quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Retrato de mulher

Tem um sorriso doce, um humor jovial e uma educação atenta. Ri-se vezes sem conta da ironia do destino, ainda que já tenha chorado pelas mesmas razões. Curiosa dos mistérios da vida e de coração aberto, ensaia leituras sobre os enredos que tecem o seu tempo, vendo-se como é e alimentando o que gostaria de ser.

Não pede licença para falar e o medo é uma emoção longínqua, que apenas equaciona quando os sentidos ficam alerta. Utiliza-os quanto baste, no correr do presente, que não dá de mão beijada, nem a preço de saldo.

Não sendo propriamente jovem, investe-se de sonhos possíveis, que cultiva com uma quota suficiente de loucura e otimismo. Da vida quer a sua seiva mais pura, dias de sol e a alegria de ser pessoa inteira.
Não ignora os limites de si, lutando para os exceder em aventuras pensadas, ainda que inquietas. Tem dentro de si, a par do desejo, a cautela inevitável da experiência assinalada. 


Por isso, em alguns dias, ensaia viagens em marés desabrigadas, levando consigo os utensílios necessários para enfrentar o adamastor. Lembra-se de já ter passado o cabo das tormentas e por isso não anda desprevenida. Apesar da persistência dos sonhos.

   

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Propósito

Tento aconchegar-me nas ideias que hoje me chegam e mergulho docemente na maré da minha vida. O futuro é uma bandeira espetada no cume mais alto do mundo, o passado  uma almofada um pouco gasta e velha, mas calorosa, o presente tece-se com tudo o que sou. 

Viajante de mim, nada me impede de percorrer planícies abertas, onde moram todos os que amo, em casas de tardes amenas, com um chá de canela e limão sobre a mesa e pão morno com manteiga. Alpendres quentes convidam a ficar, em boas conversas, essas que deslizam por entre os dedos e fogem com o vento, quando as cigarras cantam pelo cair da noite. 

Assim me quero e me vejo, com tonalidades de laranja e fogo, a acertar o compasso do tempo e das colheitas que tenho que fazer. 

Sem terra e enxadas para trabalhar, colho do tempo o melhor que semeei, com as palavras que caíram no chão e deram folhas, flores e frutos. 
Assim me componho no correr dos dias, ateando com cuidado e leveza a maravilha de estar viva e rodeada dos que amo. Espero, com atenção, a chegada do outono, mantendo acesa uma fogueira quente para quebrar os primeiros frios de setembro e as noites longas de chuva do inverno. 

Ele vai chegar. Quero que me encontre preparada e corajosa para o receber, sem medo de gelar. No corpo e no coração.  

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Encontro

Mãe, vou-te contar uma história verdadeira. Sei que ias gostar. 

Fui jantar a casa de uns amigos, no sábado passado, com várias pessoas, umas conhecidas, outras não. 
Chegámos e cumprimentámos-nos, depois das devidas apresentações. E uma cara doce, num sorriso claro disse, em voz baixa, como quem conta um segredo

- Eu conhecia a sua mãe, ela falava comigo todas as semanas. 
E os olhos riram-se, com mil subtilezas e uma proximidade quase física. 

A surpresa apanhou-me desprevenida e estarreci, como se diz na minha terra (e era lá que estava). Uma alegria estremecida entrou-me no coração, alargando de imediato o meu campo de afetos, numa simpatia genuína. Sem mais quê nem para quê, gostei da pessoa. Trocámos algumas palavras e situámos a sua relação contigo. Acertei desde logo sobre os marcos, o tempo, os enredos e as confidências. Confirmei o seu nome e a sua função. Falavas-me dela, quando relatavas timidamente as tuas histórias de solidão no Bunheiro, terra que apenas deixavas por curtos períodos, apesar da insistência para te fixares na nossa casa em Almada. E dizias, meia ambivalente, como quem pensa em voz alta

- Sim está bem, gosto de estar convosco, mas e a minha casa e o meu canto? quem vai cuidar do jardim, e da campa dos avós...e da casa? 

