domingo, 2 de dezembro de 2012

Domingo

Hoje é domingo, dia de amestrar preguiças, como nos diz o poeta, sobre a infância. E sabendo que essa  nem sempre é a melhor fase da nossa vida, criança me queria hoje, para correr num campo verde, subir às árvores, brincar aos pais e às mães,  comer gomas e mandar para o ar o maior monte de folhas secas do jardim.

Mas não posso.Ocupações de gente crescida me esperam, que a semana vem aí cheia de trabalho e é preciso pensar e planear para melhor intervir. Lemas que temos na cabeça, acompanham as nossas práticas, mas nos impedem de amestrar preguiças num domigo como este, que bem o merecia. Enquanto isso, aqui fica a poesia de António Catalano

Infância

A infância é surpreender-se
Com os pirilampos,
Com a giesta,
Com o botão que abre. 

A infância é pentear
Cometas, amestrar preguiças.
                                                                             
A infância é irritar-se com as coisas,
Mudar frequentemente de sitio,
Inventar novas ideias.

Não nos interessam as respostas,
As incertezas imutáveis.

Estamos fascinados pelas interrogações,
Caminhadores de perguntas.

                   

sábado, 1 de dezembro de 2012

Pequeno almoço

É sábado. Apetecia-me pôr a mesa para o pequeno almoço, como às vezes fazia, a tolha verde seco, uma taça com morangos, pão de sementes e requeijão, doce, cereais, sumo de laranja, as chávenas para o café, no fim. Ir compondo tudo devagar na mesa, ajeitar de novo o sitio das coisas, para tudo ficar bonito. Comprovar que assim era, distanciando-me da mesa e olhando de longe. Outra vez. E com o sol a entrar pela janela, como hoje está. Apetecia-me depois que se sentassem à mesa, cada um no seu lugar, com gestos leves e flexíveis, os olhos sorrissem a olhar para as iguarias, assim consideradas pela fome de comer e começar o dia. E ficaria a vê-los cortar o pão e barrá-lo com doce e requeijão, misturar o iogurte com os cereais, abrir e fechar o jornal, combinar coisas para o dia, rir de uma graça da noite anterior...ficar a vê-los, as palavras ainda com sono, os gestos lentos, os rostos iluminados, aos poucos umas gargalhadas mais soltas e fortes.

E sairia para tomar o meu café, como hoje fiz, sem que uma saudade inconveniente viesse bater-me à porta e entrasse, devagar, sem ter pedido licença e sem que eu tivesse consentido. E sem me sentir piegas e pouco ajustada aos tempos que correm.
Então, em tempo de crise, a menina sonha com uma mesa assim? Não lhe chega o leite com café e uma torrada com manteiga?
Vá contente-se, o tempo é de crise, nas iguarias e nos sonhos, seja modesta e poupada. Comporte-se e conforme-se, sua guardadora de desejos pouco sensatos... 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Um dia de chuva


Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem;

cada um como é.                                                                                        


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"   

                                                                                                                     

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Carta ao Manel

Eu sei que não vais poder ler esta carta, nasceste apenas há cinco dias e neste momento apenas lês, com absoluta competência e disponibilidade, os cuidados dos teus pais,  em especial os da tua mãe, que te alimenta do leite morno do seu corpo, o mesmo corpo que te acolheu e guardou com serenidade e alegria durante 9 meses. Sei que foi assim. Sem te conhecer, eu e outras amigas fomos acompanhando  o riso, os comentários e a expectativa da tua avó que te esperou com disfarçada ansiedade, atualizações regulares do teu crescimento até ao anúncio do grande dia: "vai ser no domingo!". E foi, 25 de novembro. De alguma forma também te esperámos e  finalmente cá estás, nesta terra de homens e mulheres que já começaste a conhecer e a gostar, porque te mimam todos os dias com o melhor que se pode ter: abraços, colo, roupa quentinha, palavras mansas e perfeitas, sorrisos e sonhos. A importância que tem em ser-se acolhido assim! Um dia irás perceber. E agradecer, ainda que seja um direito teu, mas que muitos outros meninos não têm.  Mas falaremos disto mais tarde, não hoje. Não agora. És ainda muito pequenino.

Agora é tempo de renovar a esperança e acreditar em todas as promessas. Porque quando um bebé nasce, uma nova pessoa se projeta no mundo e podemos de novo esperar e acreditar. Porque os homens e as mulheres são capazes do melhor e do pior na sua relação com a vida. Agarremo-nos ao melhor como lema e prática de ser-se gente.  Sabes como é? É cresceres e poderes seres ativo, critico, inovador, atento, poderoso, solidário, livre...e amoroso e feliz e doce. Muita coisa? Não, não será,  porque tens já como marca de nascença  as condições para te sentires um menino e uma pessoa de corpo inteiro, o que quer dizer, seguro e sensível perante ti próprio, os outros e os acontecimentos que possas viver e nos quais irás certamente, participar. 

