segunda-feira, 8 de abril de 2013

A importância dos registos

Estou para aqui meia calada, assim com uma ponta de saudade e nostalgia, a relembrar o que hoje vi e aprendi. Ficaram-me na retina e na memória as imagens das fotografias e uma espécie de cheiro desse tempo. Creio mesmo que sinto as brincadeiras do recreio e o jardim meio selvagem, cheio de esconderijos fantásticos que os arbustos e as ervas "não tratadas", permitiam. Não sabem do que falo? Eu conto.

Em 1978 uma jovem educadora iniciou o seu percurso de trabalho, num jardim de infância em Lisboa. Trazia dentro de si todos os sonhos para fazer educação que é como quem diz, educar e cuidar de crianças, o melhor que pudesse e soubesse. Para isso sabia da importância de fazer caminho em companhia aprendendo com os meninos, as famílias e colegas mais experientes. Aceitou assim o desafio de deixar entrar na sua sala uma Educadora de Infância do Ministério da Educação, que na altura, acompanhava, em jeito de supervisão (não se conhecia o conceito, mas era isso...) os jardins de infância da rede publica. Aceitou o desafio com receio, mas cheia de convicção. Os olhares dos outros, se amigos, ainda que às vezes criticos, como convém, só nos podem ajudar a sermos mais e melhores profissionais.

Passado 35 anos, numa formação sobre portfólios que a educadora frequenta (já não é jovem, entenda-se, mas ainda acredita na necessidade de uma continua aprendizagem, sempre em companhia) a formadora faz uma surpresa, coloca um projetor (antigo) e começa a passar slides, tirados em 1978, num jardim de infância de Lisboa.

impressões, mãos, criançaEis que me vejo, entre meninos e com eles, a preparar um "projeto" (sim estre aspas, nessa altura pouco se falava disso) para comemorar o dia da criança, em conjunto e para os meninos da primária, de uma escola vizinha. Entre o espanto e a emoção, fiquei para ali a olhar, concentrada nas imagens de meninos e meninas que hoje têm mais de 30 anos e que à minha frente, se revelavam a fazer coisas...combinar e escrever o que gostariam de fazer: teatro, bolinhos, uma corrida...foi necessário escrever os números e decorá-los para colocar na camisolas, colocá-los por ordem no placar, bater a farinha e o acúçar, colocar os bolinhos nas formas, inventar a história para o teatro, distribuir as personagens, abraçar uma menina mais "irrequieta", dar tempo aquela que chegava sempre tarde (os pais eram atores, eu compreendia e recordei o ar teatral desta minha menina, que chegou a ir ao jardim zoológico com um vestido até aos pés).

Apesar de não me lembrar de tudo (será que esqueci o essencial?) com as imagens, alguns nomes de meninos romperam em mim, de repente e lembrei-me de muitos deles, desse tempo e de um certo fazer pedagógico...e espantei-me e emocionei-me e calei-me. A formadora (a mesma que em 1978 me inundou a sala com uma máquina, apoio e muito saber), fez a narrativa, com uma memória absoluta, que avivou a minha e o processo de trabalho. Para além dos produtos (e sim eles estavam ali, podiam ser vistos) o como e o porquê fundamentais na pedagogia

E recordei este início de profissão, a força que punhamos em tudo o que fazíamos, a descoberta de ser educadora na rede publica, acabadinha de ser criada, com gente como eu, acabadinha de vir da escola de formação. Valeu-nos o sonho, a procura, o investimento, o desejo de saber mais e melhor. E valeu-nos, na altura, este apoio de educadoras experientes que com entusiasmo, seguiam o que faziamos, apoiando, provocando, ensinando. Em supervisão.
O meu muito obrigada, Mili. Ah, e também por me ter visto tão jovem e tão novinha. Que saudades!

domingo, 7 de abril de 2013

Pedagogia ao sábado

Sábado cheio. Completamente. Cheio de pessoas, palavras, opiniões, teorias. Um vai e vem constante, gente que sobe e desce escadas, sorri por se rever, protesta porque não concorda, pergunta para saber, comenta e afirma. Uma sala cheia de gente. Gente que pensa, ama, decide, recusa, interroga-se. Abana a cabeça a dizer que sim, desvia o olhar a dizer que não. A espantosa aventura da diversidade e da diferença. Não apenas do rosto, da expressão, dos adereços, da idade. Sobretudo da lonjura dos horizontes e das perspetivas que defendem.

Um sábado cheio de gente. Unidos pela profissão, ali estavam, sedentos por ouvir, curiosos, interessados e atentos. De vez em quando um burburinho espalhava-se pela sala, confontavam o que ouviam com o que faziam, só assim se explica as constantes conversas em tom baixo para a colega do lado.

