domingo, 10 de fevereiro de 2013

A casa e o mundo

Deu-me um livro pequenino, uma espécie de bloco de apontamentos minúsculo, com uma fita bordada a fechá-lo, igual a outros que tem lá em casa, em cima das estantes, junto a postais, caixas redondas, pisa papéis italianos, panfletos de cinemas antigos ou museus, velas vermelhas, sinos,  fotografias, castiçais, almofadas castanhas com gatos azuis, cortinas cremes, com renda, capas com textos, muitos livros, musica. Muita musica. Um lugar cheio de objetos bonitos, próprios, pessoais, com muitas memórias e outros mundos, que não apenas a rua e os arredores onde foi construída a casa onde vive.

Gosto de ficar por lá, beber o café e conversar, mas gosto sobretudo de olhar e confirmar um dia após o outro que este é um templo, um espaço para se ser, lugar de vida e recolhimento, inquietação e harmonia, liberdade e afeto. Um lugar com tempo. O de ontem, o de hoje, o de amanha. Um lugar com história inacabada, principio e meio. O fim não existe, virá num futuro muito longínquo.

Gosto de casas, sobretudo daquelas onde os objetos são escolhidos e pensados lentamente, a revelar a vida dos que nela moram, a impor uma ordem e uma estética, a traduzir um maneira de ser e estar. O interior das casas são cultura, afetos, ideias, gostos, sonhos. Também alguns desgostos, também algumas dúvidas, também algumas penas. Mostram e escondem. As casas falam uma linguagem muda e no entanto, absolutamente audível e explicita, quando com tempo e curiosidade, nos detemos na sua contemplação.

Porque há casas que são o prolongamento do corpo e do coração dos homens e das mulheres que nelas vivem. Ou viveram. Mesmo. Bonitas e interessantes, cheias de mensagens e recados. E avisos. Dizem por exemplo, aqui mora alguém que ama a poesia, as memórias, que é e já foi feliz, que correu mundo, apesar de pouco ter viajado, que gosta de arte, que preserva os afetos, que teve infância, que amou, que lutou, perdeu e ganhou...

A casa onde hoje estive e estou muitas vezes é assim. Um gosto para os olhos, uma lição de vida. Porque é de vida que falam os objetos que nela estão, numa dimensão longa e envolvente, ainda que a casa não seja grande e a sua arquitetura, absolutamente comum.
Mas se olharmos com olhos de ver, tudo cativa e prende, parece um nicho, um regaço, e contudo, estamos na casa e sentimo-nos na rua, rodeados de imagens de galerias, pedras da praia, estrelas do mar, folhas secas de cor purpura, peças de artesanato, uma camilha muito branca sobre a mesa.
Tudo colocado num lugar exato, que é aquele e não outro, porque tudo está em relação e complementaridade. A poesia da Sophia ao lado do Fernando Pessoa, mais acima Manuel Alegre, Joaquim Pessoa, Natália Correia, Virgílio Ferreira, Jorge de Sena. E outros, muitos outros. E musica, muita musica. Maria João Pires, José Afonso, Carminho, Bethoven.

Eu não disse? Podemos-nos sentar na casa, colocar o CD do filme "Africa Minha"  e viajar no mundo, com as palavras. Bem aconchegados numa almofada com um coração bordado. Posso beber mais um café?   
  

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Dias de verão

Hoje estou cheia de bocados de saudade e réstias de sol no cabelo, como quando corria nos campos da minha infância, pisando, estonteada, tufos de erva molhada e chapinhava, com força, os pés nus nos carreiros de água a deslizar veloz pelo aido. Sinto a falta da terra, do cheiro das sementes, do sol a bater na eira, da sombra do alpendre, das joaninhas e das abelhas que voavam velozes e davam ao verão um zumbido de tempo inteiro.
O tempo não terminava mais e nós, com os corações a bater de tanta correria e descoberta, a mandar o corpo para cima da palha das espigas. Sem medo, tanto pó no ar, nós a sacudir a roupa, com gestos rápidos e as faces coradas de tanta brincadeira e contentamento. Depois a serenar, corpo parado, alma atenta, olhos brilhantes, felizes. Em silêncio, quietos, com cara ainda de riso, a olhar para os grandes, a sondar da sua condescendência e permissividade.

