o mundo, que é seu por direito, ainda que pareçam homens e mulheres livres de qualquer compromisso. E no entanto estão presos e ancorados às marcas que trazem na memória e em vestígios que apresentam um pouco por todo o lado.   

Já foram crianças e já tiveram infância, a deles, que ficou esquecida e no entanto não apagam das rugas, olhares, gargalhadas e palavras que arremessam sem pedir licença. Doa a quem doer. E assim se afirmam, e assim se revelam, sem pruridos ou falsas lamentações. São o que são, pela força do que foram e do que receberam.

Tudo isto pensei e agora escrevi no final de um dia de trabalho e de uma reunião de pais, lembrando um título de um livro "há muitos mundos no mundo", de Catarina Tomás.


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Coisas simples

Setembro, quase quase a meio. Tempo de inicio de escola, já o dissemos. 

Hoje e agora não quero escrever sobre essa matéria, invadem-me outros desejos e memórias. Imagens quentes do tempo das vindimas. Não deste lugar, aqui estamos na cidade e na cidade, o vinho chega já feito, ainda que no meu quintal (ou jardim?) a videira tenha dado algumas uvas. Poucas, é claro, mas doces, muito doces. Os meus rapazes lembraram-se logo das uvas do avô, que também não eram muitas, mas eram de estimação. Um mimo alegre que ele nos dava, com orgulho. E nós a fazer-lhe o gosto de apreciar o seu cuidado para connosco. Coisas boas, simples, afetos selados por trocas de fruta e caldeadas com risos e refeições em conjunto. 

Relembro e tenho saudade. Das conversas na sala, entre acenos, discordâncias e teimosias, quando em noites de futebol, a repetição do golos, dava origem a que netos e avô se envolvessem em discórdias amigáveis: os netos, porque diziam que era repetição, o avô, porque achava que era um novo golo. E somava-os, convicto, ainda que surpreendido.

No outono é quase sempre assim, um misto de poesia no ar, a cabeça longe do lugar onde o corpo permanece, uns laivos de melancolia, um gosto agridoce na boca e no coração. Aceito as memórias e deixo-me ir no seus enredos, ajeitando, com serenidade, o calor e o bem estar que elas me dão. Ainda hoje.

E por estar assim, apesar das tarefas escolares, obriguei-me a uma pausa e a um alimento para o coração e a reposição de energia. Não, não foram uvas, essas foram comidas há mais tempo, propus-me um reforço de palavras, em forma de poesia. Elegi Miguel Torga, mais uma vez.

Aqui fica 

Confiança

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima 
De cada sonho 
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura que não se prova
Se transfigura 
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova

Miguel Torga       

domingo, 8 de setembro de 2013

Serei capaz?

Domingo.
Vem aí outra semana. 
Reunião de pais (de famílias, precisando melhor), reunião de departamento, reunião de...e o resto do tempo, olhar para o espaço e prepará-lo para receber os 25 meninos e meninas. 

Um espaço que é o primeiro elemento de acolhimento, de mão dada com as oportunidades de aprendizagem que soubermos proporcionar às crianças para em conjunto, construirmos o nosso ambiente educativo. Um ambiente onde seja possível respirar segurança, autonomia, interação, liberdade, respeito...um ambiente de promoção de cada um e de todos, para que possamos em conjunto, fazer a nossa história, aumentando-a um bocadinho todos os dias. 

Para isso tenho que ser inteira, atenta, solicita, sensível, segura, inteligente. Tenho que saber ler a realidade para além do que vejo, procurando o lado de lá, indícios e sinais, posturas, falas, silêncios, protestos, risos e choros das crianças. A manifestação e o seu significado. Tenho que ser capaz de criar relação e afeto, compromisso e envolvimento, proximidade e distância. Ficar perto de cada menino e menina, saber olhá-los também de longe, apoiando um projeto de pessoa em crescimento. Com uma família e numa comunidade.

Irei ser capaz? saberei ser a educadora que quero ser? saberei ser uma profissional à altura de todos os desafios?

Assim estou neste domingo, por entre o que faço e escrevo, organizando os dias que hão de vir. Neste propósito tento também organizar o coração, refreando alguma inquietação e expectativa. Tremenda é esta função de educar, que exige serenidade e essência. E convicção. E força. E saber(es). E partilha. 

