quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Doce balanço

O mar à nossa frente e um cheiro forte a maresia. 
Percorremos vezes sem conta o caminho livre na praia, entre a toalha e uma bóia que escolhemos, ao longe, para meta. Vamos e vimos numa cadência diária, rotina instituída, a conselho de algumas dicas de bem-estar. É importante fazer caminhadas à beira-mar. Façamo-las, já não somos jovens. 

E também porque ao andar, em silêncio, com a música de fundo do mar e vozes dispersas, fazemos balanços breves do ano e projetamos o que aí vem.  Sem pressas e tempos curtos, apenas deambulamos por aquilo que fomos e aquilo que está para vir. Uma espécie de balanço anual, não é dezembro, mas para quem é educadora, este é um tempo de viragem. Sobretudo se vamos iniciar um novo percurso. E assim vai ser. Regresso em setembro, à companhia dos meninos.

Esta ideia e esta realidade inquietam-me um pouco, tanto quanto me alegra. Vou receber um grupo de crianças, com idades e experiências diversificadas e com eles vou embarcar numa viagem rumo ao seu desenvolvimento e aprendizagem. Penso na adaptação, na minha idade, em tudo o que terei que fazer, dizer, pensar e escrever e tenho medo. Inventario algumas dificuldades, parece que talvez elas estejam agravadas, tenho receio de não ter força, discernimento, saber e competência para educar e ensinar como acho que as crianças têm direito.  

Depois sorriu com eventuais descobertas, revejo a minha metodologia e inventario o que posso fazer, por onde vou começar, o que não posso esquecer. E acalmo-me, digo que vai ser possível e que tudo vai correr bem. 

E assim há-de ser com a minha aposta, o envolvimento das crianças e a participação das famílias. E o apoio da equipa. Tudo irá dar certo, pois claro. Conto com eles e eles comigo.
Para começar, é um bom início…pois não é?


Conversa na esplanada

Sentamo-nos e pedimos um café.
A esplanada junto ao mar está quase vazia. As cadeiras e os bancos corridos são confortáveis, num castanho quente, há garrafas de muitas cores, quadros e imagens discretas, plantas. O café é agradável e cuidado, convida ao descanso. Uma música de fundo, calma e bonita impregna o ar e confere à manha uma tranquilidade magnífica. De onde estamos vê-se o azul do mar, o areal grande e dourado, a vegetação das dunas, que se agita com o vento. Não muito forte, apenas capaz de nos acordar de algum sono que ainda cobre o corpo.

Com os livros de férias abandonados na mesa, começamos a falar de outros livros, aqueles que nos marcaram e conversa puxa conversa, aí estávamos nós trocando confidências e ideias sobre as nossas vidas, que a amizade que nos une é longa e cimentada num cuidado permanente às histórias de cada uma. Conhecemo-nos e zelamo-nos, num respeito profundo pela individualidade e diversidade de pessoas únicas. É assim que mantemos uma amizade forte e um apoio atento, há já muitos anos.

Nesta manha, vieram para a mesa, ao lado dos livros interrompidos a meio, paixões e amizades de cada uma, pequenas histórias de mulheres livres, coisas de mãe preocupada, episódios de casas de retiro, cenas de filhos (in)dependentes, lutas de gente valente, sorte(s) e acaso(s) de amigos ausentes. Caldeámos tudo com o sabor do café, o calor do sol, o azul do mar, risos soltos e umas quantas lágrimas. Ou seriam salpicos do rebentar das ondas?  
Uma coisa eu sei: não conheço melhor menu para degustar numa manha de férias, na praia.  

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O verão e as crianças

No verão as crianças crescem. Ocupam as ruas e as praças até altas horas da noite, em gargalhadas felizes, ninguém as manda cedo para a cama, os horários estão esquecidos no fundo das gavetas fechadas das obrigações.

O mesmo acontece na praia.
Chegamos cedo e elas já lá estão, com o corpo salpicado de água fresca e a energia plena de quem tem muito para viver nos dias que correm devagar. Arrastam os baldes pela areia, molham as mãos e chapinham os pés com força nas poças de água, gritam, batem palmas, entram dentro das ondas e espantam-se com a força do mar. Por perto, pais e avós olham-nos enamorados pelo seu vigor e ensaiam jogos conjuntos, brincadeiras ruidosas e infantis, numa alegria descontraída de gente contente.