Podemos? Podemos, estão distraídos e ocupados, ceifar o milho, secar a palha, regar a terra, apanhar as uvas, guardar os animais. Recomeçar, novas corridas e gargalhadas, brincar às escondidas, enxotar o gato que atrapalha a corrida, sai sai bichano, danado, não posso parar, já não ganho...e abraçar a árvore, para descansar, por entre a algazarra e gritaria. Onde estão todos? já te vi, sai daí, assim não vale... 
Hoje estou cheia de bocados de saudades, imagens, lembranças, cheiros e coisas assim. Saudades de lugares e pessoas, o cheiro do café, as padas grandes com manteiga, o copo de vinho na mesa da cozinha, a maceira da carne,  o andar da minha avó, o caminho para a ribeira, a venda das nabiças na feira do largo da igreja. E o ceú azul, muito azul. E a eternidade da vida. Assim pensava eu, quando ouvia o cantar dos grilos e o coaxar das rãs junto ao moliço, na beira da ria.

Nunca mais vivi dias assim. Lentos, quentes e preguiçosos. A saber a amoras, ameixas vermelhas e uvas amaricanas, como dizia o meu avô. Ácidas e doces a desfazerem-se na boca. Tenho saudades disso.    


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Contas à parte

Temos a idade que temos. O caminho que percorremos já leva muitos quilómetros de estrada, conhecemos todas as curvas e pedras dos atalhos, o cheiro fresco do rosmaninho, a claridade dos campos a céu aberto e no entanto, ainda nos surpreendemos.

Num dia qualquer em que acordamos contentes e lentos, prontos para saborear mais uma jornada, ficamos de repente atónitos, incapazes de aceitar os sinais e as palavras que nos apresentam, num discurso de justificações claras, como se de uma operação aritmética se tratasse. Dizem-nos tudo, com uma evidência desarmante e no fim, somando e subtraindo ...9 fora, nada. Nada?  Como nada, se somos feitos de mil razões, ideias, sentimentos, ambivalências, crenças, desejos? digo mil, mas poderia dizer mil milhões, tal é a diversidade e complexidade da nossa natureza de pessoas que respiram.

E falta-nos a coragem e a lucidez para dizer que para os enredos da vida, as provas dos nove não se aplicam. A utilização de regras das ciências exatas para decifrar os mistérios de sermos gente são de reduzido alcance e proveito duvidoso. Não se enquadram, não se ajustam. E no entanto, ao nosso lado,  homens e mulheres seguros e incontestados, afirmam com evidência soberana, premissas irrefutáveis então, não vês que é assim? nem há mais nada para dizer, está visto e revisto... Não têm duvidas e raramente se enganam.  Para tudo têm uma explicação. Lógica, dizem, dando a conversa por terminada. São excelentes, dizem alguns, pragmáticos e racionais, dizem outros, com cabeças arrumadas e respostas rápidas.

Pois serão. Apenas não conhecem o tremor dos lábios numa conversa a dois, as gotas de orvalho nas madrugadas frias, o cheiro do pão quente com manteiga, o embargo da voz numa despedida, a cor das amoras a salpicar as silvas...
Apenas não sabem de que cor pintar a vida nem recitar poemas de amor. Atrapalham-se. Nunca dirão, apaixonados e inquietos

"A este desespero azul
de te querer ao pé de mim
chamam os homens amor.

Mas o amor é outra raiva
de arrancar o sol da lua.
É andar com as andorinhas na algibeira
e dependurá-las na chuva..."

