domingo, 11 de novembro de 2012

Ainda o outono, com Eugénio de Andrade


É outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,                                                         
o mais ardente dos meus braços,o mais azul,                                                                
o mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
Sem a febre de tantos lábios,
Sem nenhum rumor de lágrimas
Nas pálpebras acesas.

Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra.

Dias de outono


Foi sempre assim. Chegava o mês de setembro e a descida do sol apaziguava o corpo e a alma, as praias ainda visitadas devolviam uma solidão com paz, parecia que tudo se aquietava para dar lugar a um silêncio desejado, contrariando os ruídos imensos dos meses anteriores de verão. Não que o verão fosse um tempo de deitar fora, mas apenas se prolongava em demasia: sol, mar, calor, areia e água salgada, noites longas e amigos e gargalhadas. E sentia-se a vontade de um certo recolher, ficarmos menos cheios dos outros e mais perto de nós. De uma certa essência.

Foi sempre assim e continua a ser. Outubro e novembro devolvem-me sempre as cores e os frutos mais belos, folhas de multiplas tonalidades de castanho, amarelo e laranja, ligeiros ventos que fazem dançar as árvores, a chegada do frio, de mansinho, a obrigar a abrir as gavetas e a procurar o agasalho quente que faça subir o calor do corpo. E tudo se torna mais doce e morno, menos gritante, menos luminoso, mais aconhegante. Acho o outono belo e inspirador.  

Quando estava com crianças, em sala, o outono era um desafio tremendo. Corriámos para a mata, e recolhiamos paus, arbustos secos, caruma, pequenos troncos, folhas, muitas folhas. De tamanhos, formas e cores diferentes. Depois era um fazer de produções: pinturas, colagens, composições diversas com materiais naturais. E a sala ficava invadida de outono, com amarelos, castanhos, verdes escuros e claros...árvores só com troncos, grandes e pequenas, folhas decalcadas e recortadas...o outono na sua expressão maior. Ficava sempre deslumbrada e as crianças também. A magia estava em nós, claro. Na forma como investiamos as cores, os sentimentos e a expressão.
Hoje, no outono, continuo a deslumbrar-me com as cores e as formas, o início do frio, o sossego do tempo e  a possibilidade de hibernar, tocando de perto o aconchego de mim. Com uma certa nostalgia à mistura e  imagens que sempre me acompanham e tornam o mundo muito mais belo. 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Matizes

Nunca somos um só. Compostos de mil ideias e feitios, ajeitamo-nos vezes sem conta ao que ao nosso redor nos cerca, revelando os diferentes matizes de que somos feitos. Às vezes brotam os azuis e verdes, com um pouco de branco à mistura, parecemos o mar em dia de verão, percorrendo a areia molhada...outras vezes, ficamos cinzentos e pardos, cor de burro quando foge, como um dia de inverno, não há réstia de sol que nos alente ou nos mude a cor. Também já estivemos verdes, sem pinga de sangue, quase a perder o pio, no meio de alguma aflição ou atabalhoamento.  E já nos experimentámos luzidios, brilhantes que nem estrelas cadentes, cheios de força e beleza a exercer fascinios sobre o mndo... 
E roxos, já fomos roxos, cor da paixão em   semana  santa, perdidos de emoção, a chorar por dentro, a controlar por fora...
Antonio Poteiro - Naif - 25x30cm De 2007
Já fomos (e somos) de tantas cores, numa multiplicidade de tonalidades, imagens, desejos, sonhos. De nós para nós. Numa riqueza que só cada um sabe e sente.


