domingo, 30 de dezembro de 2012

Monólogo em final de ano

Adivinho-lhe o coração. As penas e as dores. Os sonhos sonhados no silêncio do quarto, as lágrimas a correrem pela cara, a raiva contida, o medo de falhar, ver-se ao espelho e achar-se nada. Adivinho-lhe a tristeza, por detrás do rosto simpático e do riso doce. Adivinho porque sinto, adivinho porque conheço, adivinho porque sei.

E é isto que vamos fazendo ao longo dos dias e dos anos, ensaiando leituras silenciosas de nós e dos outros, porque nem tudo se pode dizer com palavras e nas coisas mais profundas, às vezes vale a pena silenciar. Eliminar as conversas, quantas vezes fonte de mal entendidos, magoam mais que consolam.
E ficamos assim, entre o sentir e calar, a deslizar devagar por entre os dias que correm e as noites que se alongam, dizendo e desdizendo, face à vertiginosa e surpreendente realidade da vida.

E por aqui estamos, à espera de um novo ano, que apenas vai ser novo porque o investimos recatadamente e em silêncio, de mil desejos e promessas. Sem contar nada a ninguém. E muito para além das passas, das badaladas da meia-noite, do brinde com champanhe.

Para além disso, fica tudo o resto, que é muito, que não sabemos dizer em palavras e que guardamos no nosso coração. Como o único lugar possível e seguro para guardar segredos. E monólogos.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Lições de pedagogia: ser-se quem se é

Era uma menino assertivo, tinha uns olhos azuis muito grandes e curiosos, sempre à procura de todas as novidades que o mundo lhe pudesse dar. Atento, as suas intervenções eram sempre muito diretas e incisivas, bem como as suas opiniões, que não deixava por boca alheia. Uma vez a ouvir uma poesia sobre o arco-íris e a amizade, não se coibiu de afirmar, isso não é verdade, essa coisa do arco-íris da amizade não existe, só se for aí nas palavras ou na vossa cabeça referindo-se a mim e ao grupo que tinha gostado da poesia. Retorqui como soube e pude, defendendo a liberdade de cada um poder acreditar no que sente e no caso, poder imaginar o arco-íris, as cores e os amigos. Fiz uma defesa forte pelo sentido da palavra e da poesia e ainda me lembro do seu silêncio a olhar para mim e da contrariedade de não lhe ocorrer nada para dizer, depois das minhas razões.    

Um dia, perto do natal, esteve em silêncio a ouvir o  planeamento que fizemos para a festa e nada disse. Sabia que não podia participar nestes festejos - a cultura e a religião que professavam em casa não o permitia - limitando-se nestas situações a fazer outras coisas, aceites por todos, depois de um dia ter apresentado ao grupo os seus motivos e eu ter ajudado na sua explicitação. 

Como sempre, depois do planeamento, metemos mãos à obra e lá fomos organizando a festa, sendo necessário, em alguns momentos, fazer ensaios, porque o grupo tinha escolhido apresentar um teatro.

Lembro-me de ter cuidado em não encher os dias só com estes momentos, permitindo e favorecendo a manutenção das rotinas e de um ambiente o menos stressado possível, convicta da importância de conceder ao natal a sua importância, sem contudo lhe dar um estatuto de hipótese única na sala. Porque é assim que entendia a intervenção com as crianças e também porque pensava no menino e na sua necessidade e direito de inclusão no trabalho diário. Mas sei que apesar destas preocupações, o natal invadia o espaço, as conversas e as produções das crianças.

Numa dessas manhãs, mais perto do dia da festa, íamos a entrar na sala, depois do tempo de recreio e o menino disse-me:
- Anda cá, Manela, quero dizer-te uma coisa
- Diz lá, disse eu, rodeada de muitas crianças
- Não, não pode ser assim, tem que ser em particular. E afastámo-nos os dois para um canto, sem ninguém presente
- Manela, não me digas que agora vais entrar e vais começar a ensaiar...
- Sim, temos que fazer isso, muitos meninos entram na peça e muitos têm faltado, precisamos de acertar tudo...
- Bem Manela peço-te que não faças isso...ainda por cima tu não és assim, não és essa educadora, és diferente...
- Diferente como? 
- Diferente, sabes aceitar as coisas, sabes pensar em tudo, tu não és assim, tu não és essa educadora...


