domingo, 19 de maio de 2013

Palavras emprestadas: uma conversa de almofada

Há dias assim.
Sentimos vontade de limpar a vida, retirar-lhe os pedaços inuteis, o que não vale a pena, as ervas daninhas. Um desejo de campo limpo, com trilhos marcados, numa rota direta ao essencial. Sem mais porquê ou para quê. Para que não nos confundamos, alheados e perdidos, em pequenas coisas de nada, que aniquilam os sonhos e a ternura que guardamos no lado esquerdo do peito.
Nestes dias, ao chegar à noite, cansados, procuramos poemas e pedimos palavras emprestadas a outros que disseram, de forma completa, o que andámos a remoer de nós para nós.

Assim:

Revoltavas-te, as tuas costas dobradas,
inclinadas para a frente, os seios tocando
nas pernas enquanto procuravas uma meia
debaixo da cama e franzias as sobrancelhas
numa cara de criança que acorda tarde:
"não percebo porque é que a poesia
tem de ser tão absurda". E eu respondia-te 
que tem de ser assim, porque o mundo
já está cheio de coisas concretas e práticas
que não fazem sentido nenhum 

Pedro Tiago in Comportamento das Paisagens

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Declaração

Aqui estamos nós. Tu a fazeres anos.
Olho para ti e vejo todo o tempo que já vivemos. A estrada ao longo dos dias, os atalhos e as pedras, as papoilas nos campos do Alentejo, o azul da ria, coisas que aprendemos a amar, porque pertença de um e de outro.  
Olho para trás e alcanço o inicio. Novos que éramos, todos os sonhos dentro de nós, combativos, inquietos, inconformados. Eu mais que tu. Tu mais que eu, quando foi necessário amaciar o medo em noites de vigília. Desta mistura, fomos fazendo uma casa, dois filhos, acolhemos os pais, enchemos o sótão de livros, fizemos mestrados e doutoramentos, tu lá eu aqui. Escrevemos postais e moldámos com paciência a solidão, numa espera amena de outros dias por vir. Acreditámos. E plantámos um jardim, comemorámos com amigos, dançámos até de madrugada. 

Desta jornada a dois e a quatro, nem sempre te dei guarida, nem sempre me deste também. Somos imperfeitos. Mas chamaste-me gaivota e entendeste o meu mar e a minha ocupação pela liberdade. E eu chamei-te colo e aninhei-me nele, nos dias em que as lágrimas me secaram a coragem.    

Olho para trás e vejo tanto tempo. Temos hoje rugas e cabelos brancos e aqui estamos. Quero continuar a acolher o teu ar cansado, nos dias em que não acertas com a vida. Em que olhas à tua volta e entristeces, tu, tão pouco dado a tristezas. Tu, pessoa ética, integra, fiel aos teus princípios e convicções, honesto e dedicado.Talvez seja por isso.

Olho para trás. Entre o tempo que passou e aquele que há-de vir, quero inaugurar dias mais limpos de imposições, para podermos olhar as giestas do Alentejo. E voltarmos lá, todas as primavera. Tu mereces. E eu também.
Parabéns.   

quinta-feira, 9 de maio de 2013

História de amor

Vai ser para a semana, disseram-me.
Um jovem casal vai finalmente buscar o seu filho, depois de o ter concebido meses a fio, num ato de amor prolongado, que fez cama e tomou forma no  lugar do coração e no projeto de vida a dois. A espera foi longa, muito para lá dos nove meses da barriga, porque este filho foi escolhido entre aqueles que já nasceram e esperam, também eles, muito tempo por um pai e uma mãe. Por isso, de tanta espera acontecida e tanto desejo retardado, imagino um encontro trémulo, encantado e um pouco receoso. Olhar-se-ão pela primeira vez e a mãe sentirá talvez umas pequenas dores na parte esquerda do peito e não saberá dizer, claramente, se é do correr da alegria no coração ou do susto doce deste parto a céu aberto. O pai talvez sorria e sem precisar de agarrar na mão da mãe para suster a força, não deixará de ficar estonteado pela chegada do filho, que virá sem o primeiro choro, mas igualmente coberto do muco do amor que foi envolvendo, camada sobre camada, o sonho de uma criança por cuidar. Um filho.  