E assim vivias entre cá e lá, sem resolver os teus amores e a tua fidelidade, sempre enrolada em mil novelos de bem querer. E zangavas-te, estando cá e sentias a solidão estando lá. Então arranjavas aliados, gente especial, que te sabia ouvir e que gostava de ti, para tornar as tardes de vento do Bunheiro menos agrestes e mais temperadas. Povoadas de pessoas afetivas, de coração aberto e sorriso pronto. E ritualizavas estas relações com o teu cunho, perguntas, telefonemas e algumas confidências de mulher habituada, mas não conformada, à solidão da viuvez e de uma terra que custava a largar, por ter sido tão vivida e esculpida no teu corpo de menina ainda pequena.

Não falámos muito mais de ti, nessa noite. Mas ficou-me a ideia e a convicção que esta pessoa te foi fundamental no correr dos dias e algum pudor me impediu de fazer (mais) perguntas. A semana, mãe, também não tinha sido fácil e este convívio, uma oportunidade de conversas leves, alegres, amigáveis e muito divertidas. Temi abrir uma porta onde as revelações me pusessem de lágrima no olho. Andei sempre de lágrima fácil, toda a semana, e a noite não era para tristezas. 

Regressámos a casa já tarde e eu a pensar nos encontros que a vida proporciona e como tudo isto é uma aldeia. Grande, mas uma aldeia, onde apetece viver quando, por acaso, encontramos quem bem fez a quem muito queremos. E isso é bom. Faz-nos ficar eternamente agradecidas. 

E a pensar na frase de Saramago "Nós vivemos num lugar, mas habitamos uma memória". Foi exatamente isto que me fez encontrar-te nessa noite.  
   

  

domingo, 25 de agosto de 2013

Semana cheia

Regressei hoje da nossa casa, depois de uma semana de descanso. 
Vi de novo as terras de milho alto, agitado pelo vento, os braços da ria, os juncais, o mar bravo da Torreira, o cair da tarde e o inicio da manhã. Tomei o pequeno almoço na eira, reguei o jardim, compus uma jarra de flores, coloquei quadros na parede, alindei de novo a casa, ficou bonita. Mais ainda. Por lá andei, a saborear os últimos dias de férias. Na minha terra.

E foi bom. As palavras é que mingaram, porque não fui capaz de as utilizar em textos, como regularmente faço. Sem saber bem como, desapareceram e todas as tentativas foram em vão. Acho que me enchi de imagens, poderosas e ténues. Retive-as o mais que pude dentro de mim, mesmo aquelas que me tocavam de raspão e malandras, desapareciam num ápice. Velozes e matreiras, andaram abraçadas a mim, em abraços nem sempre amistosos, num jogo de toca e foge, que em alguns dias me deu um cansaço infinito e noutros uma alegria reconfortante. Um aconchego. 

Talvez por isso me ocupei em demasia, e as palavras, que sempre me acompanham, não encontraram nem poiso nem guarida para fazerem coro e sentido para os textos que escrevo. Senti falta delas, mas o espaço ficou todo preenchido com imagens que indiscriminadamente, brotavam do fundo da memória. Em qualquer dia, hora ou lugar. As ameixas lindas da casa da minha avó, as amoras que apanhei e me pintaram os dedos como quando era menina, as fotografias esquecidas no fundo de uma gaveta, o cheiro antigo de um lençol de linho, o xaile preto sem pontas de traça, o meu vestido de renda, tão pequeno, do dia do meu batizado. Eu já fui assim? E a tua fotografia, mãe, junto à porta de nossa casa, pouco tempo antes de partires. Um sorriso meio triste, com olhos no fim do mundo. Lá longe.

Tudo tão forte, tudo tão surpreendente, tudo tão inquieto, tudo tão doce. Não houve lugar nem tempo para aceitar e escolher palavras. Ficou tudo preenchido e o silêncio foi de ouro. O silêncio, a ria, o mar, o vento, o jardim. E tu e a avó, e eu e o meu irmão, e os filhos, e tias e amigas e amores. Em imagens e memória. Semana cheia. 