Ri-me a abracei-o. Lá fomos para a sala e nesse dia não fizemos ensaios. Nos outros, que se seguiram, ensaiámos sem pressa e com o menino a fazer de encenador, dando a sua opinião e sugestões aos companheiros. Tínhamos combinado que essa seria a sua função, em conjunto comigo, situação que aceitou de bom agrado e fazia na perfeição. Foi fundamental no apoio aos colegas e ele sabia disso.

Sempre que é natal e estou no jardim de infância a trabalhar lembro-me do R.  e tento ser a educadora que ele me disse que era, em forma de chamada de atenção e aviso. Tento não perder o norte das minhas convicções e não encher as crianças de mil tarefas esgotantes e às vezes pouco significativas sobre o natal 

 E tento sobretudo respeitar aqueles que por opção ou condição familiar, o vivem de outra forma. Para que a inclusão seja uma prática e a pedagogia não fique esquecida, com as festas e as luzes do pai natal.  

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Já foi natal

Já foi natal. Já pusemos a mesa com a toalha vermelha e os pratos mais bonitos, acendemos a lareira e as velas, pusemos musica, sentámo-nos à mesa com os nossos, bebemos um bom vinho, conversámos e rimos. Deambulámos por pequenas histórias, enredos da infância e de outros natais, acertámos as contas dos afetos, emocionámo-nos por ser quem somos e podermos continuar à volta da mesa, a servir o jantar, a comentar este ano os sonhos estão muito bons, a falar um pouco de futebol, claro que o Mourinho vai sair do Real Madrid...da crise e das questões sociais e de este país já não tem nada para dar, vamos mesmo é para o estrangeiro...  

De vez em quando em silêncio, com as vozes alegres e joviais como musica de fundo, um pouco atropledas e sobrepostas, perguntámo-nos por aqueles que não estavam à mesa, mas que víamos, de forma nítida e clara, por detrás de um ombro ou de um rosto sorridente, perto da lareira ou junto do sofá. Ali estavam, sem corpo presente, mas ocupando o seu lugar, porque quem já esteve entre nós jamais desaparece por completo. Deixa-nos sempre um raio de sol ou luz, um cheiro, uma frase, um sorriso que em noites de natal, irrompem  a qualquer hora e lugar, sem pedirem licença, para se apresentarem tão reais quanto podem ser as memórias do amor e dos laços.  

Já foi natal. Já nos encontrámos mais uma vez no centro da casa, com aqueles que amamos e que nos cercam, trocámos presentes e lembranças, numa maneira convencionada de mostrar o amor e a alegria da sua presença perto de nós. Selámos cada oferta com beijos e abraços, suaves, quentes e fraternos, como linguagem certa e única de nos termos ainda uns aos outros e de isso ser de facto, a  prenda mais desejada de cada natal e de cada dia.

Já foi natal e já se cumpriu a tradição. Resta-nos acreditar e fazer fé que vamos de novo viver o natal para o ano, outra vez perto uns dos outros, com a alegria que soubermos e pudermos trazer novamente para o centro da sala. E isso, como todos sabemos, não é coisa garantida.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Pessoal e transmissível

Escrevi uma carta neste natal a uma amiga. Ao fazê-lo, dirigindo-me a ela, lembrei-me de tantos outros, gente com rosto e nome próprio, que me rodeia e faz parte da minha vida. Amigos e amores. E outros, anónimos. A fazer fé na ideia de que "o que há de mais pessoal e singular é também o mais universal", aqui fica o escrito com o seu consentimento, em forma de mensagem e alegoria neste natal.   

Este é um tempo difícil. Não há estrelas que iluminem o caminho, nem lareira que aqueça o coração. Os dias estão cinzentos, tristes e já não acreditamos no pai natal. Ainda decoramos a casa com alguns sinos, figuras do presépio e velas acesas. Mas é difícil resistir às memórias e às ausências.