terça-feira, 6 de novembro de 2012

A propósito do meu gato

Não sei o que parece apetecer-me assim falar do meu gato, eu que nunca gostei muito de animais. Quer dizer, não ligava, não lhes dava muita importância, tão embrenhada que sempre andei a tentar decifrar o mistério da vida das pessoas, dos homens e das mulheres, atividade em que investi quase toda a minha energia e afeição. Investi e invisto, muitos mistérios permanecem ainda encobertos e de dificil desocultação. 
Lembro-me apenas de um gato vadio, na infância, com o qual me irritava muito, porque arranhava o meu avô, que quase cego, chamava por mim, aflito. Eu corria atrás dele e só descansava quando já não o via. Não foi um bom principio. De cães tive sempre medo, até mesmo quando fizemos a vontade ao meu filho mais velho e comprámos um, eu a contragosto, mas vencida. Ficava no quintal e estava proibido de entrar em casa. Mas era bem tratado.
No natal do ano passado, perto da meia noite recebi um gato, prenda conjunta de três pessoas de quem gosto muito. Ainda por cima, chegou num cesto de verga pelas mãos de duas grandes amigas que cumplices com a situação, se ofereceram para fazer a surpresa ao vivo.  Quando o gato, bem pequenino, de pelo cinzento, a miar, saltou para o meu regaço, juro que não sei o que senti...estupefacta, maravilhada com a ideia de quem me deu um gato e quem se prestou a fazer a encenação, emocionei-me...mais uma vez pelas pessoas, claro, que tinham sabido inventar um prenda absolutamente diferente. Viva. Quanto ao gato, olhei para ele desconfiada e juro que pensei, sem dizer nada a ninguém "como é que me vou relacionar com ele?". Dias mais tarde, comentava já sem receio ou sentimento de culpa "eu acho que não vou ser capaz de gostar muito dele..."
O gato, o meu, chama-se Gattuso - nome combinado cá em casa e ao qual não me opus -  já está crescido. Muito. É um persa cinzento, com um pelo grande e macio, que todas as noites tem um ritual: procura-me no sofá, aconchega-se no meu regaço e espera que lhe faça festas e mimos. Ronrona, de nariz levantado e enrosca-se de mil maneiras diferentes, a procurar o meu calor e partes do colo de que gosta mais. Ajeita-se como entende. De vez em quando enconsta os olhos muito perto dos meus e olha-me com atenção. Ponho as mãos no seu pelo e sinto como é macio e morno. Dizem cá em casa que é arisco e de facto tem dias em que se esconde e corre e foge e...faz xixi onde não deve, coisa que é atipica para um gato, dizem os entendidos. Não me importo, parece-me coisa da sua "personalidade", a que acho graça, tirando os dias em que me zango. Mas sou branda e gosto muito dele. Não creio que tenha aprendido a gostar mais de animais, apenas me liguei a este, um bocadinho mais em cada dia que foi passando, desde a noite em que cá chegou.  Pelo seu pedigree?  Não, pela forma como entrou cá em casa, pelas pessoas que mo deram, pelo significado da oferta. E porque era natal, havia luzes e anjos, estrelas e duendes e o ano novo se apresentava como uma promessa de renovação da vida e do amor.  E também claro pelo seu jeito de ser gato. Mas isso é coisa de menos importância, quando comparado com a história da sua vinda cá para casa.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

As palavras

Dizem-nos as palavras, em jeito de conversa e elas entranham-se na nossa pele, escavam mais fundo no lugar das veias e vão direitinhas ao coração. Procuram um lugar conhecido, alguns espaços mais recônditos, aconchegam-se nas memórias que identificam, fazem cama e centro de sala e tomam conta de tudo. Tudo é mesmo tudo. Depois, muito juntas, com a força da sua natureza, invadem o nosso corpo, principalmente os olhos, tornando-os tristes e apagados, apenas livres para a saída das lágrimas. Quando aqui chegam, não há como parar o caudal da água, a inundar a cara e as mãos, a cair numa folha de um livro qualquer que estejamos a ler. Muitas vezes atacam também a garganta, fazem um nó no lugar por onde sai e entra o ar que respiramos, transformando os dias num continuo desfiar de soluços. Ainda que em silêncio.
Porque o pior destas palavras que nos dizem às vezes, em alguns dias da nossa vida e se entranham no nosso corpo, é o seu impossível  reconto e partilha, restando-nos apenas deixar passar o tempo sobre elas, como uma nuvem de pó, que ao poisar deixará pouco percetivel a sua grafia e o seu significado. E aí talvez possamos de novo começar a restabelecer a cadência da respiração, parar o caudal das lágrimas, tirar do corpo o peso das palavras que nos foram ditas. Até um dia.   