Seria pouco verdadeiro não dizer que sabemos que na vida nem tudo depende apenas de nós, da individualidade de cada pessoa que nasce. Também existe a sorte, uma espécie de estrelinha, coisa que não é de menos importância no decorrer dos dias e na construção do futuro.
Por isso te desejamos, Manel, hoje e agora e para o tempo que há-de vir, tudo o que possas ter e aquilo a que tens direito. A estrelinha, também, para o que der e vier. E sobretudo, para que cresças forte e competente e possas acrescentar qualquer coisa ao mundo. É muito?  Não, é a promessa que sempre se renova quando um bebé nasce. Que assim seja, de novo e contigo. 
E mimos, muitos mimos!     


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Palavras emprestadas

Hoje faltam-me as palavras, esgotaram-se ao longo do dia, ficaram espalhadas em muitas pessoas e lugares. Mas preciso de reter algumas dentro de mim, o dia não foi fácil, é necessário suavizar o cair da noite. Aqui ficam, pela voz de Manuel António Pina.


Amor como em Casa


Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído precorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é apenas um Pouco Tarde"

sábado, 24 de novembro de 2012

O lugar do sótão

Tenho um sótão na minha casa, cheio de livros, muitos livros, estantes, mesas, computadores, sofás, quadros nas paredes, fotografias, desenhos de crianças, sacos e malas, peças de artesanato, uma máquina de escrever antiga, um estirador, dossiers, caixas de charutos, canetas, mantas no chão e muitas outras coisas. Mesmo muitas. É um sotão grande, local propicio à  acumulação de coisas, tudo se trás cá para cima e existe uma desordem de sitio de trabalho até tarde, local de inúmeras conversas, intimidades com amigos, gente da casa e família. Espalham-se por todo o lado esses testemunhos, encontro no meio dos papéis, cartas, postais, prendas pequeninas, caixas, escritos e produções de crianças, números de telefone, recados, dedicatórias, lembranças, sonhos.  É um sótão dificil, nunca está arrumado, enche-se com uma facilidade vertiginosa dos vestígios da vida, coisas pequenas, quase inúteis, mas que teimo em guardar, porque são parte de mim e do caminho que tenho feito. É neste sótão que penso, preparo aulas, procuro poemas para as crianças, desenho, escrevo, choro, deslumbro-me, converso ao telefone, leio, pesquiso, amplio ideias, fecho-me em mim ou fujo para longe. Sem nunca de cá sair. Foi e é neste sótão que desenvolvi longas conversas, fáceis, difíceis, bonitas, surpreendentes, repetitivas, desafiantes. Este sótão está cheio de palavras e gestos de vida, muito para além dos objetos e também por causa deles.

Às vezes zango-me e irrito-me com esta diversidade estonteante, procuro dominar e endireitar o pulsar quase autónomo deste espaço e torná-lo mais regular. Normalizá-lo, assim como uma qualquer outra divisão da casa. Dou uma volta na sua organização, imponho regras, cada coisa no seu lugar, livros de educação ao pé de outros de iguais conteúdos, os dossiers todos seguidos, as revistas juntas nas prateleiras, as fotografias perto umas das outras. Deito fora papéis antigos, rascunhos de reuniões, capas de encontros antigos, recados, canetas que não escrevem, pequenas peças de lego da escola...  e suspiro de alivio. Fica tudo como deve de ser, direitinho, mais controlado e capaz de ser identificado ao primeiro olhar. Tudo certo e tudo exato. Mas passado algum tempo, tudo volta ao mesmo: sai-me, sem que saiba como, de um lado qualquer, uma gaveta ou coisa assim, um texto escrito num dia cinzento, uma carta de saudade, um escrito sobre as crianças, um poema de amor, uma fotografia minha antiga, uma despedida ou um reencontro.  E sento-me no chão e leio e observo e penso e detenho-me...espalho as coisas no chão, vou buscar outras, recomponho e recomeço, reaprendo e revisito memórias e outros lugares. E desisto de arrumar este sótão à semelhança de qualquer outro espaço da casa. Não é isso que ele é, não é assim que o vejo, não posso domar a sua natureza quase selvagem. Porque ela traduz uma parte significativa de mim, nós e laços que fui atando e destando ao longo da vida, num dedilhar errante que ainda hoje se cumpre. E sem alternativa, conformo-me com a sua principal função na casa:  um lugar de recato e trabalho, memória, projeto e criação. Que assim seja, pois.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Lições de pedagogia: as gaivotas e a casa