Apesar de tudo estamos vivos, fazemos arroz doce e aletria, compramos umas lembranças às crianças, gostamos de as ver felizes e contentes. Apesar de tudo escrevemos postais e cartas, mandamos mensagens e às vezes, no silêncio da nossa cama, rezamos, sem ladainhas antigas, mas rezamos. Uma espécie de ave-maria, com outras palavras, mas com o mesmo mistério. Porque no natal é impossível fugir ao mistério da vida, em forma de balanço e promessa.
 
Por isso, hoje, teremos que inundar de amor o nosso tempo e convocar para a mesa, ao lado das velas e dos doces, os sonhos, a amizade, o calor e os afetos. Resistir à solidão, aquecer a vida, tomar café com os amigos, ler livros, tocar nos objetos com história, dar abraços, ficar por dentro de tudo, ainda que lenta e suavemente. Mas não poderemos abandonar-nos à dor que persegue os nossos dias e fere as nossas noites.

Teremos que fazer o natal, aquele que for possível, rebuscando no coração todas as recordações doces que fomos acumulando nos imensos natais que já se foram e onde fomos felizes. Para que se tornem também uma imagem ao lado de outras e perturbem a tristeza que se entrincheirou no nosso corpo e espírito. Que briguem com ela, que a espantem e a derrotem. Para que voltemos a sorrir e a querer. Convictamente.

Aqui fica assim, como ato simbólico, um mimo da nossa terra e um abafo quente e colorido para as noites do sofá. Para te mimares com as origens de seres quem és e aqueceres o corpo e a alma para o que ainda há-de vir. 

E que aquilo que ainda há-de vir te cubra de espanto, alegria e projeto. Para que continues a ser a amiga forte e segura que sempre conheci e da qual gosto muito.  

Bom natal. E um ano de 2013 com saúde e amor. Muito.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Palavras emprestadas: "Se tanto me dói...."

Há dias que são sínteses do que somos. Parecem criados para nos confirmarem e chegamos à noite convictos que as horas, todas as horas do dia, somadas, traduziram a nossa identidade primeira. Aquela que nos faz ser aquilo que somos, únicos e imperfeitos, únicos e ignorantes, únicos e acutilantes, únicos e procurantes. 
   
No fim do dia, entre o natal que não chega e o trabalho que não se esgota, um cansaço profundo, ainda que tranquilo, pela presença permanente de nós, em nós. Sempre e apesar de tudo.  
Sem forma de traduzir o que o coração sente, pedimos emprestadas as palavras a quem escreveu um dia, aquilo que neste dia experimentamos. Como identidade primeira.


Se tanto me dói que as coisas passem
É por cada instante em mim foi vivo                                     
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem

                Sophia de Mello Breyner Andresen


domingo, 16 de dezembro de 2012

Conto do mar

Está frente ao mar, a olhar para ele e não se vê rasto de coisa nenhuma. 
Regressou há pouco de uma viagem arriscada, tinha partido com a bagagem necessária, preparara-se meses a fio e no entanto desistiu antes do tempo, conta-se, por não ter forças para nadar e recusar obstinadamente os utensílios de sobrevivência em alto mar.  Quando chegou, viram-lhe um rosto sombrio e lamentos disfarçados, mas fechou todas as janelas, calafetou-as com energia determinada, decidido a não ouvir o soprar do vento e a brisa marítima, nem os gritos das gaivotas em terra. Ficou em silêncio durante muitos dias, entrando e saindo de casa em terra firme, com os olhos no chão. Não queria ver o azul do céu, esse gesto confrontava-o com a lembrança da cor da água, suave e doce, que pensara encontrar quando partira em viagem. Apesar de avisado de eventuais riscos, não acreditou e assim, cedo os conheceu, justamente quando a tranquilidade das águas se agitaram e ameaçaram varrer tudo em seu redor. Não soube ou não quis aguentar a surpresa da tempestade que subitamente chegou e desanimado, desistiu. Os que puderam, falaram-lhe em retomar o barco e o sonho, lançar-se de novo, aconselharam-no a ser mais afoito e resistente, mas olhou desconfiado para as palavras e o propósito, fechou o rosto e ensurdeceu ainda mais.

