domingo, 18 de novembro de 2012

Lições de pedagogia: o dia do pai em maio

Foi já há algum tempo, era uma educadora mais jovem, mas não me esqueço. Estavámos lá no jardim de infância, ocupadíssimas com a preparação do dia do pai. Prendas, textos, postais...e conversas, que as crianças gostam de conversar, de falar de si e da vida. E um menino, disse
- Mas eu não tenho pai, Manela
O grupo olhou para o menino, depois para mim, alguns rostos admirados e eu, com calma a dizer
- Claro que sim, tens, ele só não está contigo. Não vive na tua casa.
- Mas ele abandonou-me, a minha mãe disse-me
E eu com cuidado - ideia de mãe é para se respeitar, não é sensato desautorizar quem é figura de referência para a criança - puxei o menino para o meu colo e disse
- Abandonou-te? Pois eu não sei, se a tua mãe diz...mas eu acho é que ela deve estar muito zangada com o teu pai, porque ele foi embora e ela ficou triste...e agora diz que ele te abandonou, é isso que ela sente, se calhar foi assim...mas eu acho que devias deixar um bocadinho de espaço no teu coração para o teu pai. Para pensares nele e também para que que um dia, quem sabe, se o teu pai aparecer, lhe poderes perguntar o que aconteceu. Nós não sabemos, tu não sabes pois não?, não sabes mesmo o que que aconteceu para o teu pai se ter ido embora...e ele pode ter uma explicação qualquer...
E a conversa coninuou com os outros meninos a darem opiniões, a contarem dos seus pais, separações, zangas e outras coisas lá de casa. Nesse dia a azáfama do dia do pai parou, ficámo-nos por esta longa conversa, forte, sensivel e dificil. 

 Passado uns meses, talvez dois, numa segunda-feira, o menino entrou na sala de manhã, a gritar e disse
- Manela, Manela, tinhas razão
Sem me lembrar da conversa anterior, digo-lhe
- Bom dia! em que é que eu tinha razão?
- O meu pai não me abandonou
Sentámo-nos todos, muito depressa, o momento era muito importante. Voltei a sentar o menino no meu colo e pergunto-lhe
- Então como é que soubeste isso? Queres-nos contar?
- O meu pai veio ver-me este domingo. Ele disse-me que não me abandonou. Apenas fez um disparate e teve que ficar preso
- Ah, sim, disse eu, às vezes essas coisas acontecem na vida. As pessoas fazem uns disparates, às vezes nem sabem bem porquê, mas como são coisas menos boas, as pessoas têm que ir para uma casa, uma prisão, e ficam lá algum tempo...mas olha, gostaste de ver o teu pai? como é que foi?
 E o menino a sorrir disse
- Ele agarrou-me e mandou-me ao ar muitas vezes e não me deixou cair...e disse que estava sempre a pensar em mim...  

E a conversa continuou. Com pormenores sobre um pai que voltou e um filho, menino, a sorrir no centro da roda, com outros meninos também a sorrirem,  atentos e embevecidos com a felicidade estampada no rosto do amigo. E eu também feliz, pela alegria do meu menino. E sobretudo por não ter desistido de tentar, na conversa inicial, resgatar uma imagem positiva do pai, coisa fundamental para se prosseguir com serenidade e segurança na infância. E feliz também  pelo acaso. A sorte que tive em ter comprovado a minha tese. Melhor que isso: a sorte que o menino teve de um pai que tendo partido, não o abandonou. Nesse dia, é que foi mesmo dia do pai e não foi necessário estar definido no calendário.        

Conselho aceite

Uma amiga minha de longa data, a quem costumo contar muitas das minhas histórias profissionais - e não só, entenda-se, porque a tomar um café costumamos dar a volta a muitas voltas da nossa vida -  desde sempre me disse que eu devia escrever muitas das situações que lhe relato e que foram por mim vividas nas diferentes salas onde tenho estado com crianças, colegas e familias. O que essas histórias têm gerado de discussão, risos, análises e longas conversas entre mim e ela, que nem sequer está ligada diretamente ao mundo da educação, justifica, por si só, uma escrita. Diz ela "um dia destes já não te lembras, e é pena..." Talvez tenha razão, um dias destes quero recordar tim tim por tim tim tudo o que aprendi com as minhas crianças e já não saberei reproduzir as suas falas e os seus ditos, que foram fundamentais para a educadora e a pessoa que hoje sou. Parte do meu património pessoal e profissional foi constrúído na interação diária com meninos e meninas, que me mostraram, ao longo dos anos, a espantosa maravilha e complexidade do ser humano, a riqueza e diversidade da infância, que considerada uma idade muito jovem de ser-se gente, é profunda, séria, ativa e procurante.
Embora saiba que já muito esqueci, vou inaugurar neste blogue, uma especie de secção as "lições de pedagogia", não para citar autores e teorias, mas para dar voz às crianças que comigo conviveram muitos dias da sua vida. Foram elas que me ensinaram as melhores coisas que sei, quando comigo partilharam os seus sentimentos, emoções, dificuldades, angustias e até em alguns momentos, raiva e dor. E também muita alegria, envolvimento, empenho, curiosidade,  prazer.
Parece-me justo e certo que assim seja. A palavra pois, a quem me deu, sem que eu pedisse, lições de pedagogia.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Carta à minha mãe