Chamava-lhe a Teresinha das ternuras, porque era uma menina doce e também porque nesse ano, em tom de brincadeira e de afeto, quase todos tinhamos outros nomes acrescentados aos que nos tinham dado à nascença. Eu por exemplo, era a Manela aguarela, derivado de termos andado a compor rimas. Ah e claro, também a experimentar aguarelas. Melhor dizendo, pinturas "aguadas". A Teresinha tinha 4 anos e até janeiro, nunca quis fazer desenho. Também nunca insisti muito, fazia muitas outras coisas, principalmente andar agarrada a um urso, seu companheiro fiel dos dias da escola. 
Depois do ano novo iniciámos um projeto e um dia fomos todos ver o rio Tejo, os barcos, andámos à beira rio e apreciámos os voos das gaivotas, durante muito tempo. Lindas que eram, cinzentas e brancas, a voar em muitas direções. De regresso à escola e com tanto entusiasmo propus que fizessem o desenho das gaivotas, "ou de outra coisa que tivessem gostado", lembro-me de ter dito, numa tentativa de não condicionar muito. Pensava eu. As crianças procuraram diferentes papéis, lápis, canetas, deitaram-se no chão, cobriram o espaço todo da sala e começaram a fazer gaivotas. Eu, jovem educadora, estava maravilhada com tanta liberdade de traços, riscos e rabiscos e com as formas diferenciadas das gaivotas. Eram grandes, muito grandes.  
Cirandando pelo meu deles, de repente dou com a Teresinha a chorar em silêncio, sem um unico risco ou rabisco na folha branca. Rápida, ajudei-a a lenvantar-se, sentei-a no colo e perguntei-lhe porque chorava
- Mas oh, manela, eu não sei desenhar
- Teresinha, claro que sabes, então, fazes como quiseres, cada um faz à sua maneira
- Mas eu não sei, eu não sei! E continuava a chorar, agora já a soluçar.
Poderia te consolado um pouco mais a Teresinha e depois tê-la deixado ir ter com o seu urso, como tantas vezes acontecia. Mas o choro da Teresinha, a recusa em sair do meu colo, a sua quase aflição perante tanta competência dos outros meninos, levou-me a continuar junto de si e ouvi-me dizer
- Tu queres desenhar?
- Não, eu não sei...mas eu gostava de desenhar
- E o que é que querias saber desenhar?
- Olha uma casa...gaivotas não, uma casa.
- Queres que te ajude?
Então, contra muita coisa que tinha aprendido, peguei num lápis e na mão da Teresinha e juntas, comigo a comandar o traço, fizemos uma casa. Rudimentar, daquelas que todos fizemos na infância e que é um retângulo e um triângulo por cima, a fazer de telhado e outro retângulo a fazer de chaminé.  Não fizemos só uma, fizemos várias, todas iguais. A Teresinha acalmou o choro e seguia os traços com interesse. Quando as gaivotas dos outros meninos começaram a chegar para que as vissemos, eu e a Teresinha mostrávamos as nossas casas, que ficaram expostas com os nossos dois nomes, junto das gaivotas.

E depois? Depois, durante muitos dias, a Teresinha desenhou muitas casas todas iguais. Repetia as formas e as cores, em silêncio e mostrava aos meninos. Durante esse tempo, de repetição, como jovem educadora, tive muito medo de ter, com o meu gesto, inibido e condicionado a Teresinha, na sua descoberta de fazer uma casa. Ou qualquer outra coisa do seu agrado. Mas sabia, ainda que intuitivamente, que lhe tinha possibilitado o inicio de uma relação de segurança com o papel e o lápis. Via-se, ainda que tudo fosse sempre igual. Restou-me esperar. E acreditar que a confiança da Teresinha crescesse ao ponto de abandonar a casa e partir para outros lugares, formas, cores, traços e rabiscos. 
E assim aconteceu. Com o passar dos dias e semanas, foram aparecendo em papéis brancos, muitos outros desenhos da Teresinha, nada rudimentares, sem casas e com coisas que ela queria e gostava. Nunca mais me pediu ajuda. A que tinha sido dada, parecia ter sido a necessária, ainda que metodologicamente ao contrário do que tinha aprendido e continuo a acreditar: cada um faz a casa como sabe e não como os crescidos querem. Mas há meninos, ainda que não muitos, que precisam de um colo e de um envolvimento significativo com o adulto, para desembrulharem o fio da criatividade e combaterem o medo. Hoje, julgo que fiz bem. Principalmente por ter acreditado no poder do afeto e nas capacidades da Teresinha. Ainda que durante algum tempo me tenha perguntado se deveria ter agido mais cedo ou se a tarde do passeio ao Tejo fora o momento exato. O tempo que levamos a entender como é cada criança. Não fossem as gaivotas e as lágrimas da Teresinha...