sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Lições de pedagogia: as gaivotas e a casa


Chamava-lhe a Teresinha das ternuras, porque era uma menina doce e também porque nesse ano, em tom de brincadeira e de afeto, quase todos tinhamos outros nomes acrescentados aos que nos tinham dado à nascença. Eu por exemplo, era a Manela aguarela, derivado de termos andado a compor rimas. Ah e claro, também a experimentar aguarelas. Melhor dizendo, pinturas "aguadas". A Teresinha tinha 4 anos e até janeiro, nunca quis fazer desenho. Também nunca insisti muito, fazia muitas outras coisas, principalmente andar agarrada a um urso, seu companheiro fiel dos dias da escola. 
Depois do ano novo iniciámos um projeto e um dia fomos todos ver o rio Tejo, os barcos, andámos à beira rio e apreciámos os voos das gaivotas, durante muito tempo. Lindas que eram, cinzentas e brancas, a voar em muitas direções. De regresso à escola e com tanto entusiasmo propus que fizessem o desenho das gaivotas, "ou de outra coisa que tivessem gostado", lembro-me de ter dito, numa tentativa de não condicionar muito. Pensava eu. As crianças procuraram diferentes papéis, lápis, canetas, deitaram-se no chão, cobriram o espaço todo da sala e começaram a fazer gaivotas. Eu, jovem educadora, estava maravilhada com tanta liberdade de traços, riscos e rabiscos e com as formas diferenciadas das gaivotas. Eram grandes, muito grandes.  
Cirandando pelo meu deles, de repente dou com a Teresinha a chorar em silêncio, sem um unico risco ou rabisco na folha branca. Rápida, ajudei-a a lenvantar-se, sentei-a no colo e perguntei-lhe porque chorava
- Mas oh, manela, eu não sei desenhar
- Teresinha, claro que sabes, então, fazes como quiseres, cada um faz à sua maneira
- Mas eu não sei, eu não sei! E continuava a chorar, agora já a soluçar.
Poderia te consolado um pouco mais a Teresinha e depois tê-la deixado ir ter com o seu urso, como tantas vezes acontecia. Mas o choro da Teresinha, a recusa em sair do meu colo, a sua quase aflição perante tanta competência dos outros meninos, levou-me a continuar junto de si e ouvi-me dizer
- Tu queres desenhar?
- Não, eu não sei...mas eu gostava de desenhar
- E o que é que querias saber desenhar?
- Olha uma casa...gaivotas não, uma casa.
- Queres que te ajude?
Então, contra muita coisa que tinha aprendido, peguei num lápis e na mão da Teresinha e juntas, comigo a comandar o traço, fizemos uma casa. Rudimentar, daquelas que todos fizemos na infância e que é um retângulo e um triângulo por cima, a fazer de telhado e outro retângulo a fazer de chaminé.  Não fizemos só uma, fizemos várias, todas iguais. A Teresinha acalmou o choro e seguia os traços com interesse. Quando as gaivotas dos outros meninos começaram a chegar para que as vissemos, eu e a Teresinha mostrávamos as nossas casas, que ficaram expostas com os nossos dois nomes, junto das gaivotas.

E depois? Depois, durante muitos dias, a Teresinha desenhou muitas casas todas iguais. Repetia as formas e as cores, em silêncio e mostrava aos meninos. Durante esse tempo, de repetição, como jovem educadora, tive muito medo de ter, com o meu gesto, inibido e condicionado a Teresinha, na sua descoberta de fazer uma casa. Ou qualquer outra coisa do seu agrado. Mas sabia, ainda que intuitivamente, que lhe tinha possibilitado o inicio de uma relação de segurança com o papel e o lápis. Via-se, ainda que tudo fosse sempre igual. Restou-me esperar. E acreditar que a confiança da Teresinha crescesse ao ponto de abandonar a casa e partir para outros lugares, formas, cores, traços e rabiscos. 
E assim aconteceu. Com o passar dos dias e semanas, foram aparecendo em papéis brancos, muitos outros desenhos da Teresinha, nada rudimentares, sem casas e com coisas que ela queria e gostava. Nunca mais me pediu ajuda. A que tinha sido dada, parecia ter sido a necessária, ainda que metodologicamente ao contrário do que tinha aprendido e continuo a acreditar: cada um faz a casa como sabe e não como os crescidos querem. Mas há meninos, ainda que não muitos, que precisam de um colo e de um envolvimento significativo com o adulto, para desembrulharem o fio da criatividade e combaterem o medo. Hoje, julgo que fiz bem. Principalmente por ter acreditado no poder do afeto e nas capacidades da Teresinha. Ainda que durante algum tempo me tenha perguntado se deveria ter agido mais cedo ou se a tarde do passeio ao Tejo fora o momento exato. O tempo que levamos a entender como é cada criança. Não fossem as gaivotas e as lágrimas da Teresinha...

