domingo, 8 de setembro de 2013

Serei capaz?

Domingo.
Vem aí outra semana. 
Reunião de pais (de famílias, precisando melhor), reunião de departamento, reunião de...e o resto do tempo, olhar para o espaço e prepará-lo para receber os 25 meninos e meninas. 

Um espaço que é o primeiro elemento de acolhimento, de mão dada com as oportunidades de aprendizagem que soubermos proporcionar às crianças para em conjunto, construirmos o nosso ambiente educativo. Um ambiente onde seja possível respirar segurança, autonomia, interação, liberdade, respeito...um ambiente de promoção de cada um e de todos, para que possamos em conjunto, fazer a nossa história, aumentando-a um bocadinho todos os dias. 

Para isso tenho que ser inteira, atenta, solicita, sensível, segura, inteligente. Tenho que saber ler a realidade para além do que vejo, procurando o lado de lá, indícios e sinais, posturas, falas, silêncios, protestos, risos e choros das crianças. A manifestação e o seu significado. Tenho que ser capaz de criar relação e afeto, compromisso e envolvimento, proximidade e distância. Ficar perto de cada menino e menina, saber olhá-los também de longe, apoiando um projeto de pessoa em crescimento. Com uma família e numa comunidade.

Irei ser capaz? saberei ser a educadora que quero ser? saberei ser uma profissional à altura de todos os desafios?

Assim estou neste domingo, por entre o que faço e escrevo, organizando os dias que hão de vir. Neste propósito tento também organizar o coração, refreando alguma inquietação e expectativa. Tremenda é esta função de educar, que exige serenidade e essência. E convicção. E força. E saber(es). E partilha. 

Serei capaz?

sábado, 7 de setembro de 2013

Vida

Atrapalho-me nas palavras para fazer a sua descrição e quando a solicitam, procuro frases de circunstância. Igualo-me aos comuns dos mortais, apenas destapo do seu mundo uma pequena parte da evidente riqueza e singularidade.

Concentro-me na sua matriz - fogo, terra, água, - e na impossibilidade de partilhar tanta luz e sombra, guardo, por recato, as suas características de jóia rara. Aprisiono-a sem querer, tento protegê-la de olhares indiscretos e pouco sensatos, mas reconheço a necessidade de exposição e risco.

Dói-me o amor e o entendimento que tem sobre os seus intentos e desejos mais secretos. Dói-me a sua solidão e a inteireza da sua consciência de viajante, que em dias mais abertos se revela, não sem algum pudor, a espreitar nos intervalos do silêncio em que respira.

E no entanto, em alguns dias de irrepreensível beleza, alegro-me com a sua maturidade e lucidez, em movimentos perfeitos de comunhão e encantamento.
   

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Divagação

Cansada do dia e da noite, enfrento medos e saudades. Deixo-me ir na lentidão do tempo, que ainda não pede pressa nem fúrias bravas de virar mundo. Por agora, fico-me entre o pensar e o fazer, mexendo devagar em mil ideias que vão e vêm, como o mar, todos os dias. 

E é assim que estou, em ensaios tímidos de ser pessoa, quando o coração pede voos de pássaro livre e o dias se olham por uma janela estreita. 

Falta abrir a porta pela manhã e com jeito decidido encontrar o sentido de estar de novo aqui.


Como escreve Sophia de Mello Breyner 

Abre a porta e caminha 
Cá fora
Na nitidez salina do real 

(Musa, 1994)

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Começo

Aproximo-me lentamente do meu espaço de ação. Vou em bicos dos pés, não quero pisar alguma réstia de lua que se tenha deixado cair, de mansinho, no coração do lugar dos meninos. Entro na sala e imagino-a cheia de movimento e descobertas, palavras soltas e histórias  de encantar. Percorro cada vestígio deixado na solidão das férias, coisas mortas, agora, mas que tiveram a força da vida que foi possível construir. Habituo-me ao real, convivendo com nesgas de insegurança e sentimentos de estranheza. 

Este vai ser o meu lugar. Ao lado de outros, os crescidos, que agora são aliados para mostrarem os caminhos desconhecidos e os hábitos instalados. Outros virão, os pequenos, pessoas de corpo inteiro e alma desmedida, com os quais farei as aventuras de um quotidiano pedagógico. Assim se diz, assim se quer.
Banco de Imagem - retrato, menina, 
pneu, balanço. 
fotosearch - busca 
de fotos, imagens 
e clipart

Para isso terei de agendar o currículo, renovar os instrumentos de trabalho, descobrir e adequar os objetivos, mas sobretudo atualizar a imprescindível utopia.