Lá à frente, a formadora com larga experiência, mostrava a paixão pelo que dizia e acreditava ser fundamental na educação das crianças até aos seis anos. A importância da escuta do adulto, a criança como atora do seu mundo, a ética nas relações, a pedagogia como ação intencional para um desenvolvimento e uma aprendizagem com poder e participação por parte da criança. A crianças como agência. E dizia e repetia e inundava o tempo com energia e saber. Depois uma educadora, aqui também formadora, a mostrar como faz e pensa e projeta a intervenção, na sua escola, com as colegas. Um trabalho sério e investido, refletido e continuamente avaliado. A riqueza de um quotidiano pedagógico, dito e revelado de forma simples, mas profunda. Contado na 1ª pessoa, mas resultado de uma postura coletiva e de equipa.

Depois as perguntas, no meio das intervenções, era preciso perceber melhor, para apontar nas folhas e registar na memória. Também os desabafos em voz alta, a dizer da falta de condições, a protestar contra os responsáveis, os do Ministério, que muito falam e pouco fazem. De novo as perguntas, mais situadas, sobre o que foi dito e contado, que é preciso não desistir, mesmo quando tudo é contra e nada a favor. É preciso tentar, nos corredores de liberdade, que cada profissional possui, fazer o melhor possível pelas e com as crianças e o seus contextos de desenvolvimento e aprendizagem.

No fim, tudo a sair, muita gente, educadoras unidas pela profissão, de vários locais e contextos de trabalho. As despedidas, mais um café, grupos a sair e a subir as escadas, risos e conversas, arrumar os livros, os computadores, as mesas, as máquinas de café, deixar tudo arrumado e no sitio.
Quando por fim todos saíram, a sala ficou em silêncio. No meio dela, sem ninguém por perto, parecia ainda ouvir-se todas as ideias ditas sobre a educação dos mais pequenos, que necessitam de muitos destes sábados para que aprendamos a servi-los cada vez melhor. Como é de seu direito de pessoas a crescerem, coisa que sendo evidente, não é nada simples nem linear.
Sábado cheio. Completamente.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Conversa com a minha mãe

Precisava que estivesses agora aqui, é abril e em abril, nunca te disse, mas os sonhos são mais prementes e também mais voláteis, escapam-se num ápice pelos gestos mais distraídos, estamos à janela do tempo, a olhar para as flores, a espiar a chegada da primavera e lá vão eles sorrateiros, para outro poiso fazer o mel, parecem abelhas inquietas...
- Falas de quê, tu? 
- Dos sonhos mãe, e por isso dizia que precisava que estivesses aqui...
- Para me falares de sonhos?
- Sim. Não, deixa. Queria só que viesses, a andar lentamente, e depois tomávamos café com leite, na cozinha, enquanto faziamos o jantar. Tu arranjavas os grelos e eu descascava as batatas...e falávamos de coisas simples, talvez da chuva que cai há tantos dias, sem ponta de sol a sério...
- E a casa, na terra, há-de estar tão húmida! Tenho que telefonar, para que a vão arejar...

E depois a água da panela fervia e punhas lá o bacalhau e provavas de sal, para ficar saboroso, à tua moda.  E era à tua moda e contigo que hoje queria estar, a escorregar pelo dia que se aproxima da noite, sem estrelas e luar... 
- Está escuro como breu, nunca mais os dias ficam compridos. Quando chegam os rapazes?

Ias espreitar a rua e o seu regresso a casa e porias a mesa, desalinhando os talheres, como sempre fazias. Uma marca tua, criativa, que nos fazia rir. A ti também. Depois jantávamos e ias depressa ver um debate televisivo, sentada no teu sofá. E atenta, farias os teus comentários habituais, que inundariam de interrogações a sala morna com a nossa presença. 

Era assim que eu precisava que fosse o início de abril, tu connosco, para espantar este inverno que vem de longe e não me dá folgas. Nem folgas nem alentos, deixando os sonhos em suspenso, como bolas de sabão que ao minimo movimento, rebentam. Os sonhos são coisas muito frágeis, mãe. Mas acho que não te diria nada sobre isto. A tua presença a cirandar pela casa bastaria para aquietar o tempo.
- És sempre a mesma, preocupada com tudo. Eu acho é que estudaste muito. E lês muito e escreves muito. E pensas muito. Se calhar teria sido melhor teres ido para costureira...

Se calhar mãe. E se calhar abril seria mais fácil e a vida também. E se calhar não teria tantas noites como esta em que precisava que estivesses aqui. Para aguentar o dia que amanhã vai chegar.          

domingo, 31 de março de 2013

Domingo de Páscoa

Domingo. Desta vez, dia de Páscoa. A mesa está posta com as amêndoas, o folar, arroz doce, sericaia. Os rapazes estendidos no sofá, os gatos dormem, cai sobre esta casa o silêncio. Apenas o barulho do teclado, o cair da chuva, os pensamentos e as memórias. Vagueiam num ir e vir manso, um pouco inconstante, entre a serenidade e a melancolia.
Faz-se a festa como se pode, é Páscoa, é preciso manter os rituais para que iluminem e incomodem o correr dos dias pardos, sem cor, que abundam há muito tempo. É preciso resistir, torcer o destino, aplacar a dor e a saudade. De tudo o que imaginámos ser realidade e apenas foi intenção.  Mas o que não foi, jamais será, resta-nos a força para inventar outra ressureição.
E porque a fragilidade é hoje um estado de alma, visitemos Eugénio de Andrade para alimentar a persistência.    