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Coisas belas

Persegue-me um desejo de coisas belas. Belas e profundas, essenciais. Sempre esta teimosia mansa de virar do avesso algumas coisas da vida, os gestos desconexos, as palavras cortantes, a ausência do amor, os risos tristes, algumas máscaras que usamos, frias e opacas. Deitar fora os desperdicios de nós, aquilo que não interessa, que enferruja e  impede, que retarda e  imobiliza o poder da criação.

Persegue-me um desejo de coisas belas. Imagens que trago na cabeça e nos sentidos, mãos esguias num piano, um lenço a esvoaçar leve, um afago, pequenos passos de dança, poemas soltos, algumas gargalhadas frescas, um longo café forte numa esplanada de uma cidade. Bonita, de preferência, pode ser Paris, no "Les Deux Margots", era aí que se encontravam o Sartre e a Beauvoir, os meus heróis de adolescente. O amor eterno e livre. A escrita como lastro, cama e contestação.   

Persegue-me um desejo de coisas belas. Não, não são as luzes de néon da cidade prometida, os objetos de catálogos que decoram montras perfeitas, o desfile da modelo mais jovem e sensual da moda. Não é o ouro ou a prata, que reluz e ofusca, mas antes o incenso, o mais belo dos presentes dados na noite de natal ao menino. 

Persegue-me um desejo de coisas belas. E não são coisas de outra dimensão, etéreas ou paradisíacas, apenas que possam traduzir o essencial de nós, estampado no rosto do comum dos mortais.  Mas somente naqueles que se encantam com madrugadas frias, noites de luar, vozes de crianças, conversas de amigos, amores maiores, ideias novas, liberdade e ousadia.
Persegue-me o desejo de coisas belas. Tão belas que ficam sempre incompletas

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Impossibilidade

Queria agora sentar-me na beira de um rio, deixar os pés molharem-se devagarinho num caudal de águas mornas, iluminadas por um sol dourado de outono. Mas lá fora o vento sopra jarradas frias e a chuva cai com força nos telhados, percorrendo velozmente as ruas da cidade. Não há como sair nesta noite de temporal, fechadas que estão as portas e janelas, sem réstia de esperança num tempo ameno.  Por aqui me fico, embrulhada num cobertor de tapar frio e tremuras, que o corpo nem sempre aguenta as mudanças de estação. E também as outras, as da vida. 

domingo, 18 de novembro de 2012

Lições de pedagogia: o dia do pai em maio

Foi já há algum tempo, era uma educadora mais jovem, mas não me esqueço. Estavámos lá no jardim de infância, ocupadíssimas com a preparação do dia do pai. Prendas, textos, postais...e conversas, que as crianças gostam de conversar, de falar de si e da vida. E um menino, disse
- Mas eu não tenho pai, Manela
O grupo olhou para o menino, depois para mim, alguns rostos admirados e eu, com calma a dizer
- Claro que sim, tens, ele só não está contigo. Não vive na tua casa.
- Mas ele abandonou-me, a minha mãe disse-me
E eu com cuidado - ideia de mãe é para se respeitar, não é sensato desautorizar quem é figura de referência para a criança - puxei o menino para o meu colo e disse
- Abandonou-te? Pois eu não sei, se a tua mãe diz...mas eu acho é que ela deve estar muito zangada com o teu pai, porque ele foi embora e ela ficou triste...e agora diz que ele te abandonou, é isso que ela sente, se calhar foi assim...mas eu acho que devias deixar um bocadinho de espaço no teu coração para o teu pai. Para pensares nele e também para que que um dia, quem sabe, se o teu pai aparecer, lhe poderes perguntar o que aconteceu. Nós não sabemos, tu não sabes pois não?, não sabes mesmo o que que aconteceu para o teu pai se ter ido embora...e ele pode ter uma explicação qualquer...
E a conversa coninuou com os outros meninos a darem opiniões, a contarem dos seus pais, separações, zangas e outras coisas lá de casa. Nesse dia a azáfama do dia do pai parou, ficámo-nos por esta longa conversa, forte, sensivel e dificil. 