Como nos diz João dos Santos

"Pedagogo é aquele que é capaz de estimular os seus alunos a descobrir, a completar ou a desenvolver as aquisições do património cultural da sua comunidade (...) educador é para mim aquele que é suscetível de se apresentar e de ser aceite como modelo de pessoa" (Ensaios sobre Educação II)

domingo, 1 de setembro de 2013

Regresso

1 de setembro.
Inauguremos a chegada do novo mês e o descer do sol, os dias mornos e temperados do outono. Nessa celebração, saibamos apreciar as tonalidades das folhas que vão cobrir a terra e façamos as nossas despedidas ao tempo quente de verão. Regressemos convictos aos dias plenos das vozes múltiplas das crianças, na escola, e coloquemos toda a energia que pudermos ao serviço do seu cuidado e educação. Que possamos ser os melhores educadores que soubermos. 
No entretanto, hoje ainda é dia para conviver com o descanso e alguma inquietude, por aquilo que nos aguarda. 
Para embalar o que sentimos, pedimos palavras emprestadas. Aqui ficam, por Eugénio de Andrade.

É outono, desprende-te de mim.
Solta-me os cabelos, potros indomáveis 
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
Sem a febre de tantos lábios
Sem nenhum rumor de lágrimas
Nas pálpebras acesas

Deixa.me só, vegetal e só
correndo como rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra

Eugénio de Andrade 

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Retrato de mulher

Tem um sorriso doce, um humor jovial e uma educação atenta. Ri-se vezes sem conta da ironia do destino, ainda que já tenha chorado pelas mesmas razões. Curiosa dos mistérios da vida e de coração aberto, ensaia leituras sobre os enredos que tecem o seu tempo, vendo-se como é e alimentando o que gostaria de ser.

Não pede licença para falar e o medo é uma emoção longínqua, que apenas equaciona quando os sentidos ficam alerta. Utiliza-os quanto baste, no correr do presente, que não dá de mão beijada, nem a preço de saldo.

Não sendo propriamente jovem, investe-se de sonhos possíveis, que cultiva com uma quota suficiente de loucura e otimismo. Da vida quer a sua seiva mais pura, dias de sol e a alegria de ser pessoa inteira.
Não ignora os limites de si, lutando para os exceder em aventuras pensadas, ainda que inquietas. Tem dentro de si, a par do desejo, a cautela inevitável da experiência assinalada. 


Por isso, em alguns dias, ensaia viagens em marés desabrigadas, levando consigo os utensílios necessários para enfrentar o adamastor. Lembra-se de já ter passado o cabo das tormentas e por isso não anda desprevenida. Apesar da persistência dos sonhos.

   

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Propósito

Tento aconchegar-me nas ideias que hoje me chegam e mergulho docemente na maré da minha vida. O futuro é uma bandeira espetada no cume mais alto do mundo, o passado  uma almofada um pouco gasta e velha, mas calorosa, o presente tece-se com tudo o que sou. 

Viajante de mim, nada me impede de percorrer planícies abertas, onde moram todos os que amo, em casas de tardes amenas, com um chá de canela e limão sobre a mesa e pão morno com manteiga. Alpendres quentes convidam a ficar, em boas conversas, essas que deslizam por entre os dedos e fogem com o vento, quando as cigarras cantam pelo cair da noite. 

Assim me quero e me vejo, com tonalidades de laranja e fogo, a acertar o compasso do tempo e das colheitas que tenho que fazer. 

Sem terra e enxadas para trabalhar, colho do tempo o melhor que semeei, com as palavras que caíram no chão e deram folhas, flores e frutos. 
Assim me componho no correr dos dias, ateando com cuidado e leveza a maravilha de estar viva e rodeada dos que amo. Espero, com atenção, a chegada do outono, mantendo acesa uma fogueira quente para quebrar os primeiros frios de setembro e as noites longas de chuva do inverno. 

Ele vai chegar. Quero que me encontre preparada e corajosa para o receber, sem medo de gelar. No corpo e no coração.