Procuro-te

(...)
Procuro-te: fruto, ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais.
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

(...)
Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Na ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre - procuro-te.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 25 de março de 2013

Palavras emprestadas: Não posso adiar o amor

O domingo terminou. Já é noite e ainda tanto por fazer! Refeições, roupa e loiça e coisas assim, necessárias e importantes para quem vive... tento ignorá-las, não me apetece, escondo-me no sótão e procuro livros, palavras melodiosas, quero sons bonitos em meu redor, preciso abafar alguns ruídos ensurdecedores das tarefas do quotidiano. Necessito de abrir uma janela inteira e ver a luz e o mundo. Cheio de poesia, se for possivel.


Não posso adiar o amor
(...)

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa "Viagem através de uma nebulosa"

terça-feira, 19 de março de 2013

A ver o menino

Aproveitámos a hora do almoço e lá fomos, quatro mulheres na casa dos cinquenta, a rir de contentamento, parecíamos até mais jovens, tenho a certeza, tal era o entusiasmo. Quem nos visse não nos dava a idade que aparece no B.I. e quase nunca nos lembramos, a não ser em alguns dias de rugas mais marcadas pelo cansaço. O destino era a casa de uma amiga nossa, na zona de Benfica, para vermos o neto, o Manel, sobre o qual já escrevi um texto neste blog. Entrámos e o menino dormitava, descansado, perante o riso doce da avó, que bem investida do seu papel, se apressou a explicar "ele está quase a acordar e depois vai comer". E tudo estava pronto. O biberon com o leite, a caminha para dormir, os brinquedos, o babete...e nas paredes, as fotografias do menino, que tendo chegado ao mundo há pouco tempo, já tinha lugar de destaque na família e na casa da avó. Como sempre deve acontecer a um recém nascido, para um bom acolhimento e um sentimento de segurança.

E o menino acordou e olhou para as caras que um pouco sofregamente, pairavam sobre ele, mortinhas por o ter no colo. Soltavam-se das nossas bocas sons abebezados, os nossos braços e mãos estendiam-se, entre o ir e ficar, meios contidos, não fosse o menino assustar-se. Depois foi o tempo do biberon a avó com jeito de mãe, sentada no tapete com o menino no colo, a beber o leite com gosto e satisfação. Uma de nós ainda mudou a fralda, com perícia e muita conversa, que os bebés precisam de ser cuidados com tempo e alegria. Mais ambientado, passou de colo em colo e de braços em braços, matando o nosso desejo de ter um bebé juntinho a nós, sentindo o seu calor e o seu cheiro.  E ele riu-se e olhou e observou e respondeu, na sua fala e nos seus gestos de gente entendida com os outros. Apesar de tão pequeno.

Depois viemos embora, com o desejo consolado. Tivemos o menino nos braços, vimos o seu riso, comunicámos com ele, demos mimos. E sentimos o amor da avó e uma espécie de renovação da maternidade, agora mais descontraída e amadurecida. Como sempre deve acontecer quando se é avó. Coisa que nenhuma de nós é e no entanto, gostaria de ser. A seu tempo, claro que sabemos da importância extrema de cada bebé poder nascer quando os pais assim o desejarem e puderem.
É assim que dizemos, é assim que pensamos.
Mas isso não anula uma vontade imensa, secreta, algo inconfessada de querer ouvir "avó, olha, já cá estou. Brinca comigo, brinca..."

segunda-feira, 18 de março de 2013

Solidão

É um homem só.
Afaga o cabelo com gestos delicados, quando o vento sopra atrevido, levantando as folhas secas dos caminhos, em coreografias agitadas, ainda que muito belas. Estando só, quer manter-se inteiro, não aceita descompor-se por fora, quando muito está descomposto por dentro e isso basta. Assim, compõe o cabelo vezes sem conta, para que tudo esteja no sitio certo e  o seu rosto surja sereno e indecifrável. E surge.

Sempre que entra em casa, procura a janela e a linha do horizonte, gosta de ver os pássaros em voos rasantes, o pôr do sol e o nascer da lua renovam-lhe a promessa de um recomeço, sabe-se só e não desespera, mas deseja partir pelas madrugadas de um tempo futuro.

Pensativo, percorre quilómetros sem sair de casa, avenidas largas e países novos, oásis de liberdade onde pensa poder ser feliz. E fechado no quarto, inventa amores de causas maiores, acordes perfeitos que ensaia com timidez no quente da solidão.

É um homem só.
Depende se algumas memórias e sonhos por cumprir, acalenta-os em manhas de primavera que ousa desejar e teima em perseguir, sem contar nada a ninguém. Quando o interrogamos responde rápido e com voz baixa, disfarça o tremor que lhe consome a garganta e sorri.

E porque olhamos com olhos de ver e amor ilimitado, confirmamos que é um homem só, com doses suaves de sofrimento e coragem do tamanho do mundo. Assim o amamos e assim o queremos: menos só, mas sempre inteiro e coerente.