Alguns são muito pequeninos, pegam nas mãos dos grandes e puxam-nos, para correr com mais segurança, a distância entre a toalha e o rebentar as ondas. Vão decididos e mudos, espantados com tanta largueza de areia que sentem nos pés minúsculos e no entanto, capazes de andarem tempo sem fim. E sentam-se, levantam-se, caem, correm, amassam a areia, olham as gaivotas, e sentem o vento na cara. Às vezes choram e pedem colo, aninham-se no peito do pai ou da mãe e adormecem embalados pela cadência do bater das ondas na areia. A chucha cai da boca e serenos recuperam o bem-estar e a energia até às próximas brincadeiras.  

E os adultos que delas cuidam e as amam ficam tranquilos a ver o mar, agradecem o silêncio, sabem-no fundamental para a renovação da disponibilidade. Em breve será necessária e quer-se quase inesgotável, para alegria das crianças e satisfação dos grandes.

No verão as crianças crescem e com elas os crescidos também. Alimentam-se de tempo livre, cultivam a atenção e tentam reparar o tempo preso e a pressa desmedida dos outros meses do ano.


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Promessa junto ao mar

Seremos novos e empenhados no correr dos dias, buscaremos a juventude como estado, mesmo que a velhice nos alcance o corpo e a saudade se instale no coração, relatando em surdina as histórias que vivemos antes de sermos assim.

Procuraremos as razões pelas quais valha a pena lutar e diremos a outros a lonjura dos caminhos e a água e o pão que terão que partilhar para não desistirem antes do fim. Não nos esconderemos das inquietações, elas serão o fermento com que alindaremos o chegar dos dias e as noites escuras do desespero.

Confirmaremos a beleza de estarmos vivos e atores da edição da nossa vida, aquela que começa a minguar em energia e propósitos arrojados. Esqueceremos sempre que possível esta condição, não por negação ou falsa consciência, mas por opção de pessoas disponíveis no presente e empenhadas no futuro.Diremos as palavras mais abertas e incitadoras para erguer cedo e confundirmo-nos com o orvalho e a seiva das flores, no alto das madrugadas estivais.

Seremos mel, água no deserto, sombra de árvore à beira da estrada, manta de lã nas tardes agrestes de vento norte.    

E esperaremos por ti, que chegarás cansado e pronto a mandar para o chão todo o peso guardado no saco que transportas ao ombro. Acenderemos uma fogueira, estenderemos uma manta macia no chão e protegeremos os teus sonos de anjo perdido.
No dia a seguir a esta jornada, saudaremos o nascer do dia e a tua vinda. Ficaremos mais fortes e seguros para cumprir as nossas promessas.


A preciosidade da pedra

Era uma vez uma pedra, junto ao mar.
Branca e luminosa, redonda na forma, suave e inteira, linda. Nunca antes se vira outra assim, envolta em águas mornas e transparentes, despojada, perfeita, à mercê do olhar e das mãos de quem nela reparava. Rodeavam-na algumas algas, em forma de colo e adorno, cama e encosto. Ali estava a meio do caminho do mar, ao lado de conchas e búzios. Pedra rara.
Ninguém lhe tocava, a sua cor e brilho ofuscava o gesto mais descuidado e imprudente para a prender. Era demasiado bela. Mesmo as crianças que por ali passavam, observavam-na admirados pela luz que imanava e espantados deixavam-na ficar, perfeita e recolhida no verde das algas.

Diz-se que um dia um rapaz atento e discreto, guardador de sonhos, se encantou com a sua beleza e num gesto deliberado a tirou do mar para a juntar à sua coleção de pedras preciosas. Apesar de todo o cuidado e empenho colocados na mudança de lugar, a pedra começou lentamente a escurecer, até que perdeu, para sempre, o brilho e a luz. Tornou-se uma pedra igual a tantas outras e nesse dia, o rapaz, num lamento conformado, retirou-a da sua coleção de pedras raras. Devolveu-a ao mar, confundido com a vulgaridade da sua aparência.