Amanhã vai fazer cinco anos que partiste, sem aviso prévio ou ultima recomendação, como sempre fazias quando te despedias. Quando vi o teu rosto frio pela ultima vez, senti uma explosão insuportável no peito e juro-te que pensei que iria atrás de ti. Mas não fui. Não é assim que a vida acontece, normalmente. Vão se embora os que por detrás de nós nos amparam e ficamos muito sós, tremendamente sós, a amparar os que à nossa frente se perfilam. E é aí que percebemos, com maior nitidez e surpresa, que os próximos a partir seremos nós. A vida ganha, nesse exato momento, a sua absoluta dimensão transitória. 
Para além disto, que é muito, desde há cinco anos que tenho saudades tuas. No incio era quase sufocante, faltavam-me os teus passos pelas escadas, a forma como andavas pela sala ou te sentavas a ver televisão no sofá, sempre atenta aos noticiários e debates politicos. Faltavam os sábados das compras dos legumes, na praça, para serem fresquinhos e iguais aos lá da terra, as idas aos médicos, o jantar que fazíamos em conjunto e as tuas perguntas sobre a roupa que escolhias. Querias a minha opinião, com o avançar da idade e a minha persistência, foste ficando um pouco vaidosa, conquista recente da tua vida tão pouca dada a acessórios e enfeites. Concentraste-te sempre no essencial e imprescindível, do tempo tiraste-lhe poucas folgas.

Agora, passado estes cinco anos, a dor é um pouco mais ténue, mais disfarçada, menos acutilante. A saudade permanece, sobretudo nos dias em que me sinto só, atrapalhada com a vida, incapaz de gerir com prontidão as suas múltiplas tarefas e dilemas. É que sempre me investiste de uma coragem e uma força que julgo não ter, mas que acontecia na tua presença, exatamente porque ao acreditares em mim como mulher capaz, eu tornava-me capaz de quase todas as coisas. E é isso que eu já não tenho: tu a puxares-me para o centro dos dias, energizando-me com as tuas perguntas, os teus desabafos, as tuas exigências. E sabemos quanto isso nem sempre foi fácil. Mas foi sempre uma constante, um modo de vida que inaugurámos bem cedo entre as duas, por causa de sermos mãe e filha num tempo dado de uma familia concreta.

Amanhã, vou-me lembrar ainda mais de ti e recordar sobretudo o teu riso de menina, que raramente abandonavas. Olhei-o sempre como a tua arma mais forte, aquilo que te fez prosseguir os dias, acreditar no mundo e procurar a sua face lunar, sem desistências. Mesmo que não o tenhas sabido. Mas a tua coragem é ainda hoje uma enorme lição de vida que guardo no silêncio do meu coração.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Encosta-te a mim

Faz como diz a canção, encosta-te a mim. Doce e convictamente. Começa lentamente a retirar as cicatrizes que cobrem a tua pele interior e turvam o teu olhar. Não é fácil, eu sei, mas procura um bálsamo morno, com cheiro a rosmaninho,  passa por cima, à volta e ao lado com muito cuidado, as cicatrizes ramificam com uma força vertiginosa em todas as direções. Tem que se ser meticuloso e persistente. Quase cirúrgico. E focalizado. Tratar das cicatrizes é dificil.

Mas encosta-te a mim, sei que vai ajudar. Olha por cima do meu ombro, talvez alcances a linha do horizonte e uma alvorada de palavras certeiras, para renovares o dicionário com que lidas com a vida. Vê de que são compostas, mede-lhes o sentido e o alcance, pressente o seu significado, não te preocupes com as regras da gramática, não é por aí que acederás ao decréscimo da dor e à restauração da alegria.