José Gomes Ferreira

domingo, 27 de janeiro de 2013

Gente rara

Ainda bem que temos gente que é capaz de olhar à sua volta e ouvir o silêncio das dores dos outros. É gente capaz de se apresentar de corpo inteiro para o que der e vier, ainda que raramente digam ao que vêm e nunca façam alarido da sua amizade e solicitude.

Discretos, sensíveis e pouco palavrosos, deles recebemos o sabor do mel, o calor do olhar, a alegria do riso.
Estão onde sempre necessitamos de os encontrar, quando já não sabemos lidar com noites longas de solidão, tardes de tédio, dias cinzentos de chuva.
Chegam e não cobram nada. Apenas aceitam um café, um chá de limão ou um chocolate quente. E assim ficam. Despojados de si e concentrados em nós.

É gente rara, mas existe. Com eles as manhãs são recomeços desejados e os sonhos ideias a alimentar e a perseguir. E isso é bom.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Dia inesquecível

Queria-me agora como há 27 anos.
Estar à tua espera, com a barriga muito grande, curiosa e calma, que medo nunca tive, não me perguntes porquê. Ir para o hospital no dia 25,  exatamente quando o médico disse que nascerias, ter o avô e a avó à tua espera e alguns amigos também. Com chocolate e sumo. E o jornal "sete", para eu ler na cama do hospital onde te fui acolher. Da minha barriga para o mundo, primeiro para o nosso, aquele que à partida te foi dado, por teres nascido de mim e do pai.

Queria muito que a avó estivesse agora aqui connosco. Lembro-me dela a entrar no hospital, com o braço do tio por cima dos seus ombros. A sorrir, parecia atrapalhada.  Amou-te desde o dia em que te viu e assim continuou pela vida fora. Foste o neto preferido, não que o dissesse, mas via-se na maneira como descansava os olhos em ti. Admirava a tua maneira de ser e a tua disponibilidade. Esperava que viesses da faculdade, para almoçares e contava-te todos os seus segredos e lamentos. Achava-te um bom ouvinte. E ria-se a bandeiras despregadas quando, a brincares com ela, imitavas o seu jeito de andar. Gostava que ela aqui estivesse e te olhasse de alto a baixo, encantada, a sorrir. E depois de um silêncio longo, sentada no sofá, dissesse  "é bonito, não é? está feliz, não está?". Se te sentisse triste, entristecia também.

E queria ter-te de novo a nascer. Ou pelo menos, sentir o calor da tua pele contra a minha e os teus bracinhos à minha volta. E os risos e as  brincadeiras e a tua atenção. Sempre extrema, sempre presente, sempre aguçada e inteligente. Olhavas para as coisas à tua volta e sabias exatamente o que elas queriam dizer. Sabias, mesmo sem saberes dizer. E eu sabia que sabias. A nossa comunicação sempre foi intensa, suponho que isso acontece entre todas as mães e filhos. Talvez com uns mais do que com outros. Pelas mães e pelos filhos, claro, e pela forma como conseguem "exercer" essa condição.

Queria voltar a sentir o teu cheiro de bebé, as covinhas que fazias quando rias, o teu ar lindo vestido de cor de rosa. Sempre quis contrariar os esteriotipos e os meninos de azul não tinham assim tanta piada. Quer dizer, ficavas muito mais bonito de rosa, uma cor suave que contrastava com a tua pele morena. Tenho muitas fotografias dessa altura, tu a sorrires, muito fotogénico. Pudemos tirar muitas, ainda não dizias que não, só começaste a recusar fotografias muitos anos mais tarde.

Como não podes voltar a nascer, nem eu posso voltar a ter uma barriga enorme, amanha, vou dar-te um beijo, ver muitas fotos tuas e deixar que a saudade me invada. Ando saudosista, eu sei, à procura de mim e de nós, na vida e no futuro. Sempre fui assim, continuo assim. É uma espécie de projeção, de voo direto para a frente, uma espécie de lançamento de dardo, uma corrida de fundo. E ninguém, nem mesmo uma mãe, se aventura para o futuro, sem pegar balanço no passado, arquear o corpo e lançar-se.