domingo, 4 de novembro de 2012

A casa


É muito antiga e já foi muito velha, estando agora nova e bonita. Falo de uma casa, com quintal e um poço, algumas árvores de fruta, flores, uma eira, um alpendre com lenha para a lareira e uma arrumada, como sempre dissemos e continuamos a dizer, onde se guardam algumas velharias de outros tempos. Não as deitámos fora ainda, são uma memória necessária, estão lá porque sim e porque não podem ainda ir para a reciclagem. A reciclagem é um procedimento moderno, util, mas nem sempre adequado quando precisamos de manter atuais as memórias antigas. Num dia certo de um tempo que há-de vir, arrumamos a arrumada, despimo-la das velharias e fica tudo limpo. As memórias essas vamos guardá-las na gaveta do coração que é enorme e tem várias divisões.
No interior da casa, mudámos muita coisa. Ou melhor, pintámos de novo o espaço renovado, mantendo o essencial, que é como quem diz, as histórias de quem lá viveu, sonhou, amou...colocámos fotografias: de pais, filhos, tias, avós, em diferentes lugares e épocas, mantendo o fio do tempo que ligou e desligou quantos por lá viveram. De facto e em relação, porque a casa nunca teve muita gente. Mas passa por ela, quando a olhamos, muitos rostos e pessoas, alguns que ainda estão entre nós outros que já partiram, mas que fazem da casa a sua força maior. E ela é pequena, mas amplia-se quando vemos a máquina da costura, o metro de madeira de medir os tecidos, as cadeiras pequenas das crianças se sentarem, oa travesseiros de renda da cama com cem anos, recuperada e ainda no mesmo quarto. Amplia-se mesmo, fica enorme, quando da janela se avista o braço da ria e os juncais e na rua passa um homem em cima de um carro de bois. Se formos às escadas que sobem para a porta da rua, conseguimos ouvir o vento das madrugadas onde saíamos de bicicleta para ir apanhar a camioneta que nos lavava ao comboio que ia para a cidade onde estudávamos. Esta é uma amplitude tremenda, fica o tempo suspenso e sentimo-nos novamente muito jovens e aprendizes.
Dentro da casa e porque o presente às vezes tem que brigar um pouco com o passado, com delicadeza e respeito, colocámos flores, quadros de praias e conchas, cortinas em pano de linho e com bocados de renda, uns móveis de madeira clara, vergas e almofadas, carpetes e tapetes de cores vivas e frescas. Mantivemos alguns móveis antigos que casam bem com os outros, jogando neste mistério das alianças entre o que foi e o que queremos que seja: uma casa que se reconstroi no presente, mantendo vivas as memórias, os laços e os afetos. Para que seja mesmo uma casa, cheia de historias, cheiros e imagens, ainda que pequena e antiga, mas uma casa. Não gostamos de habitações. 


domingo, 28 de outubro de 2012

A vida larga do meu filho


O meu filho mais novo faz amanhã 21 anos. Quando nasceu e saiu de dentro de mim, balbuciei umas quantas palavras em tom de poesia e senti como se uma onda imensa me inundasse e a água corresse veloz dentro e para fora de mim. Creio que ficou um pouco marcado por isso. De espírito livre e alma errante, o meu filho procura a imensidão da vida, numa atitude desassombrada e apoiado em muitas palavras que maneja com sentido, empenho e oportunidade. Gosta de escrever e disso pensa fazer profissão. Lembro-me do seu jeito de ser bebé e menino, corpo redondo e quente, bracinhos ternos, rindo com alegria de tudo, bem disposto e brincalhão. Lembro-me do seu jeito de me abraçar e fazer perguntas e do seu crescimento sereno. Em menino, pois. Tenho saudades desse tempo, de ser uma jovem mãe (com 30 e tal anos somos ainda muito jovens) e de nada desassossegar a espera do futuro. Lembro-me das festas de aniversário, ano após ano, das velas a aumentar, dos amigos pequenos que iam ficando mais velhos e dos amigos adultos que sempre apareciam cá por casa. As fotografias, numa caixa no sótão, mostram este caminho, de bebé até agora. E agora o meu filho está grande, feito um rapaz enorme e procura o mundo ao seu redor e o outro que não vê, mas sabe que existe para lá do horizonte, onde quer chegar. Amanhã, vamos ter um bolo (o mesmo de sempre, com gila e amêndoa), 21 velas, os velhos amigos e os parabéns a você. E quando apagar as velas, vou novamente sentir saudades da sua boca pequenina quando, com dificuldades e caras engraçadas à mistura, soprava a chama. 
É sempre assim…e mesmo sabendo da importância e inevitabilidade da vida larga do meu filho – que é como quem diz, a vida para além de mim e de nós, os cá de casa – sinto saudades da sua vida mais curta, numa geografia mais contida e segura, dos cantos da casa, da rua no bairro, da escola. Uma geografia onde com facilidade dava os pontos cardiais e apontava direção  a direção. Coisa que numa vida larga, com horizonte a perder de vista é muito mais difícil. E sei que tenho que resistir à vontade de lhe oferecer de presente um mapa com tudo assinalado. Para além da minha eventual tranquilidade, isso seria muito enfadonho para quem faz 21 anos.
Parabéns, filho!