Serei capaz?

sábado, 7 de setembro de 2013

Vida

Atrapalho-me nas palavras para fazer a sua descrição e quando a solicitam, procuro frases de circunstância. Igualo-me aos comuns dos mortais, apenas destapo do seu mundo uma pequena parte da evidente riqueza e singularidade.

Concentro-me na sua matriz - fogo, terra, água, - e na impossibilidade de partilhar tanta luz e sombra, guardo, por recato, as suas características de jóia rara. Aprisiono-a sem querer, tento protegê-la de olhares indiscretos e pouco sensatos, mas reconheço a necessidade de exposição e risco.

Dói-me o amor e o entendimento que tem sobre os seus intentos e desejos mais secretos. Dói-me a sua solidão e a inteireza da sua consciência de viajante, que em dias mais abertos se revela, não sem algum pudor, a espreitar nos intervalos do silêncio em que respira.

E no entanto, em alguns dias de irrepreensível beleza, alegro-me com a sua maturidade e lucidez, em movimentos perfeitos de comunhão e encantamento.
   

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Divagação

Cansada do dia e da noite, enfrento medos e saudades. Deixo-me ir na lentidão do tempo, que ainda não pede pressa nem fúrias bravas de virar mundo. Por agora, fico-me entre o pensar e o fazer, mexendo devagar em mil ideias que vão e vêm, como o mar, todos os dias. 

E é assim que estou, em ensaios tímidos de ser pessoa, quando o coração pede voos de pássaro livre e o dias se olham por uma janela estreita. 

Falta abrir a porta pela manhã e com jeito decidido encontrar o sentido de estar de novo aqui.


Como escreve Sophia de Mello Breyner 

Abre a porta e caminha 
Cá fora
Na nitidez salina do real 

(Musa, 1994)

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Começo

Aproximo-me lentamente do meu espaço de ação. Vou em bicos dos pés, não quero pisar alguma réstia de lua que se tenha deixado cair, de mansinho, no coração do lugar dos meninos. Entro na sala e imagino-a cheia de movimento e descobertas, palavras soltas e histórias  de encantar. Percorro cada vestígio deixado na solidão das férias, coisas mortas, agora, mas que tiveram a força da vida que foi possível construir. Habituo-me ao real, convivendo com nesgas de insegurança e sentimentos de estranheza. 

Este vai ser o meu lugar. Ao lado de outros, os crescidos, que agora são aliados para mostrarem os caminhos desconhecidos e os hábitos instalados. Outros virão, os pequenos, pessoas de corpo inteiro e alma desmedida, com os quais farei as aventuras de um quotidiano pedagógico. Assim se diz, assim se quer.
Banco de Imagem - retrato, menina, 
pneu, balanço. 
fotosearch - busca 
de fotos, imagens 
e clipart

Para isso terei de agendar o currículo, renovar os instrumentos de trabalho, descobrir e adequar os objetivos, mas sobretudo atualizar a imprescindível utopia.

Como nos diz João dos Santos

"Pedagogo é aquele que é capaz de estimular os seus alunos a descobrir, a completar ou a desenvolver as aquisições do património cultural da sua comunidade (...) educador é para mim aquele que é suscetível de se apresentar e de ser aceite como modelo de pessoa" (Ensaios sobre Educação II)

domingo, 1 de setembro de 2013

Regresso

1 de setembro.
Inauguremos a chegada do novo mês e o descer do sol, os dias mornos e temperados do outono. Nessa celebração, saibamos apreciar as tonalidades das folhas que vão cobrir a terra e façamos as nossas despedidas ao tempo quente de verão. Regressemos convictos aos dias plenos das vozes múltiplas das crianças, na escola, e coloquemos toda a energia que pudermos ao serviço do seu cuidado e educação. Que possamos ser os melhores educadores que soubermos. 
No entretanto, hoje ainda é dia para conviver com o descanso e alguma inquietude, por aquilo que nos aguarda. 
Para embalar o que sentimos, pedimos palavras emprestadas. Aqui ficam, por Eugénio de Andrade.

É outono, desprende-te de mim.
Solta-me os cabelos, potros indomáveis 
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
Sem a febre de tantos lábios
Sem nenhum rumor de lágrimas
Nas pálpebras acesas

Deixa.me só, vegetal e só
correndo como rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra

Eugénio de Andrade