Encosta-te a mim, não fujas ainda, este empreendimento é de longo alcance, uma quase corrida de fundo. Por isso, encosta-te a mim, o que fazemos em conjunto tem força renovada, respira lenta e profundamente, descansa. Ouve todas as canções, lê todos os poemas, aprecia todas as obras, deixa que a inspiração de outros te contaminem. São poderosos antítodos na remoção do desalento e na cicatrização das feridas. 

E acredita. Acredita que o coração é como uma árvore. quando quer, volta a crescer (Mia Couto, provérbio moçambicano)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Afetos

Há afetos que nunca morrem, acompanham-nos desde sempre, quando nos descobrirmos pessoas já lá estavam, como coisa nossa e permanecem intocáveis à medida que vamos ficando mais velhos. Pertencem-nos como uma parte qualquer do nosso corpo, uma madeixa de cabelo, as mãos, o joelho ou os olhos. Fazem parte de nós e nunca se discutem, a não ser na remota possibilidade de desaparecerem fisicamente. Porque nem isso, que é possivel e provável, permitimos pensar que possa acontecer. São afetos eternos. Alimentam-se do património comum, dele fazem história(s), lastro para viver e apoio incondicional. São as nossas fortalezas em tempo de lutas miudinhas, lareira acesa em noites de tempestade, porto de abrigo em viagens de mar alto. São também, sem metáforas, conversas soltas à volta de um café, troca de ideias em maré de decisões, convivios em datas festejadas, com flores e abraços à mistura. 

Destes afetos conhecemos quase tudo: a sua amplitude, singularidade e geografia, mesmo quando o correr da vida os empurra momentaneamente  para fora do trajeto comum, colocando-os fora da nossa mira de curto alcance. Nunca nos inquietamos, deixar de os ver é condição da sua autonomia e liberdade, sabemos de fonte segura que regressarão, apenas se desviaram um pouco para respirar, procurar um rio claro ou um horizonte a perder de vista. Coisas certas para continuarem a ser afetos.
E porque são eternos são profundos, solidários e autênticos. Imprescidiveis para a nossa vida, como a água, o pão, o sol, as palavras, o riso, o choro, coisas que fomos comunhando ao longo do tempo e que tornam estes afetos eternos.  A alguns deles chamamos irmãos. Eu tenho um.


domingo, 11 de novembro de 2012

Ainda o outono, com Eugénio de Andrade


É outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,                                                         
o mais ardente dos meus braços,o mais azul,                                                                
o mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
Sem a febre de tantos lábios,
Sem nenhum rumor de lágrimas
Nas pálpebras acesas.

Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra.

Dias de outono


Foi sempre assim. Chegava o mês de setembro e a descida do sol apaziguava o corpo e a alma, as praias ainda visitadas devolviam uma solidão com paz, parecia que tudo se aquietava para dar lugar a um silêncio desejado, contrariando os ruídos imensos dos meses anteriores de verão. Não que o verão fosse um tempo de deitar fora, mas apenas se prolongava em demasia: sol, mar, calor, areia e água salgada, noites longas e amigos e gargalhadas. E sentia-se a vontade de um certo recolher, ficarmos menos cheios dos outros e mais perto de nós. De uma certa essência.

Foi sempre assim e continua a ser. Outubro e novembro devolvem-me sempre as cores e os frutos mais belos, folhas de multiplas tonalidades de castanho, amarelo e laranja, ligeiros ventos que fazem dançar as árvores, a chegada do frio, de mansinho, a obrigar a abrir as gavetas e a procurar o agasalho quente que faça subir o calor do corpo. E tudo se torna mais doce e morno, menos gritante, menos luminoso, mais aconhegante. Acho o outono belo e inspirador.  

Quando estava com crianças, em sala, o outono era um desafio tremendo. Corriámos para a mata, e recolhiamos paus, arbustos secos, caruma, pequenos troncos, folhas, muitas folhas. De tamanhos, formas e cores diferentes. Depois era um fazer de produções: pinturas, colagens, composições diversas com materiais naturais. E a sala ficava invadida de outono, com amarelos, castanhos, verdes escuros e claros...árvores só com troncos, grandes e pequenas, folhas decalcadas e recortadas...o outono na sua expressão maior. Ficava sempre deslumbrada e as crianças também. A magia estava em nós, claro. Na forma como investiamos as cores, os sentimentos e a expressão.
Hoje, no outono, continuo a deslumbrar-me com as cores e as formas, o início do frio, o sossego do tempo e  a possibilidade de hibernar, tocando de perto o aconchego de mim. Com uma certa nostalgia à mistura e  imagens que sempre me acompanham e tornam o mundo muito mais belo.