Já não foi possível voltar à sua imagem anterior. Ao fim de algum tempo, a pedra perdeu para sempre a sua preciosidade. O rapaz nunca mais teve coleções e o mar ignorou por completo, o regresso da pedra.
Não houve tempo para confirmar se algum mistério lhe poderia ter devolvido a luz e a beleza.




Voos rasantes

Água azul a perder de vista, tépida no corpo, fresca para os olhos, suave, límpida. Perfeita, neste primeiro sábado de férias. Sentimo-la a banhar o nosso corpo, ouvimo-la bater levemente na areia, música suave para os ouvidos e o coração.

Ao longe e ao perto, as gaivotas fazem voos rasantes de pássaros livres, cinzentas e brancas, o contorno das asas e do corpo no azul do céu, o bico rápido a capturar um peixe distraído. Queríamo-nos assim, igualmente decididos para ensaiar, com bravura, itinerários de peregrinos afoitos. Sem medo das alturas e do calor do sol em tardes tórridas, amantes do vento, poderíamos sair por aí à procura de alimento para a fome, feita do cansaço dos lugares comuns da vida e sedenta de outros manjares e repastos. Por exemplo, uma sobremesa de poesia, um risttreto com conversa, uma salada numa galeria, um bailado à ceia, um filme de autor a seguir ao almoço. Viver com arte, salpicar de sons, cor, tempero e criatividade o tempo que ainda temos fora e dentro de nós, estrangeiros que andamos do nosso ser completo.


Fazer voos rasantes de gaivota livre, abrir as asas e voar, em equilíbrio perfeito no azul do nosso céu, esse que pintamos todos os dias com aguadas de silêncio, promessas e devaneios. E depois sobrevoar as imensas praias da nossa vida, as areias douradas a perder de vista, as pegadas deixadas para gente perdida, os corações desenhados em dias de paixão, os tesouros escondidos das grutas dos nossos segredos.

Ser gaivota nos dias longos do verão. Poder continuar a sê-lo no frio do inverno e na temperança da primavera e do outono. Gaivota sempre.

Isto tudo penso e acalento, nesta manhã, com o corpo molhado pelas águas da Meia Praia. Em Lagos.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O primeiro dia

Finalmente, férias. De tão esperadas, entontecem-nos  os sentidos, as rotinas, os hábitos.
Acordamos de manhã prontos para mais um dia de trabalho, autómatos que estamos das obrigações e do relógio e temos que dizer ao nosso corpo para parar, uma ordem que demora a ser cumprida porque há muito está esquecida na confusão dos dias cheios e apertados.

E este é um dia longo, demoramos a tomar o café, olhamos as árvores da janela, a manta em cima do sofá, os gatos a dormirem, descansados, ouvimos e sentimos o silêncio. Por toda a casa. Que se enche de luz, aumentado os objetos que nela estão, como se fossem coisas de postal ilustrado.
E é apenas a nossa casa no primeiro dia de férias, as fotografias são as de sempre, mas parece que o rosto da nossa mãe está mais aberto e próximo e os filhos, pequenos, irradiam felicidade, em risos e abraços quentes.
Demoramos o olhar em cada detalhe, porque as horas não são urgentes e as tarefas hoje são escolhidas por nós. A qualquer hora. Por exemplo, dar colo ao gato, que nos olha estarrecido por este súbito tempo livre, em plena meia manhã. E deixa-se estar, aninhado de contente, a ronronar ternuras esquecidas. Nós também.

E assim estamos, a desfrutar de tanto tempo. De vez em quando o corpo ainda se agita, estranha a calma e a apatia que o inunda. Porque assim estamos neste dia, confundidos, em balanços sucessivos entre os sons ensurdecedores de ontem e o cheiro de maresia que se aproxima a passos largos. Vamos remar até ao sul, espera-nos uma praia com pedras, água límpida e areia quente. E uma varanda com vista para o mar. Azul.

E sobretudo tempo. De utilização livre.