Pela primavera alguns viram-no rondar a praia, apreciar as gaivotas, lançar pedras para a água,  em gestos tímidos de pacificação. Um burburinho correu na vila, andava de boca em boca a ideia que talvez tentasse de novo, animados alguns decidiram recolher coisas que o ajudassem na próxima partida, tal era o desejo e a convicção que isso seria um bom (re)começo. Mas desistiram passado tempo, quando o viram de novo trancar as portas, deixar de procurar a linha do horizonte e de seguir as pegadas das gaivotas.

Hoje vêem-no decidido a sair de casa em terra firme, sorri sempre que necessário e reúne-se às vezes ao fim da tarde, no café, falando da vida da cidade e de partir para longe. Ninguém se atreve a dizer-lhe que esse parece um destino pouco ajustado para quem ama o sal do mar e o cheiro das algas. Mas ficam perturbados, não lhe vêm rasto de vestígios no corpo ou na memória da  partida que um dia encetou: um pouco de areia a sair dos bolsos, odor de maresia no cabelo, saudade trauteada em canções do mar. Nada. Confundem-se, nem sequer sabem já confirmar se um dia chegou a partir, tal é a ausência de qualquer rasto naquilo que é.
Apenas a mulher mais velha da vila afirma a pés juntos que anda a falar do que não quer e  que a boca não diz o que o coração sente.      


sábado, 15 de dezembro de 2012

Relembrar o natal

Também era dezembro, havia frio e fazia-se o natal, mas não me lembro de montras, nem de luzes a brilhar, nem do pai natal, nem de renas, nem de embrulhos sofisticados com laços grandes. Lembro-me do presépio, do cheiro e da humidade do musgo, que apanhávamos na quinta, em dias de nevoeiro, ficando com a roupa molhada e as mãos frias. Lembro-me das imagens pintadas, a vaca e o burro, uns patos que colocávamos em cima de um espelho para fazer de lago, do moinho, de umas lavadeiras, dos reis magos, do menino, da Maria e do José. E lembro-me principalmente do tempo e da alegria de fazer o presépio, muito grande e largo, quando comparado com o tamanho da sala.

Todos os anos esta jornada criativa de fazermos as montanhas e os vales, colocar figuras, porque o presépio era uma história passada  num lugar, com personagens e enredos. Aprimorávamo-nos para que estivessem lá todos, numa coexistência pacifica e bela. Por isso nos detínhamos nos pormenores, ninguém podia ser esquecido, o menino que nascera exigia uma terra bonita. E ampla. Um mundo, ainda que local. Lembro-me do entusiasmo da criação, das caixas de sapato debaixo do musgo para fazer os montes, das pedrinhas e da areira para o caminho das lavadeiras e pastores. Tarefa longa, sempre renovada pela partilha da construção a dois. Eu e o meu irmão, ele mais velho, pronto a resolver questões técnicas da tarefa, eu a mexer devagar as figuras, a mudá-las mil vezes de lugar, para encontrar o lugar perfeito para cada um. Porque fazer esse presépio era como refazer o mundo, todos os anos. 

No final, arrumávamos tudo, deitávamos fora o que restava, paus e pedras e areia, coisas que tínhamos trazido e não encaixaram no  projeto desse ano. E depois ficávamos a olhar, em silêncio. Creio que felizes. Guardo até hoje a imagem desses presépios grandes, sóbrios, verdes, húmidos, a cheirar a terra e a musgo. E não me lembro de nada que brilhasse, reluzente, a não ser uma pequena luz, muito discreta, da estrela colocada por cima da cabana do menino.

E o natal era isto. Sem avenidas largas, lojas de griffe, luzes incandescentes, prendas sofisticadas, multidões apressadas, cansaço e agitação.
Apenas um presépio numa sala, o meu irmão como companheiro de jornada, de mãos longas e decisões certas e o calor imenso de obra criada. Renovada ano após ano, mantendo a sua matriz original. Não sei quando deixámos exatamente de fazer este natal, mas sei que tenho saudades dele.