sábado, 17 de agosto de 2013

Bocados de vida

Nesta jornada de arrumação de caixas antigas, colocadas há muitos anos na garagem, impusemo-nos deitar fora o muito antigo, que já não era utilizado. E assim fizemos. Mas quando os livros apareceram, aos montes, ficámos sem saber o que fazer, de tão ligados que estávamos neles, assim sentimos mal os vimos. Os clássicos todos, que lemos na juventude e que nos fizeram ser como somos: Beauvoir, Sartre, Gorki, Anais Nin, Marguerite Duras, Soeiro Pereira Gomes, António Aleixo, Manuel Alegre, Virgílio Ferreira, Fernando Namora...e tantos outros...limpámos o pó, arranjámos uma estante e demos-lhes o destaque que merecem. Ainda hoje. Não se deita fora o que para nós foi um marco e uma revelação e chão para a caminhada de nos tornarmos pessoas.  

Depois, os textos e desenhos dos rapazes, letra tremida e erros, muitas coisas de meninos em crescimento, redações da primária, cartas das primeiras namoradas, dedicatórias de amigos, postais de natal, cadernetas de recados da escola, prémios do andebol. Guardámos o que nos fez rir e emocionar, deitámos fora os testes e os apontamentos e resumos de aulas. Coisas sem importância, agora.

Depois encontrei os meus cadernos e a minha capa vermelha, gasta e escura. Lá dentro poemas, cartas de amor (quem as não tem?), páginas de um diário, alegrias e lamentos. Tudo muito forte e muito sensível, entre os dezoito e os vinte anos. Fiquei sem respiração pela pessoa que ali estava, à procura do mundo e da vida.
Fiz um intervalo na arrumação e reli alguns dos escritos. Depois de me banhar nas palavras, reconheci-me, embora não tenha sido possível vislumbrar-me na totalidade. Senti, por momentos, o cheiro da praia da Barra, o vento das tardes secas no Bunheiro, a estação de Aveiro e a respiração ofegante para apanhar o comboio no ultimo minuto. Tudo longe e ao de leve, apesar das palavras intensas e da letra incerta. E sorri pela menina de então e estranhei-me na minha identidade. Eu, fui aquela? Pois fui, claro e por ter sido assim, hoje posso ser como sou. 

Guardei o caderno e a capa vermelha.Trouxe-os para o sótão. Não se deita fora os bocados do que fomos e da vida que vivemos. Deixo aqui um poema de então, sem censura ou preconceito. Escrevi o que senti, tal como agora o faço.  

Amor, de que cor és?
Procuro-te.
Amor, vives onde?
Eu quero-te.

Querer é ficar entre as árvores e fazer rosas
Com os dedos de luz e paz.
Querer é mais
É ir para além do mar, pisar as ondas
E rir.
Querer amor é querer vida
Que vida é amor.

Amor é ter ruas. largas. E correr com desejos nas mãos. 
Amor é tempo, verde e paz
É acreditar numa forma de ficar mais justa.

Amor és tu, quando chegas, com sol nos olhos.
Tu, inventado no escuro e desenhado na luz.
Amor é rir, continuar e ser.
Amor são ninos de olhos a chorar e
Mãos a querer quente.

maio 1976 (19 anos)                                                                                                                                                            

     

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Rápido e económico: poupar nas palavras

Levei um bocadinho de tempo a adaptar-me às sms e a utilizá-las com regularidade. Creio que os filhos foram um grande empurrão, porque não suportava os olhares condescendentes perante a resistência e sobretudo, perante a não apetência por máquinas, mesmo pequenas e simples. E depois havia a necessidade de com eles comunicar. Tive que me render a entrar nos novos meios de comunicação. Tanto quanto. Este blog é o mais avançado que me permiti ter, facebook, não, obrigado. Mas sei que não posso negar as enormes vantagens de estar conectado, a muitos amigos, on line. Sim, compreendo os benefícios e respeito a sua eficácia, no mundo atual. Se não, porque teria criado este blog?

Apenas me inquieta e surpreende a vulgaridade da comunicação, a brevidade dos posts, as amizades rápidas, os parabéns que se dão, porque a máquina nos lembra, as janelas escancaradas para o mundo, daquilo que somos. Perdão, daquilo que mostramos ser. Sei que podemos controlar o que escrevemos, escolher e barrar amigos e perservar a nossa intimidade. Sempre? 