O filho, um menino lindo, não sei como virá.  Mas terá dentro de si e na mochila transparente onde guardou todas as coisas vividas, um desejo (in)contido de chamar aos quatro ventos "pai, mãe...", e sentir o calor de um abraço que permanece e de um colo que acolhe.  E de uma casa, de uma cama com lençóis a cheirar a ternura, de domingos de manha com torradas, de tardes de passeio no jardim.  Por isso, entre olhares curiosos, sorrisos tímidos, gargalhadas frescas e palavras por dizer, o filho,  sentirá uma alegria imensa e a vontade de que tudo seja verdadeiro, mesmo a sério e  para sempre.

Para a semana apenas será o primeiro dia de uma longa espera do amor, que tardou a chegar, mas chegou. Em casa, o pai e a mãe já alindaram tudo. A avó também ajudou e anda com os olhos brilhantes e o coração suspenso. Prepara-se para contar histórias ao neto, em noites de luar. E ele vai gostar de ouvir. e dizer: "Pai, mãe, a avó contou-me uma história linda...".
Com final feliz, como desejo e sei que esta será.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Fim de tarde

Devagar percorro a rua empedrada e vou a pé até ao pôr do sol.
Nesse lugar em tons de fogo, permaneço inteira a perguntar por ti, ainda que nos meus lábios nenhum som seja percetivel. Evito perturbar o cair da noite e o romper da madrugada, espero a promessa do nascer do dia.  Assim fico, quieta e calada em cima da pedra lisa, agarro os joelhos e neles descanso a cabeça. Do fim das coisas apenas desejo saborear o mel e teimo em ignorar o fechar das portas, em tardes de despedida com fim à vista. O meu lugar é junto à esperança, a  vencer ondas de marés altas, conheço de cor o cabo das tormentas, já fui e voltei. 

De onde estou invento o mundo, com tons de fogo e azul da ria. Ouço o bater das águas nos barcos, o  barulho leve das garças, o vento em redor dos pinheiros, vozes de homens para a apanha do moliço. Nomeio-te e procuro-te nos lugares mais simples e completos, porque da vida se deve recusar apenas a sua metade. Assim te espero. Por inteiro.     

domingo, 5 de maio de 2013

Dia da mãe

Se estivesses cá, poderia dar-te um abraço e um ramo de flores e ver a tua cara sorrir, enquanto ias buscar uma jarra para colocares na mesinha do costume.

Depois, com tanto sol, de certeza iríamos tomar um café e tu vestirias a tua blusa mais bonita. Esperaríamos ainda pela chegada do teu filho, meu irmão, que viria - atrasado -  com a cara iluminada pelo amor e aquele ar de menino, meio traquina, que te levava a dizer vezes sem conta "não sei a quem é que ele sai, assim..." E rias, numa confirmação de amor eterno. 

Como isso não é possível, olho para os malmequeres que inundam os campos que vejo da janela e fico-me pela saudade.
Não há como voltar à tua presença. Isso dói um bocadinho neste domingo de sol, mãe.

domingo, 28 de abril de 2013

Imagens e palavras

Andam a bailar imagens e palavras em mim. Suaves, mansas, algumas espraiam-se como se praia tivessem, outras recolhem-se, timidas, depois de terem assomado à janela do dia e não terem poiso para se aninharem.  Imagens e palavras intactas, com sons e cheiros entrelaçados, por certo comandadas pelo bater do coração e o desembrulhar da memória.

Andam a bailar imagens e palavras em mim: o riscar do lápis no papel, frases ditas em tom solene e inquieto, uma falésia num extremo da terra, becos íngremes de uma cidade,  casas sóbrias, decoradas a castanho e verde seco, rostos de homens e mulheres, corajosos e inquietos. Alguns muito duros. Capazes de arrasar mundo, tenazes e decididos. Para o bem e para o mal.

Andam a bailar imagens e palavras em mim: o crepúsculo do anoitecer com rio ao fundo, o som das portas a abrir, o esgar de um sorriso, o silêncio do medo, beijos apaixonados numa viela, diálogos saldados com cerveja e cigarros, perguntas e respostas em tempo(s) de ditadura. E os olhares de raiva e ódio dos que tomam como suas, razões para torturar. E amordaçar a liberdade.  As mãos destruídas que já não tocam Mozart.  