Nada melhor para este golpe de asa que relembrar os dias inesqueciveis da vida. Como aquele em que nasceste, 25 de janeiro, um sábado com chuva e vento, em Lisboa. Parabéns, filho. 

domingo, 20 de janeiro de 2013

Tarde demais

Não houve tempo para deitar as sementes à terra, regá-las com cuidado, apreciar o seu desabrochar e vê-las crescer. As folhas, as flores, depois os frutos. Não passámos do frio do inverno, embora tivéssemos sonhado com a primavera e desejado o verão. Mas não houve tempo.

E assim ficámos. Tristes, resignados e vencidos. Sem nada. Apenas uns livros e uns poemas, para levar debaixo do braço enquanto percorremos o jardim, que sem flores é uma paisagem inócua, neutra e limpa.

Não soubemos dar tempo ao tempo.

Hoje temos tempo de sobra para limpar todos os trilhos e canteiros do jardim, mas não há folhas, pétalas, bocados de troncos ou raízes. Está tudo absolutamente arrumado e certo, a nossa tarefa afigura-se inútil e o tempo de que dispomos, também.
Veio fora de tempo, como sempre acontece quando não podemos ou sabemos dar tempo ao tempo, no tempo certo. 

Não soubemos fazer como diz Eugénio de Andrade


Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Convite

Queria convidar-te para te aproximares e te sentares à soleira da porta, como a minha avó fazia quando comigo queria ter uma conversa séria. Séria porque reveladora, assim achava eu, admirando a sua pouca tendência para falsos moralismos e atitudes conservadoras. Falava e eu compreendia, ficando mais sabedora da vida e dos seus mistérios. Ouvir a minha avó era ouvir para além dela, porque ela parecia conter o mundo todo. Assim queria eu que acontecesse comigo. Aceitavas o meu convite e sentavas-te na soleira. Com tempo. E falaríamos de quase todas as coisas que não podem ser ditas, mas que florescem com força, junto de afetos profundos e apoios incondicionais. Dão-se bem em locais e com gente assim.

E eu passaria a mão pelo teu cabelo, dar-te-ia um abraço e o meu colo, para que pudesses repousar do cansaço e adormecer um pouco, aquietando a respiração e o desalento. Ficaríamos assim, quietos e mudos, apenas o corpo amparando o ser um do outro, porque assim é que deve ser. Então,  talvez à nossa volta fosse possível vislumbrar umas pequenas heras, trepando sem parar por todo o lado, confirmando que o amor, quando quer, é um movimento perpétuo, crescente e contagioso. Alastra em muitas direções, marca terreno, infiltra-se e ganha raízes. Fica condição de gente madura e livre. De gente sem medo. De gente competente, lutadora e resistente.  

- Quem, o amor? por favor, é coisa pouca, relativa e passageira. Sei que dirias isto, abanando a cabeça, naquelas verdades de juventude que tudo sabe e pouco acredita. E irias embora, impaciente, pensando de ti para ti que não há solução para a minha teimosia. E eu ficaria na soleira, ainda a sentir as heras, juro, a vê-las a alastrar em muitas direções e a querer chamar-te para te mostrar a minha ideia e convicção. E as heras. E lembrar-me-ia de novo da minha avó e desejaria ter a sua capacidade para conversas a dois, que sendo a dois, envolviam quase multidões. Por isso eram tão especiais.

E ao ver-te partir, teria vontade de te falar de novo do princepezinho e da raposa, do "essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração" e "ficas para sempre responsável por aquele que cativaste"...Mas sei que não ouvirias. E contra minha vontade, sei que talvez desistisse.

Também,  este é um tempo onde existem poucas soleiras de porta, eu sei, talvez este convite não deva ser feito, ou pelo menos impõe-se a mudança de local. Tomando esta providência, achas que já seríamos capazes de conversar?