 Passado uns meses, talvez dois, numa segunda-feira, o menino entrou na sala de manhã, a gritar e disse
- Manela, Manela, tinhas razão
Sem me lembrar da conversa anterior, digo-lhe
- Bom dia! em que é que eu tinha razão?
- O meu pai não me abandonou
Sentámo-nos todos, muito depressa, o momento era muito importante. Voltei a sentar o menino no meu colo e pergunto-lhe
- Então como é que soubeste isso? Queres-nos contar?
- O meu pai veio ver-me este domingo. Ele disse-me que não me abandonou. Apenas fez um disparate e teve que ficar preso
- Ah, sim, disse eu, às vezes essas coisas acontecem na vida. As pessoas fazem uns disparates, às vezes nem sabem bem porquê, mas como são coisas menos boas, as pessoas têm que ir para uma casa, uma prisão, e ficam lá algum tempo...mas olha, gostaste de ver o teu pai? como é que foi?
 E o menino a sorrir disse
- Ele agarrou-me e mandou-me ao ar muitas vezes e não me deixou cair...e disse que estava sempre a pensar em mim...  

E a conversa continuou. Com pormenores sobre um pai que voltou e um filho, menino, a sorrir no centro da roda, com outros meninos também a sorrirem,  atentos e embevecidos com a felicidade estampada no rosto do amigo. E eu também feliz, pela alegria do meu menino. E sobretudo por não ter desistido de tentar, na conversa inicial, resgatar uma imagem positiva do pai, coisa fundamental para se prosseguir com serenidade e segurança na infância. E feliz também  pelo acaso. A sorte que tive em ter comprovado a minha tese. Melhor que isso: a sorte que o menino teve de um pai que tendo partido, não o abandonou. Nesse dia, é que foi mesmo dia do pai e não foi necessário estar definido no calendário.        

Conselho aceite

Uma amiga minha de longa data, a quem costumo contar muitas das minhas histórias profissionais - e não só, entenda-se, porque a tomar um café costumamos dar a volta a muitas voltas da nossa vida -  desde sempre me disse que eu devia escrever muitas das situações que lhe relato e que foram por mim vividas nas diferentes salas onde tenho estado com crianças, colegas e familias. O que essas histórias têm gerado de discussão, risos, análises e longas conversas entre mim e ela, que nem sequer está ligada diretamente ao mundo da educação, justifica, por si só, uma escrita. Diz ela "um dia destes já não te lembras, e é pena..." Talvez tenha razão, um dias destes quero recordar tim tim por tim tim tudo o que aprendi com as minhas crianças e já não saberei reproduzir as suas falas e os seus ditos, que foram fundamentais para a educadora e a pessoa que hoje sou. Parte do meu património pessoal e profissional foi constrúído na interação diária com meninos e meninas, que me mostraram, ao longo dos anos, a espantosa maravilha e complexidade do ser humano, a riqueza e diversidade da infância, que considerada uma idade muito jovem de ser-se gente, é profunda, séria, ativa e procurante.
Embora saiba que já muito esqueci, vou inaugurar neste blogue, uma especie de secção as "lições de pedagogia", não para citar autores e teorias, mas para dar voz às crianças que comigo conviveram muitos dias da sua vida. Foram elas que me ensinaram as melhores coisas que sei, quando comigo partilharam os seus sentimentos, emoções, dificuldades, angustias e até em alguns momentos, raiva e dor. E também muita alegria, envolvimento, empenho, curiosidade,  prazer.
Parece-me justo e certo que assim seja. A palavra pois, a quem me deu, sem que eu pedisse, lições de pedagogia.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Carta à minha mãe