Sendo meios poderosos de comunicação, marcam cada vez mais as nossas relações com os outros e substituem-se às formas mais convencionais de interação. E eu continuo a gostar de receber cartas, postais ilustrados, parabéns de outros que escrevem na agenda o meu dia de aniversário. Continuo a gostar das palavras por inteiro, com todas as letras a que têm direito, sem abreviaturas rápidas e socialmente aceites. Fico sempre a sorrir quando me enviam assim um sms. Dantes preocupava-me porque achava que os meninos e as meninas iam perder a capacidade de escrita. Entretanto, habituei-me, embora dificilmente utilize abreviaturas.

Não posso ser simplista, nem gosto de ser radical ou conservadora, vou pensando nestas coisas à medida que elas vêm ter comigo. E hoje recebi uma sms quase indecifrável, pela economia nas palavras. E nas palavras eu não poupo. Uso e abuso. Também ainda não pagam imposto, o que para mim é uma sorte, para a carteira e o coração. 

Por isso criei este blog, onde despejo palavras e textos à medida que me chegam à ponta dos dedos. O meu irmão, primeiro responsável pela criação deste blog, continua a dizer que devia estar ligado a uma rede social, para que muitos mais lessem. Respondo que a qualidade não é assim tão evidente e que alguns já me descobriram e me lêem.   
E para mim, é já um atrevimento e uma inovação, esta adaptação aos novos meios de comunicação. Passei anos e anos a escrever em cadernos de apontamentos. Só para mim. E sempre me bastou. 
Mas é claro que fico sempre contente quando me escrevem comentários. Alimentam as minhas longas palavras, isso não posso negar.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Renovar a vida

É jovem e está grávida. A barriga começa a despontar, numa bola pequena e redonda, as ancas um pouco mais largas e o peito a preparar-se para dar um leite morno e doce, que vai saciar a fome e o afeto do seu filho(a), quando nascer. 

E eu espanto-me. Definitivamente emociono-me com este mistério tão comum e tão único. Porque de cada vez que uma mulher engravida, tudo recomeça e tudo se renova, principalmente a esperança, o amor e às vezes, em certos dias, o medo, pelo futuro. Gerar uma pessoa dentro de nós é construir para todo o sempre um vinculo e um amor, dos quais somos, em primeira mão, os responsáveis. Projeto de vida arriscado, que nos desafia, apaixona e inquieta. É assim com (quase) todas as mulheres, mas esta é especial. 

Conhecia-a ainda menina, tinha quatro anos, uma pele clara e um sorriso tímido, estava à porta do jardim de infância onde a mãe trabalhava e não era de muitas falas. Depois, com o correr dos anos e uma amizade forte a selar a relação com ela e a família, fui vendo-a tornar-se menina, jovem, acompanhei alguns amores e (des)amores, assisti à sua decisão de ser educadora, apoiei a produção de alguns trabalhos académicos e a a progressiva consciência de ser o melhor que pudesse ser, como profissional. Fui, com orgulho, a sua madrinha de curso. 

Pelo meio, ficou a sua presença atenta quando com a mãe, pela noite fora, falávamos de educação e preparávamos reuniões de pais. Creio que tudo o que ouviu, em menina e jovem, lhe deixou lastro para a maturidade e o investimento que tem hoje, como profissional de educação de infância. Uma qualidade reconhecida por colegas, famílias e crianças, boa de se ver. 

Pelo meio, com a idade próxima dos meus filhos, ensinou-me muito, sem que disso tenha eventualmente consciência. Ensinou-me o sentido e necessidade do cuidar, a importância de respeitar opções, o mundo de dentro para além do que vemos por fora. E brincou com os meus filhos, como vizinha, companheira e amiga. Alargou o seu mundo e introduziu-lhe diversidade, coragem e persistência. Sendo um dos seus pares, é ainda hoje, uma referência para eles.   
Agora está grávida e eu emociono-me. Espera este filho, com o companheiro, numa casa que construiu com sonho e pulso, num projeto de amor resistente. E eu que a vi menina e a acolhi nos meus afetos, espanto-me com o correr do tempo, com a barriga que cresce e com a alegria do futuro.

Que quero acompanhar, numa festa de homenagem à vida e ao amor, aquele pelo qual nunca desistimos.