Andam a bailar imagens e palavras em mim: viagens de barco, com o rio azul e vento, lojas de camisas e portadas com postigos, óculos de ver ao longe e ao perto, estações de combóio, livros como arautos de outro futuro, amizades e compromissos sujeitos à roleta da vida. E do ciúme e da fúria. Mas também da esperança.

Andam a bailar imagens e palavras em mim, porque ontem fui ver "Combóio noturno para Lisboa" e como não sou critica de cinema, posso desfiar sem receio, ao correr da pena, impressões que me ficaram. Numa seleção breve, perante tanto que gostei do filme.  
Por isso, hoje, andaram a bailar imagens e palavras em mim. Muito mais que estas.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Onde estavas no 25 de abril?

Lembro-me muito bem do 25 de abril, estava em Almada. Tinha 17 anos e andava na escola Emídio Navarro. Acordei com o rádio a tocar e a minha mãe a dizer que tinha havido um golpe de estado, ou uma coisa assim, dizia ela e que não podía ir à escola. Estava com medo e preocupada. Apesar  de me ter dito para não sair de casa, aproveitei uma distração sua e escapei-me, com o coração a bater de alegria, um pouco estonteada. Queria ver e ouvir, presenciar e ter a certeza de que estávamos livres. Fui ter com a minha maior amiga e decidimos ir para Lisboa, era lá que tudo se estava a passar, não podíamos perder pitada de nada.

Em Cacilhas, de manhã parecia a tarde em hora de ponta, os barcos traziam muitas pessoas que regressavam a casa, por precaução. Ao tentar entrar no barco, disfarçadamente, demos de caras com um amigo do meu irmão que com autoridade e sem hesitar, nos impediu a ida e a aventura que planeávamos. Furiosas, mas sem poder fugir, obedecemos e jurámos voltar para casa. Iniciámos até o regresso, mas quando pudemos, virámos em direção ao jardim do castelo, para ver o rio e olhar Lisboa, do lado de cá. Mantínhamos a ideia de estar no meio das coisas, queríamos saber o que estava a acontecer e testemunhar tudo de perto. Era de certeza uma situação muito importante, sabíamos, apesar de muito jovens.

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No jardim nada acontecia e nós, num gesto de rebeldia, começámos a gritar liberdade e apanhámos umas flores de um canteiro junto a uma casa, de cuja janela saiu um rosto de uma senhora que gritou indignada:
- O que é isso meninas?  mas já ninguém tem ordem nisto? é isto que vai acontecer...

Fugimos a rir às gargalhadas e não me lembro de muito mais, a não ser que passei o resto do dia colada à rádio, contente e emocionada, a lembrar-me de situações que me tinham acontecido e que me confirmavam a certeza de estar a viver um dia único: os papéis que apanhava nos dias 1º de maio e que o meu professor de português dizia para guardar, porque eram perigosos; os livros que lia, na casa do meu irmão - a viver em conjunto com amigos -  que eram sobre poesia, politica, os campos de concentração na Alemanha; umas figuras de preto que chegaram um dia a uma coletividade onde fazia trabalho voluntário com crianças e que não permitiram que houvesse uma reunião de pais; o meu irmão a contar que tinha andado a fugir à frente da  policia, no Instituto e outras coisas que sabia e sentia,  porque como nos diz o poema, vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar. Apesar dos meus 17 anos, ouvia em casa do meu irmão Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira e trauteava as suas canções.

Nesse dia também cantei a Grandola e sempre que a ouço cantada pelo Zeca, emociono-me. E lembro-me do 1º de maio de 1974. Estive lá e nunca mais vi tanta gente junta a festejar a liberdade, a libertação dos presos políticos e a possibilidade de sermos livres. Nunca vi tantos abraços, tanto riso e tanto alivio. Uma longa noite tinha acabado e os dias de sol aí estavam, desafiando-nos a construir a vida, plena, cheia de futuro e liberdade. Até hoje, acho que é o nosso bem maior. Que como cantou o Sérgio Godinho ontem à noite, tem que ter, bem junto a ela, a paz, o pão, habitação, saúde, educação. Para todos.

Hoje, o 25 de abril faz 39 anos.
E já recebi o ramo de cravos, que o meu irmão me dá todos os anos. Um ritual por ele estabelecido e pelo qual sempre espero. Damos um abraço e dizemos "viva o 25 de Abril!". E só assim a comemoração fica cumprida. Com cravos e afeto(s).