Amanhã vai fazer cinco anos que partiste, sem aviso prévio ou ultima recomendação, como sempre fazias quando te despedias. Quando vi o teu rosto frio pela ultima vez, senti uma explosão insuportável no peito e juro-te que pensei que iria atrás de ti. Mas não fui. Não é assim que a vida acontece, normalmente. Vão se embora os que por detrás de nós nos amparam e ficamos muito sós, tremendamente sós, a amparar os que à nossa frente se perfilam. E é aí que percebemos, com maior nitidez e surpresa, que os próximos a partir seremos nós. A vida ganha, nesse exato momento, a sua absoluta dimensão transitória. 
Para além disto, que é muito, desde há cinco anos que tenho saudades tuas. No incio era quase sufocante, faltavam-me os teus passos pelas escadas, a forma como andavas pela sala ou te sentavas a ver televisão no sofá, sempre atenta aos noticiários e debates politicos. Faltavam os sábados das compras dos legumes, na praça, para serem fresquinhos e iguais aos lá da terra, as idas aos médicos, o jantar que fazíamos em conjunto e as tuas perguntas sobre a roupa que escolhias. Querias a minha opinião, com o avançar da idade e a minha persistência, foste ficando um pouco vaidosa, conquista recente da tua vida tão pouca dada a acessórios e enfeites. Concentraste-te sempre no essencial e imprescindível, do tempo tiraste-lhe poucas folgas.

Agora, passado estes cinco anos, a dor é um pouco mais ténue, mais disfarçada, menos acutilante. A saudade permanece, sobretudo nos dias em que me sinto só, atrapalhada com a vida, incapaz de gerir com prontidão as suas múltiplas tarefas e dilemas. É que sempre me investiste de uma coragem e uma força que julgo não ter, mas que acontecia na tua presença, exatamente porque ao acreditares em mim como mulher capaz, eu tornava-me capaz de quase todas as coisas. E é isso que eu já não tenho: tu a puxares-me para o centro dos dias, energizando-me com as tuas perguntas, os teus desabafos, as tuas exigências. E sabemos quanto isso nem sempre foi fácil. Mas foi sempre uma constante, um modo de vida que inaugurámos bem cedo entre as duas, por causa de sermos mãe e filha num tempo dado de uma familia concreta.

Amanhã, vou-me lembrar ainda mais de ti e recordar sobretudo o teu riso de menina, que raramente abandonavas. Olhei-o sempre como a tua arma mais forte, aquilo que te fez prosseguir os dias, acreditar no mundo e procurar a sua face lunar, sem desistências. Mesmo que não o tenhas sabido. Mas a tua coragem é ainda hoje uma enorme lição de vida que guardo no silêncio do meu coração.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Encosta-te a mim

Faz como diz a canção, encosta-te a mim. Doce e convictamente. Começa lentamente a retirar as cicatrizes que cobrem a tua pele interior e turvam o teu olhar. Não é fácil, eu sei, mas procura um bálsamo morno, com cheiro a rosmaninho,  passa por cima, à volta e ao lado com muito cuidado, as cicatrizes ramificam com uma força vertiginosa em todas as direções. Tem que se ser meticuloso e persistente. Quase cirúrgico. E focalizado. Tratar das cicatrizes é dificil.

Mas encosta-te a mim, sei que vai ajudar. Olha por cima do meu ombro, talvez alcances a linha do horizonte e uma alvorada de palavras certeiras, para renovares o dicionário com que lidas com a vida. Vê de que são compostas, mede-lhes o sentido e o alcance, pressente o seu significado, não te preocupes com as regras da gramática, não é por aí que acederás ao decréscimo da dor e à restauração da alegria.

Encosta-te a mim, não fujas ainda, este empreendimento é de longo alcance, uma quase corrida de fundo. Por isso, encosta-te a mim, o que fazemos em conjunto tem força renovada, respira lenta e profundamente, descansa. Ouve todas as canções, lê todos os poemas, aprecia todas as obras, deixa que a inspiração de outros te contaminem. São poderosos antítodos na remoção do desalento e na cicatrização das feridas. 

E acredita. Acredita que o coração é como uma árvore. quando quer, volta a crescer (Mia Couto, provérbio moçambicano)